DOBRAS VISUAIS

Perto do coração selvagem | Clarice Lispector

O que é fotografia?

“E sempre no pingo de tempo que vinha nada acontecia se ela continuava a esperar o que ia acontecer, compreende? (…)

Não, não, – repetia ela – é preciso não ter medo de criar. (…)

Sinceramente, eu vivo. Quem sou? Bem, isso já é demais. (…) Aprenda a encontrar tudo o que existe dentro de você. (…)

Sobretudo tenho medo de dizer, porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo. (…)

– O que se consegue quando se fica feliz?, sua voz era uma seta clara e fina. A professora olhou para Joana.

– Repita a pergunta…?

Silêncio. A professora sorriu arrumando os livros.

– Pergunte de novo, Joana, eu é que não ouvi.

– Queria saber: depois que se é feliz o que acontece? O que vem depois? – repetiu a menina com obstinação. (…)

Era sempre inútil ter sido feliz ou infeliz. (…)

O espaço rodeado por quatro paredes tem um valor específico, provocado não tanto pelo fato de ser espaço mas pelo de estar rodeado por paredes. (…)

Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome. (…)

Havia muita coisa a ver também. Certos instantes de ver valiam como ‘flores sobre o túmulo’: o que se via passava a existir. No entanto Joana não esperava a visão num milagre nem anunciada pelo anjo Gabriel. Surpreendia-a mesmo no que já enxergara, mas subitamente vendo pela primeira vez, subitamente compreendendo que aquilo vivia sempre. (…) E de repente, sim, ali estava a coisa verdadeira. Um retrato antigo de alguém que não se conhece e nunca se reconhecerá porque o retrato é antigo ou porque o retratado tornou-se pó. (…) Para se ter uma visão, a coisa não precisava ser triste ou alegre ou se manifestar. Bastava existir, de preferência parada e silenciosa, para nela se sentir a marca. Por Deus, a marca da existência… É que a visão consistia em surpreender o símbolo das coisas nas próprias coisas. (…)

Analisar instante por instante, perceber o núcleo de cada coisa feita de tempo e espaço. Possuir cada momento, ligar a consciência a eles, como pequenos filamentos quase imperceptíveis mas fortes. É a vida? Mesmo assim ela me escaparia. Outro modo de captá-la seria viver. Mas o sonho é mais completo que a realidade, esta me afoga na inconsciência. (…)

Muito provável mesmo que nunca tivesse vivido aquilo. Os leques, por exemplo, não tinham consistência na sua memória. Se queria pensar neles não via na realidade leques, porém manchas brilhantes nadando de um lado para outro entre palavras em francês, sussurradas com cuidado por lábios juntos, para frente assim como um beijo enviado de longe. O leque principiava como leque e terminava com as palavras em francês. (…)

Dentro de si sentiu de novo acumular-se o tempo vivido. A sensação era flutuante como a lembrança de uma casa em que se morou. Não da casa propriamente, mas da posição da casa dentro de si, em relação ao pai batendo na máquina, em relação ao quintal do vizinho e ao sol de tardinha. Vago, longíquo, mudo. Um instante… acabou-se.”

Clarice Lispector em Perto do coração selvagem (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986).

Para conhecer mais: Gustavo Pellizzon