DOBRAS VISUAIS

Desempacotando minha biblioteca | Rodrigo Marcondes

Rodrigo Marcondes: Flip, fumando uma cigarrilha e brigando com a Internet, 2011.

Desempacotando Flip, por Rodrigo Marcondes

A ideia de contribuir para o Desempacotando surgiu quando dividi carona com Lívia a caminho do Paraty em Foco do ano passado (demorou mas tá aí!). Conversávamos sobre o Master que estou cursando na AKV St. Joost na Holanda. Lembro de mencionarmos algumas disciplinas, aulas e situações; todavia, não lembro bem como chegamos ao Flip Bool.

Flip é um dos meus tutores no Master. Ele também acumula as funções de pesquisador e colecionador sênior no Nederlands Fotomuseum, já foi professor na Universidade de Leiden e coordenou o Nederlands Fotoarchief in Rotterdam. Além disso, tem uma inacreditável biblioteca em sua casa, para não mencionar o Sol Lewitt pendurado na parede do banheiro.
Durante ano passado tive a oportunidade de passar algumas tardes cavocando pilhas de livros com Flip. Eu e meu grupo de colegas (somos 5 no total) passamos pelo programa “The Past in the Present”, curso ministrado por ele e pelo curador independente Frank van der Stok. Durante 5 meses tivemos encontros, nos quais mergulhamos no panorama geral da fotografia documental contemporânea e desenvolvemos ensaios visuais individuais. Foi uma experiência dolorosa e gratificante.

Eram 14h42 do dia 24 de novembro quando entrei na casa de Flip Bool, em Haia. Havíamos marcado o encontro por telefone alguns dias antes. Discutiríamos o artigo sobre ele que eu estava escrevendo para um blog brasileiro e os rumos de meu trabalho final no Master. Eu estava exatamente 42 minutos atrasado. Sua mulher abriu a porta, e disse que ele já me aguardava na biblioteca. Subi as escadas que levam ao ático ofegante. No caminho fui tirando cachecol e gorro, tentando camuflar de naturalidade o evidente constrangimento por fazer meu anfitrião esperar. Fui enfiando a cabeça pelo vão da porta, passando em seguida o resto do corpo, enquanto já pedia desculpas pelo atraso, culpando o bonde e as reformas na via principal da cidade. Mas logo percebi que a situação não era crítica. Vi fumaça de cigarrilha por trás do monitor do Macbook branco que pousava no meio da mesa repleta de livros. Stroopwafels, chá. E ao invés da resposta à minha tentativa de culpar o transporte público pelo atraso, ouvi a um Flip categórico:

⁃    Essa Internet não é boa ferramenta de pesquisa, disse. Flip estava tentando encontrar detalhes sobre os edifícios mais significativos da praça Dam, em Amsterdã, para um trabalho de pesquisa no qual está envolvido. Tentei ajudar um pouco, dividindo com ele meu vasto conhecimento sobre Internet: truques avançados, como o de colocar a palavra pesquisada entre aspas no Google impressionaram a Flip, mas não acho que tenham conseguido mudar sua opinião sobre a Internet.
Bebemos chá, comemos biscoitos, e conversamos sobre a exibição What’s Next que havia sido inaugurada na semana anterior no Foam. Flip disse não ter achado o trabalho de Erik Kessels original. Disse que na década de 60 um artista fez algo muito similar. De acordo com Flip, uma revista alemã havia publicado o trabalho na época, e a tal revista estava em algum lugar por ali.
Abri meu caderno e procurei a primeira questão que havia formulado no caminho para Haia. “Qual o livro mais raro da biblioteca?”. Ergui a cabeça para fazer a pergunta mas Flip estava embaixo da mesa, procurando pela tal revista alemã. Servi mais um pouco de chá e comecei a folhear os livros que fui encontrando. Cerca de 15 minutos depois, eu já tinha escolhido uma pilha livros (dentre todas que pousavam na mesa) como minha favorita. E foi então que Flip se deu por vencido:

⁃    Não sei onde está a maldita revista, mas achei essa coleção aqui – e me estendeu uma sacola plástica branca. Eram as 24 edições de Fotokritik, revista publicada por Joachim Schmid entre 1982 e 1987. É complicado discutir “raridades” na biblioteca de Flip; desisti da primeira pergunta da série que havia escrito no trem.

