DOBRAS VISUAIS

Fragmentos de um discurso amoroso

Fragmentos de um discurso amoroso

Este foi um dos primeiros textos que li sobre imagem. 1990, eu ainda era estudande de psicologia quando ganhei este livro do Roland Barthes chamado Fragmentos de um discurso amoroso. Composto de citações da literatura e de pequenas partes que o autor nomeia como Figuras, Ordem e Referências, estrutura-se sobre a ideia de ser um lugar de afirmação do discurso do amor.

Vez ou outra volto a ele para encontrar um espaço para os meus afetos, e é com ele que inauguro esta nova seção no blog, o Lugar do Regesto. Emprestei a expressão do texto O autor como gesto do Giorgio Agamben, com quem ando dialogando nos últimos meses. Ali ele nos diz que “as investigações sobre o sujeito como indivíduo parece ter que ceder o lugar ao regesto, que define as condições e as formas sob as quais o sujeito pode aparecer na ordem do discurso”.

As imagens é um dos verbetes do livro de Barthes, e é ele que transcrevo aqui como um documento meu. Tento lembrar o que eu pensava sobre a imagem naquele tempo a partir destas marcas que deixei na página, mas minha tentativa é vã, o que permanece é apenas o gesto do rabisco do lápis. É hoje que isso volta a fazer sentido na estruturação do meu próprio discurso com a fotografia, por isso o regesto.

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As imagens

IMAGEM. No terreno amoroso, as feridas mais profundas são provocadas mais pelo que se vê que pelo que se sabe.

1. (“De repente, quando voltava do vestiário, ele os vê conversando carinhosamente, inclinados um para o outro.”)

A imagem se destaca; ela é pura e clara como uma letra: é a letra daquilo que me faz mal. Precisa, completa, caprichada, definitiva, ela não deixa lugar para mim: sou excluído como o sou da cena primitiva, que talvez só exista durante o tempo em que ficou destacada pelo contorno da fechadura. Eis então, finalmente, a definição de imagem, de toda imagem: a imagem é aquilo de que sou excluído. Ao contrário desses desenhos-charada, onde o caçador está secretametne desenhado na confusão do arvoredo, eu não estou na cena: a imagem não tem enigma.

2. A imagem é preremptória, ela tem sempre a última palavra; nenhum conhecimento pode contradizê-la, ajeitá-la, torná-la sutil. Wether sabe muito bem que charlotte está prometida a Albert, e, no entanto, ele sofre apenas vagamente; mas “quando Albert a abraça pela cintura esbelta um arrepio lhe corre por todo o corpo”. Sei bem que Charlotte não me pertence, diz a razão de Werther, mas contudo Albert a rouba de mim, diz a imagem que ele tem diante dos olhos. [WERTHER, 89]

3. As imagens das quais sou excluído me são cruéis: mas às vezes também (reviravolta) fico preso na imagem. Ao me afastar da calçada de um café onde tenho que deixar o outro acompanhado, eu me vejo indo embora sozinho, andando, meio abatido, pela rua deserta. Converti minha exclusão em imagem. Essa imagem, onde minha ausência está presa como num espelho, é uma imagem triste.

Uma pintura romântica mostra, sob uma luz polarizada, um amontoado de destroços frios: nenhum homem, nenhum objeto nesse espaço desolado; mas, por isso mesmo, por pouco que eu esteja tomado pela tristeza amorosa, esse vazio pede que eu me projete nele; me vejo como um boneco, sentado sobre um dos blocos, abandonados para sempre. “Estou com frio, diz o enamorado, voltemos”, mas não há nenhuma estrada, o barco está quebrado. Existe um frio especial do enamorado: friozinho do bebê (seja do homem, ou do animal) que precisa de calor materno. [FRIEDRICH, Caspar David. Resto de esperança tirado dos espelhos]

4. O que me fere são as formas da relação, suas imagens; ou melhor, aquilo que os outros chamam de forma, eu sinto como força. A imagem – assim como o exemplo para o obsessivo – é a própria coisa. O enamorado é, portanto, artista, e seu mundo é um mundo invertido, pois nele toda imagem é seu próprio fim (nada além da imagem).

Referência:

BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. Rio de Janeiro: F. Alves, 1990.