DOBRAS VISUAIS

Maurício Lissovsky e a pequena história de Walter Benjamin

Eugène Atget: Fête du Trône, 1929.

Abaixo uma pequena conversa com Maurício Lissovsky sobre a dissertação A fotografia e a pequena história de Walter Benjamin, realizada há dezessete anos.

– Você assinala logo no início que as dezessete páginas do texto de Benjamin desdobrou em pouco mais de uma centena na dissertação, e que tinha dúvidas se seriam suficientes. Dezessete anos depois, quanto ainda consegue extrair da Pequena História da Fotografia, ou melhor, o que o texto ainda diz a você?

O texto do Benjamin representou para mim uma “chave” para articular fotografia e história. Eu já havia trabalhado antes neste tema, organizando exposições, fazendo palestras, publicando artigos. Mas minha preocupação, nos anos 1980, era abrir a história para a fotografia. Era o problema do método, da crítica, da linguagem, etc. Este era mais ou menos o espírito da época. O que a Pequena História me revelou foi que não se tratava de “ensinar” os historiadores a apropriarem-se da fotografia,  mas do contrário. Era a fotografia que devia se apropriar da História. A proposição de Benjamin era fazer História segundo o modelo do fotográfico, sob o signo da urgência, e no horizonte da eternidade.  Essa descoberta fundamental ainda vale para mim. E alguns temas que aparecem na dissertação sempre retornam no meu trabalho: a “semelhança”, os “locais de crime”, a “espera”, o “fragmento”, a “duração” e muitos outros.

– No final do primeiro capítulo (pág. 29) há uma citação à Hannah Arendt onde ela diz que “quanto menor o objeto, mais este lhe parece capaz de conter, da forma mais concentrada, tudo o mais” (em referência a sua experiência no Museu Cluny). Você poderia nos dizer “dois grãos de trigo” importantes na sua compreensão da fotografia, qual a menor parte que te leva a pensar no seu acontecimento?

Do ponto de vista de Benjamin, cada fotografia pode ser esta “menor parte” capaz guardar, de forma concentrada, os traços do todo.  Se eu tivesse que resumir ainda mais e indicar a partir de qual menor parte da menor parte eu penso, eu diria que essa “menor parte” é o gesto. Este gesto, representado pelo clique, consuma a espera e contém a renúncia que todo fotógrafo deve fazer para que haja uma imagem fora de si.

Sempre procuro, nas imagens, pelos vestígios deste gesto.

– É possível pensar a fotografia na atualidade a partir desta passagem?: “O homem que perdeu sua experiência – e com ela, sua memória – é aquele que está se transformando em autômato, submetido a uma economia de gestos repetitivos e mecânicos, e que são, como aqueles em uma linha de produção industrial, indiferentes ao tempo. (pág.55)”

Caramba, Lívia… As perguntas vão ficando cada vez mais difíceis…  Veja, quando Benjamin escreveu isto, ele pensava nas sociedades industriais e nos gestos repetitivos dos trabalhadores. Por isso, quando fiz meu doutorado, elaborei essa idéia da “máquina de esperar” para pensar a máquina fotográfica como um dispositivo de retardamento, como experiência de “resistência ao mecânico” (e não de subserviência à técnica, como foi e ainda é, usualmente, percebida). O fotógrafo era para mim como uma espécie de herói heideggeriano, introduzindo (enquanto hesita entre apertar ou não apertar o botão) um elemento de resistência no seio da técnica.

– Parafraseando um dos capítulos eu pergunto, para você, qual a “utilidade e desvantagem da fotografia, para a história e para a vida”?

Hoje em dia, não sei, não estou seguro da resposta.  Creio que para a história, a fotografia nunca teve tanta utilidade. A chamada “virada pictórica” dos anos 1990 colocou a fotografia no centro da reflexão e da criação artística. Quanto à vida, parece que a fotografia, como prática social, de algum modo deseja competir com ela. Não apenas porque as fotografias parecem estar mais “vivas” do que nunca, mas porque elas vão se despojando das características de descontinuidade que a marcaram na experiência moderna. Não sei dizer se a fotografia tem uma nova lição a nos ensinar (além do que nos resta da “espera” moderna).  Ando seguindo a intuição de que sua nova “lição de vida” seria uma abertura às múltiplas durações do mundo mas, por enquanto, isso é pouco mais que um palpite.

– O que você revisaria hoje neste texto, conceitualmente e como estratégia de pesquisa?

Eu não cortei nada nesta versão que você está publicando. Apenas corrigi uma referência que estava errada (e que, felizmente, a banca não notou…).  Mas também não reli as partes com que menos me identifico hoje.  Creio que eu faria a discussão sobre a questão do ”fragmento” de outro modo, com um pouco mais de flexibilidade. E hoje eu disponho de uma cultura fotográfica bem maior e provavelmente resolveria melhor o capítulo sobre as vanguardas fotográficas alemãs. No entanto, desde que essa dissertação foi defendida, em 1995, os estudos sobre Benjamin e seu pensamento acerca da imagem e da fotografia avolumaram-se tanto que uma dissertação de mestrado sobre isso talvez fosse hoje impensável.  Esta pesquisa serviu para construir uma base a partir da qual pude elaborar todos os meus trabalhos posteriores. Neste sentido, foi bem o que uma dissertação de mestrado tem que ser: consolidar terreno e abrir perspectivas.

– Para terminar uma pergunta bem pop. Você assinala treze textos de Benjamin essenciais para a dissertação, compreensíveis dentro deste contexto. Conta pra gente sua lista com treze textos fundamentais para o estudo da fotografia?

Uma lista pra lá de “chutada”, tá? Um livro por autor (alguns são coletâneas, e contém vários autores dentro deles)

  1. 1. Obras Escolhidas I (Walter Benjamin);
  2. 2. A Câmara Clara (Roland Barthes);
  3. 3. Filosofia da Caixa Preta (Vílém Flusser);
  4. 4. Ensaios sobre a Fotografia (Susan Sontag);
  5. 5. The Originality of Avant-Garde and Other modernist myths (Rosalind Krauss);
  6. 6. Le Temps de l’image (Régis Durand); “Thinking photography” (Victor Burgin, ed.);
  7. 7. Words of Light (Eduardo Cadava);
  8. 8. Photography’s Other Histories (Christophe Pinney, ed.);
  9. 9. Fugitive Images (Patrice Petro, ed.);
  10. 10. What do pictures want? (JTW Mitchell); “Images malgré tout” (Didi-Huberman);
  11. 11. The Return of the Real (Hal Foster);
  12. 12. Figuras do Espanto (Pedro Miguel Frade);
  13. 13. E mais dezenas de outros, pois esta lista muda todo dia…

Para ler:

A fotografia e a pequena história de Walter Benjamin

Dissertação de Mestrado em Comunicação.

Universidade Federal do Rio de Janeiro, 1995.

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Maurício Lissovsky é professor da Pós-Graduação da ECO-UFRJ e um dos autores do Icônica.

No Dobras:

As divagações de Lissovsky

Desempacotando minha biblioteca

Doutorar

Eugène Atget: L' Enfer Cabaret 53 Boulevard de Clichy , 1898.