DOBRAS VISUAIS

Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios | Marçal Aquino

Francilins: Vi elas.

O que é fotografia?

“O segredo, dizia Chang, o china da loja, não é descobrir o que as pessoas escondem, e sim entender o que elas mostram. Mas Chang estava morto. Existe algo mais intimo para exibir ao mundo do que as entranhas? Existe algo tão obsceno?

Foi na loja de Chang. Enquanto esperava que ele embalasse os filmes que havia comprado, distraí os olhos nas fotos da vitrine. O rosto de uma mulher num porta-retrato capturou minha atenção. Era jovem ainda, e muito bonita. Tinha os olhos grandes e escuros e sorria como se estivesse vendo, atrás de quem a fotografava, algo que a deixava imensamente feliz. Só vi mulheres sorrindo daquela maneira quando olhavam para gatos ou crianças.

Eu me virei e dei de cara com ela, a mulher do porta-retrato. Os cabelos estavam mais compridos e sorria de um jeito bem diferente do sorriso da foto. Um rosto com uma luz extraordinária. Cravou em mim um par de olho cor de lodo de bauxita. Perdi o rebolado. (…)

Ela abriu o envelope e espalhou as fotos sobre a balcão de vidro. Um arco-íris; o numero de metal enferrujado na fachada de uma casa antiga; raízes de uma árvore que pareciam um casal num embate amoroso de muitas pernas e braços; a chaminé de uma olaria; uma bicicleta caída na chuva. Nenhuma pessoa ou animal. Apesar disso, fotos boas, feitas por alguém com olho e senso.

Ela notou meu interesse.

Gostou?

Esta aqui é muito boa.

Indiquei uma das imagens: fachos de sol entrando pela falhas no telhado de uma casa em minas.

Poesia e precisão.

Falei isso, vê se pode. Ela me olhou, intrigada. Daí, riu.

Você é fotografo?

Já fui, eu disse. Hoje em dia sou fotografo pra consumo próprio.

E o  que você fotografa?

Um pouco de tudo.

Que nem eu.

Peguei a foto e a examinei de perto.

Você não fotografa gente.

Não gosto.

Porra, pensei, a foto que eu tinha nas mãos não era só boa, era formidável. Um dos fachos de sol incidia, em segundo plano, sobre uma boneca de pano jogada num monte de entulho. Parecia um spot iluminando uma bailarina caída num palco. (…)

A idéia surgiu na hora em que ela sorriu, como se tivesse me aprovado no exame a que me submetera, e separou a foto para me presentear. Nem parei para refletir, apenas coloquei a idéia em prática. Sangue quente.

Não é essa a foto que eu quero, eu disse.

E apontei o porta-retrato na vitrine. Aquilo a desarmou.

Vamos fazer um negócio mais justo, disse. Eu troco esse porta-retrato por uma das suas fotos, o que você me diz?

Chang riu. Seu ouvido antecipara o ruído da gaveta da registradora. Eu avancei uma casa:

Já aviso que você vai sair perdendo, eu nunca fotografei nada tão bonito.

Aquele rosto extraordinário corou um pouco. Só um pouco. Eu pulei várias casas e estendi o cartão para ela. (…)

A mão era grande, maciça; o aperto, delicado. Os imersos olhos escuros me espreitaram – sorriam por ela. Eu pagaria para fotografar aquele rosto. Uma vez, no interior da Espanha, uma mulher na rua cobrou para deixar que eu a fotografasse. Paguei. Valia. (…)

Ele sabe que é examinado, mas evita olhar para ela. Como se a temesse. Uma noite, logo que voltei para casa, eu estava na cozinha limpando uma de minhas câmeras, a única que sobrou. Uma Pentax. (…)

Uma coisa, seu Cauby: quanto a senhor cobraria para fazer meu retrato?

Soprei um cisco da lente da Pentax. Eu tinha uma dívida com dona Jane.

Nada.

E o senhor faria?

Encarei-a. Ela sustentou meu olhar.

Faço de graça, eu disse, se a senhora me deixar fotografar a tatuagem.

Dona Jane cruzou os braços outra vez, apertou-os contra o corpo. Como se tivesse sentido uma dor. (…)

Coloco o jornal sobre o livro e finjo que leio com dificuldade. Na foto que ilustra a notícia, Guido esta sério, circunspecto. É uma foto antiga, devem ter copiado de algum documento. Penso na ironia: com certeza, o próprio Chang fez aquela foto.

