DOBRAS VISUAIS

Conto de Natal de Auggie Wren | Paul Auster

O que é fotografia?

“Para dizer a verdade, achei isso meio constrangedor. Então, como era quase inevitável, chegou a hora em que me perguntou se eu não estava a fim de ver suas fotografias. (…)

Num cômodo pequeno e sem janela nos fundos da loja, ele abriu uma caixa de papelão e pegou doze álbuns de fotografias pretos e idênticos. Era a obra de toda a sua vida, disse ele, e não tinha levado mais de cinco minutos por dia para construí-la. Toda manhã, nos últimos doze anos, ele parou na esquina da avenida Atlantic com a rua Clinton às sete horas em ponto e tirou uma foto colorida, exatamente do mesmo ângulo. Agora o projeto já chegava a mais de quatro mil fotografias. Cada álbum representava um ano diferente, e todas as fotos estavam dispostas em sequência, de 1o de janeiro até 31 de dezembro, com as datas cuidadosamente anotadas em cada uma. (…)

Enquanto folheava os álbuns e examinava a obra de Auggie, fiquei sem saber o que pensar. Minha primeira impressão foi que aquilo era a coisa mais esquisita e mais desconcertante que eu já tinha visto. Todas as fotos eram iguais. O projeto inteiro era um estonteante bombardeio de repetição, a mesma rua e os mesmos prédios mil vezes seguidas, um inexorável delírio de imagens redundantes. Não conseguia pensar em nada para dizer a Auggie, e assim fiquei virando as páginas e balançando a cabeça, numa apreciação fingida. Auggie, por sua vez, parecia imperturbável, olhava para mim com um sorriso largo no rosto, mas, depois que fiquei nisso durante alguns minutos, de repente ele me interrompeu e disse: ‘Você está indo depressa demais. Não vai sacar qual é o lance se não for mais devagar’. Tinha razão, é claro. Se a gente não olha com calma, jamais consegue enxergar nada. (…) E então, pouco a pouco, fui começando a reconhecer o rosto das pessoas ao fundo, os transeuntes a caminho do trabalho, as mesmas pessoas no mesmo local toda manhã, contemplando um instante de sua vida no campo visual de Auggie. (…)

Auggie estava fotografando o tempo, me dei conta, o tempo natural e o tempo humano, e fazia isso se colocando num cantinho do mundo e desejando transformar aquilo no lugar dele, montando guarda no espaço que havia escolhido para si. Enquanto me observava analisar sua obra, Auggie não parava de sorrir com prazer. Então, quase como se estivesse lendo meus pensamentos, começou a recitar um verso de Shakespeare. ‘Amanhã, amanhã, amanhã’, murmurou em voz baixa, ‘arrasta-se o tempo em seu passo banal’. Compreendi então que ele sabia exatamente o que estava fazendo. (…)

‘Entrei no banheiro e, empilhadas na parede junto ao chuveiro, vi seis ou sete câmeras. Câmeras de trinta e cinco milímetro novinhas em folha, ainda na caixa, mercadoria de primeira. (…) Eu nunca havia tirado uma foto em toda a minha vida, e seguramente nunca roubei nada, mas, na hora que vi aquelas câmeras no banheiro, resolvi que queria uma delas para mim. Assim, sem mais nem menos. E então, sem querer parar para pensar no assunto, enfiei uma das caixas debaixo do braço e voltei para a sala. (…)

Eu já estava prestes a perguntar se ele não estava me enrolando, mas compreendi que ele nunca iria me contar. Eu fora tapeado e induzido a acreditar nele, e isso era a única coisa que importava. Enquanto houver uma pessoa que acredite, não existe história que não possa ser verdadeira.”

Paul Auster em Conto de Natal de Auggie Wren (São Paulo: Companhia das Letras, 2009).

Para conhecer mais:

Sexo por Compaixão (Laura Mañá, 1999)

“Sempre parece não ter fim o tempo corrido desde que acordo. (…) O meu consolo é pensar que quando todos tivermos desaparecido a vida que tenho guardada ficará como um registro de que um dia existiu gente neste povoado.”

Leocádia, personagem de Sexo por Compaixão.

Cortina de Fumaça (Wayne Wang, 1995), filme inspirado no personagem Auggie, com roteiro do próprio Auster: