DOBRAS VISUAIS

As coleções que residem em nós

Raquel Pellicano: Diário de Fato.

A conversa que tivemos no workshop Desdobramentos terminou com uma pequena atividade que propus aos participantes alguns dias antes do início do nosso encontro.

Entreguei a todos o texto Coleção de Areia de Ítalo Calvino e pedi que refletissem sobre a noção de coleção, para criar um conjunto de imagens em que estivesse refletido um aspecto relevante da vida de cada um: a relação com o espaço que habita, casa ou cidade, uma perspectiva sociocultural ou afetiva ou até mesmo uma experiência ordinária.

Calvino nos fala de uma exposição onde no meio de coleções dos mais estranhos objetos, chamou-lhe a atenção uma em especial composta de areia de diversas partes do mundo. Que material é esse que se mostra tão semelhante inicialmente mas que comporta inúmeras diferenças pela origem e significado do lugar? Qual seria o atrativo deste objeto?

Segue-se uma explicação sobre a ideia desta coleção como um diário de viagens que suporta a experiência do deslocamento espaço-temporal da vida: “a necessidade de transformar o escorrer da própria existência numa série de objetos salvos da dispersão, ou numa série de linhas escritas, cristalizadas fora do fluxo contínuo dos pensamentos.”

Deste modo, podemos pensar nestes trípticos coletados por nós como pequenas amostras de experiências visuais destes movimentos. Apenas um exercício de colecionar. Como no cotidiano dentro do Diário de Fato de Raquel Pellicano, ou na vista dos espaços vazios ou abandonados de Ana Abreu em Exterior não é o lado de fora e Vitor Schietti em Silêncio da três, ou nos monumentos fugidios e encapados de Diego Bresani em Erro de paralaxe e Estátua com casaco.

Por vezes a descoberta destes conjuntos passa por uma cor, como as séries de Marcio Oberlaender e José Renato Pereira, por sinalizações como em Eu vi na parede de Amanda Ourofino, ou ainda pela tentativa de Edmílson César Pinto de encontrar um personagem em Procurando Coralina.

A repetição mostra-se uma estratégia nas coleções, os monumentos cobertos de Diego Bressani apontam para isso, bem como as Portas sem título de Renata Osório e também as apropriações de Janaína Miranda. Aqui as árvores, como a areia de Calvino, falam de lugares, mas também das experiências que estas comportam naquilo que nomeamos como paisagem.

A coleção de Perdas de Bete Coutinho também suporta uma espécie de multiplicação, mas agora naquilo que as imagens carregam de afetos. Ao apagar os mortos das fotografias de família, preserva o gesto ainda como um indício de presença. Deste modo, numa estratégia semelhante, Rose May tira o outro do foco em Apagamentos. Em ambos os casos, o desejo e o impedimento do esquecimento.

Desta maneira, este exercício evidencia uma coleção de universos distintos, de possibilidades de destacar do cotidiano, com as imagens, aquilo que transborda, o que por vezes chamamos de invisível por estar longe no espaço e no tempo de seus objetos ou de sua experiência. Calvino nos diz que “o fascínio de uma coleção está nesse tanto que revela e nesse tanto que esconde do impulso secreto que levou a cria-la”. Seguimos neste caminho em um mundo que se tornou inteiramente colecionável, inclusive pela própria fotografia.

Raquel Pellicano: Diário de Fato.

Ana Abreu: Exterior não é o lado de fora.

Vitor Schietti: Silêncio das três.

Vitor Schietti: Silêncio das três.

Diego Bresani: Estátuas com casaco.

Diego Bresani: Erro de Paralaxe.

Marcio Oberlaender: Blue is my color.

José Renato Pereira: Firmando Walter Firmo.

Amanda Ourofino: Eu vi na parede.

Edmílson César Pinto: Procurando Coralina.

Renata Nave: Portas sem título.

Renata Nave: Portas sem título.

Janaína Miranda: Paisagem com Pedro David e Adam Jeppesen.

Bete Coutinho: Perdas.

Rose May: Apagamentos.