Conheci o chinês logo que cheguei, ficamos amigos. Ele foi meu fiador quando aluguei a casa (cobrou por isso, bem entendido; Chang só fazia coisas de graça para os garotos). Eu precisava de espaço para montar um laboratório, e isso era impossível na pensão de dona Jane.

Meu interesse inicial eram as prostitutas. Eu trabalhava num livro de fotos das profissionais que sobrevivem ao redor dos garimpos. Eram todas muito semelhantes, mulheres maltratadas pela genética e pela vida. (O que eu tentava? negar a beleza?) Gostei da cidade, senti o instinto me mandava ficar ali por uns tempos. (…)

Tínhamos combinado por telefone. Enchi três caixas com fotos que fiz em diversos períodos da minha vida – um bom pedaço da minha historia estava naquelas caixas. Incluía material da época em que trabalhei como fotografo de um grande jornal em São Paulo. Fotos boas, o jornal era ousado. (No fim, não sobrou nada disso, mas não é uma perda que considero irreparável.) (…)

Como é que eu tive coragem de mostrar as minhas fotos pra você? Eu sou amadora, nem sei fotografar direito.

Repeti o que havia falado na loja de Chang: as fotos eram boas. E eram mesmo. Ela indicou os quadros na parede.

É, mas você é um profissional.

Não significa muito.

Significa, sim. Significa que você é um bom fotógrafo.

Já ganhei até prêmio, eu disse de molecagem.

Tá vendo? (…)

Clica os presuntos ai, o delegado disse. Seis fotos para cada um, entendido? Dê preferência ao rosto, é pra reconhecimento.

Olhei para os defuntos. E senti enjôo. Protestei:

Porra, cadê o fotógrafo de vocês? O delegado apontou um dos mortos. Um gordo, em quem faltava metade do crânio.

Olha ele ali. Tinha que se meter nessa historia dos garimpeiros? (…)

Fiz o trabalho. Mortos em várias poses, um festival de moscas Depois, me afastei e vomitei metade do meu almoço. O delegado deu risada.

Ia lhe oferecer a vaga de fotógrafo, mas já vi que seu estômago é fraco.

Eu tinha trabalhado na reportagem policial em São Paulo, registrei coisas tenebrosas. Fazia tempo. Eu estava fora de forma.

O meu negócio é fotografar gente viva.

Polozzi abriu a porta da viatura para que eu entrasse. (…)

O Careca se ergue, mete a mão no bolso da bermuda e pega a carteira. E se aproxima para me entregar a foto de uma mulher de pele jambo, cabelos curtos, lábios grossos e olhos meio rasgados. O menino fica de joelhos e estica o pescoço para conhecer Marinês. Ela esta sorrindo na foto, mas seu rosto tem uma aura trágica. Uma notícia de loucura na família. Algumas pessoas têm isso. Geralmente, acabam mal.

O senhor entende por que eu fiz o que fiz, seu Cauby?

Entendo.

Marinês foi fotografada num parque de diversões. As suas costas, quase desfocada, uma criança que passa segurando um balão colorido também olha para a câmera. Uma parte da roda gigante aparece enquadrada ao fundo. A luz e de inverno e Marinês está vestida com uma blusa vermelha. É uma bela mulher, não há como negar. Uma típica mestiça, genuíno produto nacional. Já me disseram que as brasileiras são as mulheres mais bonitas do mundo. Besteira. Vi mulheres belíssimas em todos os cantos do planeta onde estive. Fotografei algumas. Minha obra.

Passo a foto de Marinês para o menino e tento Imaginar como teria sido o Careca mais jovem. Difícil. Dá para ver apenas que o tempo foi impiedoso com ele. Um rosto de sulcos e bolsas – e tufos de pêlos escuros que espreitam da cavidade de suas orelhas. Sofrimento, acho, esse combustível meio caro aos platônicos.