Continuamos o bate-papo. Fechei o caderno, e perguntei sobre a pilha de livros de que gostara. Por que estavam agrupados daquela maneira? Ele me respondeu que eram livros que ele vinha separando para ajudar um grupo de estudantes (ou pesquisadores) que estavam desenvolvendo um trabalho sobre memória e fotografia. Resolvi então voltar aos livros, e anotar os nomes de cada um:

The Mother of all Jorneys, de Dinu Li, era o topo da montanha. A sensibilidade com a qual o autor embarca na memória de sua mãe e revisita locais da juventude dela na China é tocante. Combinando imagens de arquivo com fotografias feitas por ele próprio, Li apresenta uma discussão que me interessa profundamente: o fotógrafo (ou contador de histórias) pode se libertar do “fotografar” ( por que não da fotografia?) para acrescentar outros mídia que contribuem para a trama da história. Além de imagens vernaculares, nesse caso Li adiciona uma camada de textos descritivos escritos por sua mãe. O resultado é uma narrativa calaborativa entre mãe e filho bastante poética. Mais do que um livro de fotógrafo, esse é um livro de contador-de-história.

The Kaddu Wasswa Archive, de Andrea Stultiens vinha em seguida. O livro é exatamente o que o nome diz: o arquivo de um personagem registrado e exposto. Particularmente não acho o trabalho mais brilhante de Andrea Stultiens, mas o cuidado na feitura do livro agrega valor ao projeto. Aliás, isso é algo em que os holandeses são realmente impecáveis: design de livro de fotografia é coisa seríssima por aqui. Além disso, o fato de o autor dar voz ao arquivo de um personagem anônimo e assumir o papel de mero “registrador” me parece interessante como processo de trabalho.

Portraits and Cameras 1949-2009, de Hans Eijkelboom. Ideia simples e ao mesmo tempo bastante conceitual de ensaio visual, o livro contrapõe inteligentemente seres humanos e tecnologia (nesse caso a câmera fotográfica). Levanta também uma discussão meta-linguística bastante relevante, e com muito bom humor.

The Day Daddy Died, de Annelies Goedhart. Uma surpresa para mim. Não pelo fato de eu gostar ou não do trabalho. De fato, acho o livro bastante interessante. Mas o que me surpreendeu é o fato de Annelies ser a proprietária do apartamento no qual vivo em Roterdã.  É bom se sentir parte de algo, mesmo que indiretamente e por conta de uma besteira sem tamanho!

Buena Memória, de Marcelo Brodsky não chegou a ser surpresa. O brilhante trabalho do argentino é bastante conhecido por essas bandas. Acredito que o fato de Maxima (filha de um ex-ministro do governo de General Videla na Argentina) ter se casado com Willem-Alexander (príncipe da Holanda) tenha contribuído para a popularização do tema. Independentemente da motivação, Buena Memória já foi exibido por aqui pelo menos duas vezes e, além disso, Brodsky fez uma apresentação bem legal do projeto no último Dutch Doc Days, em Ultrecht.

Lost Memories, de Joachim Schmid, artista alemão que cria a partir da coleção, rearranjo e reapresentação de imagens encontradas ou de arquivo. Sua produção tem se destacado pelo uso das ferramentas da Rede como meio de produção e distribuição dos trabalhos. Em Lost Memories, Schmidt apresenta uma coleção de anúncios referentes a câmeras fotográficas perdidas. O autor seleciona, organiza e re-apresenta esse material, revelando e discutindo a relação do homem moderno com a produção da imagem fotográfica (passando pelo aparelho que a produz). Cada descrição contida nos anúncios pode ser lida como uma fotografia, e o trabalho prova que não há necessidade de capturar sequer uma imagem para fazer um lindo trabalho fotográfico.

Minha visita ao Flip foi até o começo daquela noite. Conversamos ainda sobre uma variedade de assuntos ligados à fotografia. Como qualquer conversa na biblioteca de Flip leva a pelo menos 5 livros diferentes, devo ter visto pelo menos mais meia centena deles antes de ir embora. Jo’borg de Guy Tillim, Twentysix Gasoline Stations (!) de Ed Ruscha e o lindo The Structures of Things Then de David Goldblatt são os que consigo lembrar. Eu ainda demoraria mais 2 meses para finalmente sentar e redigir esse texto, então é compreensível que muita coisa tenha se perdido desde então. Acho que, no final das contas essa deve ser a maior vantagem de ter uma biblioteca como a de Flip: toda vez que se esquece de algo, as paredes de livros estão lá para serem reviradas. Parafraseando Flip: muito melhor que a Internet!

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Rodrigo Marcondes é jornalista, fotógrafo e produtor multimídia. Ao lado de Leo Caobelli e Paulo Fehlauer é integrante do Coletivo Garapa. Em 2010, ingressou no Master of Documentary Photography na Universidade St. Joost, na Holanda.