DOBRAS VISUAIS

Desempacotando minha biblioteca | Adelaide Ivánova

Adelaide Ivánova, 2011.

Por Adelaide Ivánova

Fazia algum tempo de idas e vindas pra Alemanha, por causa de Armin, quando decidi que era necessário fazer algo a respeito dessa distância. Mas achei meio me mudar só por causa de um boy, então achei que angariaria um pouco mais de respeito se viesse (também) estudar. Pesquisei várias universidades onde pudesse fazer uma graduação em fotografia e apliquei inscrições em Colônia, Essen, Düsseldorf e duas em Berlim: a Universidade de Arte e a Ostkreuzschule. Fui aceita na última, exatamente a que eu estava mais interessada.

A Ostkreuz é uma agência de fotografia que existe desde 1990, fundada por Ute e Werner Mahler, Sibylle Bergemann e Harald Hauswald – todos fotógrafos da Alemanha Oriental. Eles criaram a agência logo após a queda do muro e ela se tornou uma das mais influentes da Europa.

A escola foi criada em 2005 e não tem um perfil como a escola de Düsseldorf, por exemplo, que tem os Becher à sua frente. O esquema de aulas é bem livre e cada um pode se dedicar à sua área de interesse. Para isso, eles oferecem uma estrutura inacreditável de equipamentos e laboratórios, disponíveis 24 horas por dia – de câmeras de grande formato, que em mim metem medo, à laboratório analógico para ampliação de fotos coloridas. Sem contar, claro, nos professores, que são os fotógrafos da própria agência, gente que fez história na fotografia alemã, como Ute e Werner, Sibylle Fendt e por aí vai. Arno Fischer e Sibylle Bergemann foram professores de lá também (ele faleceu em setembro e ela, em novembro do ano passado).

Desde que começaram as aulas temos recebido vários textos para ler, nas aulas de história da fotografia, do Prof. Enno Kaufhold. O curso não é muito teórico, logo adianto, mas vez por outra surgem questões que Werner, professor responsável pela minha turma, sugere que pesquisemos. Ou que outros alunos sugerem. Ou que amigos sugerem.

Um dos que mais me chamou a atenção esse ano – até agora, pelo menos – foi o ensaio sobre fotografia de Baudelaire, escrito em 1859. O texto é bem famoso, mas eu nunca tinha lido. A parte mais legal para mim – e talvez a mais conhecida – é essa: “Agora o público diz a si próprio: ‘A fotografia nos dá a total garantia de exatidão que desejamos’. E esses idiotas realmente acreditam nisso!”

E ainda se acredita nisso, né? A leitura desse texto nos fez pensar mais que tudo sobre o espectador contemporâneo, que em muito se assemelha ao do século XIX (oi?), quando Baudelaire disse seus dizeres. E por isso mesmo nos ficou a pergunta: o que o observador quer ver? E como? Quem decide?

Isso me fez lembrar desse post de Alec Soth, que discuti essa semana com um dos boys das turma, Kevin Fuchs. Nesse caso, não chegamos à nenhuma conclusão. Um fotógrafo deve ou não levar em consideração o observador? Fica a pergunta procês!

Já Peter Schelling, jornalista do jornal alemão Die Welt, indicou Eugene Richards. Não exatamente pelas fotos, mas pela experiência de leitura que o fotógrafo proporciona. Segundo Peter, Eugene é um dos poucos fotógrafos capaz de escrever – e escrever bem, reiterou. De fato, os ‘contos’ que acompanham Few comforts or suprises: the Arkansas Delta são exatamente complementares às fotos. Não se sobrepõem, nem se colocam abaixo delas.

Por último, dois textos que têm me ajudado no meu dever de casa sobre paisagens urbanas. Para esta série, decidi fotografar os prédios dos departamentos de imigrantes de algumas cidades da antiga Alemanha Oriental (Berlim, Dresden, Potsdam e Frankfurt am Oder) e seus arredores. Geralmente esses prédios são um horror, e ficam localizados também em áreas bem desagradáveis da cidade, o que te faz sentir um estrangeiro desde o início. Tenho fotografado nos domingos, quando esses lugares ficam ainda mais deprimentes.

Um deles é The Casket of Magic de Susan Digby, uma artista que nesse trabalho fala sobre a relação entre coisas e a ideia de ‘lar’. Ele me foi sugerido por Johanna Steindorf, fotógrafa alemã-brasileira que mora em Colônia, onde concluiu seu mestrado na Academia de Artes Visuais de lá. O texto está mais relacionado à colecionismo e memória afetiva (oi, fotografia!) do que a relação entre estrangeiros e espaços públicos, mas gera um monte de reflexão sobre o estado do homem que ela descreve como displaced, que são os que me interessam.

O outro é Reflections on Exile, de Edward Said. O texto de Said tem exatamente aquilo que pretendo conseguir com as fotos: uma crueza de quem está emocionalmente envolvido com o assunto, mas sem nenhuma auto-indulgência. Uma das passagens que mais me tocou é essa (que não foi escrita por Said, mas sim por um monge alemão do século XII), que ele cita na página 147 (no pdf abaixo): “O homem que crê que sua terra natal é doce é um principiante; é forte aquele que crê que cada lugar pode ser sua terra natal; perfeito é quando sabe que qualquer lugar no mundo é terra estrangeira”.

Referências:

DIGBY, Susn. The Casket of Magic: Home and Identity from Salvaged Objects. Home Cultures 3. Issue 2  (July 2006): 169-190.

SAID, Edward W. Reflections on Exile. Cambridge: Harvard University Press, 2002. [O livro foi publicado no Brasil em 2003 pela Companhia das Letras com o título Reflexões sobre o exílio e outros ensaios].

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Adelaide Ivanóva é fotógrafa, faz Faculdade de Fotografia na Ostkreuzschule (Berlin) e escreve o blog Vodca Barata.

Adelaide Ivánova, 2011.

Adelaide Ivánova, 2011.

Adelaide Ivánova, 2011.