A chuva cessa, deixando o ar da noite limpo, brilhante. Uma noite de vidro. A enxurrada perdeu volume e a água empoçada no beco aos poucos começa a baixar. O Careca guarda a foto na carteira e volta a sentar-se no seu lugar. O menino esta com olhar parado, ausente. Sofreu um baque forte com a imagem de Marinês. Posso apostar que já pôs a imaginação para funcionar. É assim que a coisa começa. (…)

O velho (o pai) foi um bom fotógrafo, afinal. Documentou meia dúzia de Copas e alguns momentos cruciais do futebol. Vivia falando de uma obra paralela – “artística”, ele dizia -, que nunca realizou. Isso o fez infeliz. E ele se dedicou com afinco a reduzir a pó os sonhos de todos que estavam ao seu redor. Adoeceu de um jeito fulminante e morreu sem que nos reconciliássemos. Não fui nem ao seu enterro. (…)

Eu adivinhava os dias em que ela viria. Já acordava com a música daquela mulher tocando na cabeça. Deixei de fotografar qualquer coisa que não fosse Lavínia. Minto. O investigador Polozzi apareceu numa tarde e me levou para fotografar uns índios na delegacia. A polícia preparava um relatório para a Funai sobre um incidente ocorrido na tribo que vivia encurralada pela cidade. Estava ligado a uma tradição deles, que feria a lei dos brancos: haviam sacrificado uma índia que tivera um filho com um garimpeiro, e depois a enterraram com a criança ainda viva. Eram três índios, estavam encolhidos numa cela imunda. Não trocaram uma palavra enquanto os fotografei. Me olhavam com hostilidade. (…)

Mostrei-Ihe Truffaut, Meden, Mehldau, Murilo e Drummond. Falei de Cappa, de Kertész, de Richard Kern, de Eric Fischl e de outros malucos que andaram e ainda andam por ai atrás de poesia  Meus heróis. Mostrei-Ihe um mundo, o meu mundo.

E me assustei com o mundo que ela me mostrou. (…)

Eu me limitava a fotografa-las e a receber minha grana e as mandava embora. Estava imerso no feitiço de Lavínia, envolvido numa espécie de neblina doce e dolorosa. Uma felicidade sem futuro, como qualquer felicidade que se preze. (…)

Em vez de responder, olhei para a porta que o garoto atravessara. Chang sabia que eu sabia. Na verdade, a cidade inteira sabia. Cheguei a ver as fotos que ele fazia dos meninos. Ingênuas demais. Pornografia naif. Os modelos de Chang, na maioria dos casos, tinham pinta de desajustados e no corpo marcas de sérios confrontos com a vida. Escória juvenil. (…)

Na verdade tem uma coisa que você pode fazer por mim, ele disse.

E o que é?

Você posaria para uma foto?

Ele ergueu a aba do chapéu e fixou em mim os olhos que as lentes tornavam desproporcionais ao rosto.

O moço quer tirar meu retrato, é isso.

É

Chagas me estudou mais um pouco. Como se tentasse entender que espécie de maluco tinha diante dele.

Pra que?

Expliquei que era fotógrafo. Ele continuou me fitando, desconfiado.

Não precisa ser agora, é claro, eu disse. Você pode voltar outra …

Chagas me interrompeu.

Quer saber de uma coisa engraçada? Esse é o único favor que eu não posso fazer. (…)

Eu espalhava as fotos de Lavínia sobre a cama e tentava organiza-Ias pela cronologia. No fundo, eu queria recuperar os detalhes do dia em que fizera cada uma. O incêndio que as precedera. Existira um conjunto impressionante de nus (Lavínia foi a mulher mais sensual que fotografei, mesmo distraída, parecia ter um pacto de cumplicidade com a câmera). O tom dos nus variava dos mais rebuscados, que se pretendiam artísticos – e daí eróticos -, aos escancarados.

Tirei fotos de uma quantidade absurda de mulheres, devo ter batido um recorde entre os fotógrafos brasileiros. Nenhuma delas, porem, devassou as carnes de um jeito tão escandaloso quanto Lavínia. Nem as meninas dos garimpo. Só ver as fotos. (…)

De nudez agressiva da Lavínia-Shirley, ou mesmo outras, na contraluz, que mostravam apenas o bico de um dos peitos da Lavínia suave e acanhada, não saciava a fome que eu sentia. Servia só para espicaçar o bicho que escavava dentro de mim. (…)

Sem Lavínia , foi como se uma nuvem sinistra de abandono estacionasse em cima de mim. Passei a me fotografar todos os dias com uma Polaroid e espetava o resultado no painel de cortiça da cozinha. A decadência documentada nessa sequência de auto-retratos não deixava dúvida: eu e minha barba ficávamos cada vez mais tristes. Eu estava deteriorando. (…)

Ouvi as vozes assim que a draga se afastou . E, logo abaixo da ponte, dois sujeitos se ergueram no meio do capinzal , sujos de lama ate a cintura. Um deles, o mais velho, levava uma cartucheira. O outro era um rapazote, quase um menino ainda. O barranco aos escorregões. Personagens: 1o faroeste encenando naquele lugar.  Lamentei não estar com a câmera. (…)

Numa das temporadas que passou recolhida, Lavínia descobriu a fotografia. Foi paixão instantânea. Num daquele, cursos que davam para distrair o bando de meninas selvagens, com excesso de tempo ocioso. Ela enfim, se encantou com algo que parecia valer a pena. Mas foi obrigada a relegar esse interesse ao tempo futuro dos outros sonhos que pretendia realizar. Igual a casar, ter filhos, morar numa casa onde ninguém ficasse o tempo inteiro discutindo e brigando.

Quando fez dezoito anos, Lavínia participou de um projeto de reintegração social: arrumaram para ela um emprego de auxiliar numa loja de ferragens e uma vaga num quarto de pensão, junto com outras três egressas de instituições assistenciais. E por um tempo ela sossegou. Inscreveu-se num curso de fotografia, comprou no crediário uma câmera ordinária e andava com ela pra baixo e pra cima, fotografando a esmo.

Vem dessa época uma fantasia curiosa. Funcionava assim: Lavínia escolhia um homem entre os transeuntes, ao acaso, e passava a segui-lo pelas ruas até onde fosse possível. Brincava de imaginar. (…)

De repente Alfredo sumiu por uns tempos. Não deu noticia nem por telefone. Lavínia sentiu falta dele, é certo. Porém estava precisando ficar sozinha naquele momento. Bastava ver as fotos dessa época, parecia que apenas o feio interessava a lente de sua câmera. Só os esquetes ásperos do espetáculo do mundo: o menino aleijado no calçadão do centro; uma árvore condenada de folhas cinzentas; as ruínas de uma casa imperial; um sofá estripado no meio da calçada. (…)

Desculpe, Cauby, não quis te ofender. Perguntei porque ela deixou um monte de filmes para revelar e não apareceu pra buscar. Já tem umas duas semanas.

A caixa continha centenas de fotos – precisamente quinhentas e vinte e sete, de acordo com o chinês. Retirei algumas e enfileirei-as no balcão. Todas iguais. Retratavam, de forma obsessiva, a mesma cena vista do mesmo angulo: uma janela de madeira fechada em uma velha casa. A única diferença perceptível de uma foto para a outra era a variação mínima de luz, indicando que Lavínia passara horas imóvel, disparando alucinada sua Canon, só parando para trocar o filme. Talvez um dia inteiro. Escavei o interior  da caixa, algumas fotos caíram no chão, até encontrar uma seqüência em que já não havia mais luz natural. Mal dava para enxergar a pintura descascada da janela. Louco né ? Chang comentou, com bafo de bala de anis. Louco? Por quê? Eu não fotografava com a mesma obsessão? Qual o problema?

(Questionei Lavínia sobre essas fotos. Ela explicou que tinha se apaixonado pela janela. E resolver homenageá-la fotografando um dia de sua existência. Contou que chegou ao local as seis da manhã e ficou dezoito horas sentada diante da casa. Tomou apenas água nesse período. E só parou de fotografar porque sofreu um desmaio.)

A esperança é o pior dos venenos, seu Cauby. O senhor não concorda? (…)

Sentados na varanda, contemplamos um por  do sol inverossímil. Um flerte da natureza com o clichê. Não conheço um fotógrafo que não possua algumas no prontuário. O ar esta fresco e a tarde de primavera, silenciosa. (…)

Nunca me senti tão alegre (e tão sozinho) na vida. Fui transportado para um lugar iluminado por milhares de cores das quais eu nem sequer sabia o nome, e coloquei a ter visões e meu pai apareceu. Em aparência, tal qual eu me lembrava dele um velho turrão e meio malcheiroso. Disse que eu estava em dívida com ele, me fez prometer que montaria uma exposição com suas fotos. Logo que meu pai morreu voltei a morar com minha mãe. Na época eu arrastava sem muito entusiasmo a faculdade de jornalismo, depois de abandonar pelo caminho a curso de agricultura. Na realidade, eu não sabia direito o que fazer da vida. Foi quando resolvi seguir o evangelho da fotografia. E não há como negar: ainda que por influência póstuma, meu pai teve tudo a ver com isso. Aconteceu no dia em que mexi no espólio do velho, uma enormidade de imagens, negativos, lentes e câmeras armazenados sem muito zelo por minha mãe, após a morte dele, no porão tímido da casa. O grosso do acervo não me interessou – cenas de jogadores de futebol, com boa vontade passos de um balé viril em torno de uma bola.

Mas fiquei emocionado ao descobrir um punhado de registros da minha infância, fotos para as quais, obviamente, eu não me recordava de ter posado. Uma imagem em particular me tocou, um flagrante doméstico captado em preto e branco: eu e minha irmã numa rede no quintal de casa, era a companhia de Lui, um vira-lata que idolatrávamos a ponto de chorar sua morte de velhice. Éramos bem pequenos. Minha irmã, que hoje mora em Miami, casada com um gringo metido com exportações, e com quem converso por telefone, quando muito, uma vez por ano no Natal, segura a minha mão, como se me protegesse. Miramos a lente com sorrisos marotos naquela cumplicidade só possível entre irmãos. Estamos transbordantes de alegria, até Lui parece sorrir. Uma das idílicas manhãs de domingo em que o velho nos usava como modelos antes de almoçar e sair para gargalhar a vida nos estádios de futebol.

Havia ainda no acervo flagrantes urbanos, paisagens, monumentos, transeuntes e flores, muitas flores. Uma obsessão. Achei livros com reproduções das flores gloriosas de Mapplethorpe e Maricato. O que me surpreendeu; nunca imaginei que um sujeito bronco como meu pai os conhecesse. Ao examinar aquelas imagens, tive de reconhecer o apuro técnico posto a serviço de uma sensibilidade refinada. Fiquei impressionado. Meu pai, à sua maneira, fora um grande artista. Outra coisa me espantou: a organização meticulosa do material – as fotos possuíam etiquetas no verso, que informavam a data e o local em que haviam sido feitas. E eu me recordava de meu pai como um homem desmazelado, que nem todos os dias se dava ao trabalho de tomar banho e fazer a barba ou de mudar as roupas de baixo.

O melhor de sua obra, contudo, achei acondicionado numa enorme caixa de papelão. Uma estupenda coleção de nus femininos em formatos diversos. Um material infernalmente bom, ensaios que se equilibravam com grande imaginação entre o erótico refinado e o vulgar. A maravilhosa “obra paralela” de meu pai. Não eram simples fotos, eram olhares de paixão para as modelos. E eu conhecia pelo menos duas delas, conhecia bem. O velho deve ter começado a fotografar minha mãe logo após se casarem. E durante quinze anos, de acordo com o registro nas etiquetas, dedicou-se a colher as provas da passagem do tempo sobre o corpo de uma mulher bela e triste – sempre triste, mesmo quando sorria para a câmera. Imagens feitas em casa e, ao que parecia, em quartos de hotel.

Uma surpresa; eu também aparecia num dos retratos, se bem que de modo indireto, ainda abrigado no útero dela. Uma das preciosidades da coleção a mostrava nos últimos meses da gravidez.

Expondo de um jeito despudorado os seios volumosos e a espessa pentelheira escura onde terminava o ventre que como comprovava a etiqueta, eu dilatava prestes a vir ao mundo. Sou obrigado a confessar que ver as formas delicada daquele corpo, aos poucos se tornando opulentas, mexeu comigo de um jeito inesperado. Tive uma ereção. Por obra e graça do velho, submerso no odor azulado de mofo do porão, desejei minha mãe. De repente cessaram as fotos dela – um marco do momento em que o amor dos dois se estagnou?, eu me permiti especular. Entrou em cena outra modelo, de quem também estive muito próximo, nossa vizinha Marieta, a primeira mulher por quem me apaixonei, o oceano inicial em que me orgulhei sem saber nadar. Revê-la desnuda, no auge de sua beleza madura, me inundou de saudade de nossas tardes. A última foto em que ela apareceu foi feita dias antes da morte do velho. Um caso de amor renitente. Marieta posou no banheiro, com uma toalha enrolada nos cabelos e um dos braços levantados, depilando a axila. A luz do flash rebateu na extremidade do espelho, cobriu de prata os contornos de sua pele. Escreveu um poema ali.

Eu associava o cheiro pungente daquele porão mofado aos tempos de menino e à descoberta das emoções do corpo em companhia de revistas suecas. Passou também a me lembrar o dia em que tomei a decisão de me tornar fotógrafo. Cada um tem a madeleine que merece.

(Tentei mostrar essas fotos a minha irmã, depois da morte de minha mãe, quando cuidávamos da partilha dos bens. Ela nem quis ver. Meu cunhado gringo sugeriu que eu as queimasse, o que, é óbvio que não fiz.) (…)

Brincava com o deus Cronos. Pra que pressa? Refiz contato com algum amigos em São Paulo, existia uma possibilidade de trabalho logo que eu chegasse, como fotógrafo de jornal. Podia não ser o melhor dos mundos, mas já era alguma coisa. (…)

Com a parte que me coube da herança deixada por minha mãe comprei um pequeno apartamento no centro de São Paulo. Então me demiti do jornal e dissipei o resto da grana vivendo uma longa temporada no exterior. Nessa época estudei fotografia pra valer em Paris. Um tempo alegre e hedonista, do qual sinto muita nostalgia. Perambulei por diversos países me descobrindo como fotógrafo. Vi poesia e maldade.

Tive mulheres de raspão nessas andanças, nenhuma que me fizesse pedir visto de permanência no país. Eu me sentia um filósofo vagabundo, que só filosofava para consumo próprio. Até que acabou o dinheiro e precisei voltar.

O mercado passava por mais um espasmo em sua crise permanente. Trabalhei um pouco com publicidade e, quando a coisa apertou , acabei no time de paparazzi de uma revista de escândalos. Saia na noite no enlaço de astros e estrelas infiéis. Tomei um tapa na cara, beliscões, bolsadas, empurrões diversos, quebraram meu equipamento mais de uma vez. A maioria das celebridades, contudo, posava com satisfação para os flagrantes. Péssimo para a reputação e a auto-estima de qualquer fotógrafo que se preze.

Fiquei nessa vida até o dia em que ganhei uma bolsa de uma agência francesa de fotografia. E achei que ia fazer bem para a minha alma um livro com as mariposas dos garimpos. Vim para este lugar onde as casas, os carros, as pessoas e até os cachorros pareciam sujos de terra. Um lugar do qual fiquei íntimo a ponto de acompanhar o enterro de conhecidos. (…)

Teve tempo de colocar um lenço entre os dentes, mas não de chegar ao sofá, como pretendia, estrebuchou no chão convulsivo, de olhos arregalados. Emitia um silvo, um lamento vindo das fossas mais abissais da garganta. A saliva borbulhou no canto da boca. Nesse momento fiz um negócio reprovável: peguei a Pentax que carregava na bolsa e documentei a ebulição de Viktor. Em closes. Até que o ataque cedeu, finalizando por estremecimentos a intervalos irregulares em todo o corpo. Rendeu uma sequência de imagens impressionantes que, além de mim, ninguém mais chegou a ver. Doenças profissionais. (…)

Havia outras. Não menos assustadores. Dois dias antes, Chico Chagas aparecera na minha casa para uma visita. Eu ainda encaixotava os livros em marcha lenta, parando com frequência para reler passagens, e cheguei a pensar por um instante que ele afinal topara ser fotografado. O tripé continuava armado na sala, achei perfeita que fosse ele o modelo de minha derradeira foto naquele lugar. Um tipo à altura, uma aquisição e tanto para a minha coleção de freaks. Mas não se tratava disso.

Chagas tirou o chapéu e entrou. Afastei a pilha de livros, abrindo espaço no sofá. Ele preferiu permanecerem em pé aleitou os óculos para examinar as fotos que ainda restavam nas paredes. Pela cara que fez, não entendeu direito o jogo de sombras que eu captara no interior de uma igreja com Metz. Nem se interessou muito pelo chiaro escuro no quadro ao lado; franziu os olhos míopes, mas duvido que tenha sacado que era um detalhe de um nu feminino. Passou batido pelo casal de namorados à beira do lago, visto de longe sob uma árvore frondosa, não reparou que eram duas garotas se beijando. Chagas parou diante da velhinha de Granada, campeã absoluta de visitação naquela sala.

Mexi na Nikon sobre o tripé. Estava calculando se teria alguma chance de fotografá-lo sem que ele percebesse. Uma tentação. Chagas se movimentou no ato, sumiu do campo de visor. Puro instinto animal. Desisti do artifício, lembrava meus tempos odiosos de paparazzo, soldo de revistas de fofocas sobre artistas.

Ele mantinha os olhos de sapo cravados nos meus. Tive uma iluminação nessa hora, ainda que atrasada. Compreendi sua aversão à ser fotografado. E também o que havia no resto das pessoas quando cruzavam com Chagas na rua. Não era respeito, era medo. O bom e velho medo. (…)

Ora, podia pedir o que quisesse. Ate que eu fosse a pé para a Mongólia. Eu iria. Só para ver um sorriso em seu rosto. Achei que dava para adivinhar o que ela queria. Mas me enganei.

Me da o retrato da sua avó? Tive trabalho para fazer aquela foto. A velhinha espanhola, a principio, não topou. Sua filha e o genro se meteram na história. Precisei oferecer dinheiro a eles. Valeu a pena. Era uma imagem poderosa. O rosto enrugado, os olhos miúdos e de boca arqueada tinham a força das grandes tragédias, e contavam uma porção de histórias, todas de sofrimento humano. Fomos para a sala, removi o quadro da parede e o entreguei a Lavínia. Ela me beijou no rosto. Senti seus lábios frios e o hálito denso.

E eu, tenho direito a um último pedido?

Ela riu forçado e seu rosto corou. Ficou nervosa. Tateou os bolsos da calça atrás de cigarros inexistentes. Deve ter imaginado que sabia o que eu iria pedir. E também se enganou.

Quero tirar uma foto sua.

Não deu tempo de revelar esse filme. No entanto, pelos anos que me restarem, vou me lembrar da imagem que enxerguei no visor. Só não existirá a prova material. Se existisse, mostraria, abraçada ao quadro da velhinha, Lavínia olhando para a lente com uma sombra de horror no rosto, como se a acuasse o orifício do cano de um revólver. Mordia o lábio no instante em que disparei a câmera o agasalho e o cabelo desarrumado davam um toque de desamparo ainda maior à sua figura. Medo e abandono – seria uma legenda perfeita para essa foto que nunca existiu. Não me lembro de ter visto alguém tão triste quanta ela naquele momento.

De repente, sem mais nem menos, Lavínia falou:

Estou esperando um filho seu, Cauby. (…)

O dano maior contudo, foi que perdi um olho, o direito, o que para um fotógrafo, habituado a privilegiá-lo na hora de olhar a vida ao redor, pode ser considerado um problema sério. Conheci um fotógrafo caolho na época do jornal, grande craque das imagens, ganhou prêmios, aqui e no exterior. Você nem notava que ele tinha só uma vista. Alguém me disse que é apenas questão de treino, igual ensinar um jogador destro a chutar com o pé esquerdo. Pode ser. Tenho me esforçado bastante com a Pentax. Às vezes, gosto do resultado, outras vezes, não. Normal.

Me olham, quando olham, como se eu não estivesse mais ali. Afinal, fui morto. Já me mataram. Só que feito um Lázaro, de tempos multimídia, retornei para assombrar a todos com a minha câmera tiracolo e as minhas chagas. (…)

O mais curioso, no entanto, é que, para mim, a morte de Chang só teve consequências positivas. Como ninguém reclamou, fiquei de posse do Corcel e usava o carro em meus deslocamentos. De repente, na ausência do fotógrafo oficial, meus serviços profissionais foram valorizados e passei a ser muito requisitado para documentar aniversários, casamentos e batizados – fui obrigado ate a desencaixotar minhas câmeras. Voltei a ganhar dinheiro, como acontece nas guerras, apesar da atmosfera hostil à sua volta, as pessoas tentavam levar uma vida normal e continuavam envelhecendo, casando, dando festas, tendo filhos. E morrendo. E eu sem saber do meu filho com Lavínia. (…)

A voz das ruas dizia que Magali funcionava como testa de ferro do verdadeiro dono do Grelo, um deputado da região. Foi a primeira mulher que fotografei para o meu livro, em sessões vespertinas num dos quartos, enquanto não começavam as funções, na casa. Ficamos amigos, íntimos até. Surgiu um clima entre nós, que infelizmente não prosperou. Magali saltou fora. Me disse:

Não posso viver essa história agora.

E me revelou o óbvio: estava comprometida com outro macho, era amante fiel do deputado. Podia posar de gerente de bordel, de “ex-puta”, como ela mesma gostava de falar. Nenhum aventureiro a levaria para a cama naquele momento.

Nessa época, Magali me introduziu num nicho de mercado promissor, que me de fama de rufião. Um negócio simples e lucrativo: fazer as fotos que as prostitutas vendiam como suvenir a garimpeiros de passagem pelos bordéis, um paliativo valioso para ajudá-los na travessia solitária de noites imensas, em acampamentos no meio do nada. Um exercício e tanto: tinha de desprezar qualquer veleidade erótica, mesmo as involuntárias; chafurdei na pornografia barata. Arreganhada. E ganhei dinheiro com isso, fiquei conhecido na zona. Igual a uma puta, eu vivia “da porra dos outros”, como Magali também gostava de falar. E muita gente considerava essa atividade uma forma disfarçada de cafetinagem. Em paralelo, colhia material para o meu livro, me sentindo o Keith Carradine em Pretty Baby. (…)

Na sala, parte do teto havia cedido e uma parede inteira desabara. As remanescentes, enegrecidas, ameaçavam também cair. O fogo começou no quarto que eu usava como laboratório, me disseram. Encontrou no material químico estocado um poder de combustão, informava o laudo que li. O incêndio se alastrou e em questão de minutos consumiu a casa inteira. Milhares de livros e fotos – e de histórias. Um período da minha vida elevado subitamente a condição de lenha. Fumaça. (…)

Eu adorava aquela Pentax. Fazia tempo que estava comigo, andei o mundo com ela. Minha câmera predileta. Do ponto de vista estima, não tinha preço. E gostava também do livro, um exemplar autografado pelo autor. Eu vivia relendo e anotando comentários em suas páginas. era um tratado delicioso e nem um pouco ortodoxo sobre o amor. Schianberg, por sinal, não era nada ortodoxo. Um psicanalista doidão, que andava meio nômade pelo mundo. Conheci-o em São Paulo, na época de jornal, ficamos amigos. Fotografei-o para uma reportagem – na ocasião, ele arrendava um cinema pornô na avenida Rio Branco, para um experimento com frequentadores. Mais freak, impossível. (…)

Um pretão que estava deitado no catre tinha uma opinião diferente. Para ele, esse tipo de coisa não aconteceria ali, o delegado era casca grossa, ninguém teria peito de tentar invadir a delegacia. Usava uma bermuda desfiada e, numa daquelas coincidências que tornam a vida deliciosa, uma camiseta com uma foto tirada por mim: o advogado de rosto esburacado, candidato de oposição derrotado nas últimas eleições para a prefeitura. (…)

Nem mexeu com ânimo dos leitores do semanário, na maioria semi-analfabetos. Bugres. O que os deixou irados, a ponto de romperem a trégua, foi o punhado de fotos que Viktor usou, com muito bom gosto, por sinal, para ilustrar excertos da obra que legava a posteridade. Lavínia vestida apenas com a luz do flash da minha câmera. Cópias das fotos que ele me vendera um dia. Eu devia saber que Viktor nunca desperdiçaria munição desse calibre. E enfim alcançou pleno sentido do a charada que me coubera em seu espólio. (Mas eu não a resolvi. Não fugi. Nem levei a dama.) (…)

Eu ficava imaginando se algum dia voltaria a me sentir inteiro de novo. Dificilmente. Pergunte a alguém que teve o campo visual reduzido à metade se o mundo melhorou. Duvido.

Marçal Aquino em Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios (São Paulo: Companhia das Letras, 2005).

Para conhecer mais: Francilins.

Francilins: Vi elas.

Francilins: Vi elas.

Francilins: Vi elas.