DOBRAS VISUAIS

Fotografias para o fim do mundo | Parte V

John Cyr: Richard Misrach's developer tray.

John Cyr: Richard Misrach’s developer tray.

Ou sobre quando nos tornamos um personagem

Deixo aqui uma pista que pode ser bastante útil nas pesquisas do futuro: um ‘estudo’ sobre o modo de operar do fotógrafo, um personagem que se tornou muito caro na sociedade a partir da modernidade. “Todos amam um bom fotógrafo”, nos diz Cristovão Tezza em seu livro O fotógrafo. Empresto aqui suas palavras e sigo no mesmo caminho da seção O que é fotografia? no Dobras Visuais, uma pesquisa interminável e deliciosa de fazer.

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“Conferiu de novo a fotografia de cores apagadas, tirada por uma máquina descartável por um não fotógrafo em alguma festa de aniversário – uma jovem difusamente bonita, parece; pode ser qualquer pessoa. (…)

O quase sorriso que ele via era o cacoete de algum músculo da boca. Sentiu vontade de fotografá-la, um close daquela rede de linhas que lhe cortavam sutilmente a face, mas a ideia absurda não vai além do gesto de acariciar a bolsa de trabalho, que aliás já dói no ombro, a correia esticada pelo peso. Preciso de uma solução mais leve, ele pensou. (…)

Abriu a bolsa e trouxe de lá a máquina, um gesto de defesa que se tornava uma ataque, e com algum prazer ele foi sentindo a transformação do desconhecido que, intrigado, talvez não acreditasse no que estava vendo do outro lado dos carros passando entre eles com o sinal aberto. O fotógrafo desengatou da câmera a grande-angular, sempre com os olhos fixos no desocupado, e colocou (sentindo o estalo do encaixe nas mãos) a teleobjetiva. Sentiu-se seguro. Focou o rosto distante do desconhecido e lentamente o arrastou para perto, avaliando a metamorfose daquela face agora acuada atrás dos vultos dos carros; segurou-o firme, aproximou-o ainda mais, quase podia sentir o tremor daquele olhos, a respiração subitamente assustada que vinha de lá, a interrogação que se transformava, quem sabe, em indignação, com que direito !?, diria o desconhecido, talvez o considerando que cometera um erro terrível e no entanto óbvio desde o primeiro instante, aquilo era a polícia – e virou a cabeça ocultando-a ridicularmente atrás do poste, uma criança brincando de 31. O fotógrafo manteve-o preso ali, pronto para eternizá-lo, covarde atrás do poste. Na calçada, as pessoas evitavam passar diante dele, esperando a fotografia que não vinha, ou davam corridinhas rápidas abaixando a cabeça, tudo para não atrapalhar o cromo da manhã, algumas intrigadas investigando a direção da objetiva para descobrir que foto afinal seria aquela tão brutalmente feia naquela esquina sem graça – mas sempre se respeita o fotógrafo, o mensageiro da identidade, lembrou ele, agora mais tranquilo, recordando-se de seu chefe e de seu hilariante, ou apenas ridículo, elogio do fotógrafo. (…) Nenhuma fotografia. O fotógrafo guardou a máquina na bolsa e ruminou o pequeno prazer de perseguir o desconhecido e fazê-lo sumir só com o poder da sua lente. (…)

Abriu a bolsa e tirou de lá a câmera, vistosa, impressionante com a teleobjetiva – uma máquina fotográfica quase sempre pacifica as pessoas, ele pensou, lembrando do discurso do seu chefe; há nela sempre uma longíqua promessa de eternidade, ou pelo menos um toque de comunhão. (…)

No que foi atendido imediatamente: a palavra ‘agência’, com aquela objetiva brilhando no seu peito, parece que liberou a todos, dando sentido às coisas do mundo. (…)

E cacoete profissional, olhou em volta simulando familiaridade. (…) Enquanto remexia na sacola fingindo escolher o filme ideal para aquela luz e aquelas fotos, o filme virgem já engatilhado na máquina. (…) Porque cada gesto dele era escarradamente o gesto de um fotógrafo profissional, e não há fotógrafos assassinos, assaltantes, estupradores, nem mesmo fotógrafos ostensivamente desagradáveis, porque entre eles e o mundo está a máquina, o amortecedor do olhar, a cortina do gesto, a defesa. Eventualmente pedófilos (ele sorriu), mas na sua forma mais inofensiva. Eles são os portadores das imagens, quase ele disse em voz alta, sorrindo agora para ela, todos acham bonita essa imagem, os mensageiros da identidade, como anjos de igreja; nós temos uma vida provisória, só estamos nessa terra para ligar a pessoa à sua imagem e depois nos afastar em silêncio. (…)

Olhando para ela com o alheamento simpático do fotógrafo, enquadrou-a numa fotografia imaginária. (…) Desculpe. Eu só tiro fotos. – Refugiou-se mais uma vez nos detalhes da mentira: – É uma série de fotografias para uma campanha completa: um fôlder, um catálogo, um conjunto de encartes de fim de semana. (…) E o fotógrafo, afinal, virou-se frontalmente para ela, o olhar atento, meticuloso, detalhista, já empunhando a máquina, e ela sorriu, estendendo a mão graciosa até o apoio da janela e olhando tranquila em direção a um horizonte imaginário. (…)

Praticamente sem olhar para a bolsa, trocou o filme e a objetiva da máquina – a perícia do tato. Melhor continuar o trabalho, que se foda – um filme a mais, 200 dólares a mais, ele calculou. Um hábito, na verdade: a fotografia é o meu trabalho. Em tudo que vejo, vejo uma foto. (…) Disparou duas fotografias e esperou um, dois, três carros que voavam entre eles no simulacro da lente. (…) Não enganava ninguém: tirava fotos. Não envolvia ninguém, ele defendeu-se ao advogado imaginário, no mesmo passo em que sentia a trapaça: não minta para você, ouviu-se dizendo de novo quase em voz alta. (…)

Ele jamais me veria do outro lado da rua, ela pensou; ele só tem os dois planos da fotografia. O mundo e a vida se penduram na parede. (…) Passaria na creche para pegar a filha (que ficaria com ela, é claro; ele não tem memória para cuidar dela, ainda que durante muitos anos tirasse mais fotos dela do que jamais pudesse revelar, imprimir ou mesmo ver. A geladeira cheia de filmes. Isso cansa, ela decidiu. (…)

Saia para fotografar o mundo. (…) Ele não quis pensar mais nessas fotos antes de vê-las: talvez toda a minha depressão, fantasiou ele, esteja na distância entre o sonho e a sua imagem. Quando revelei a última fotografia que, de fato, era a imagem sonhada? (…) As melhores talvez tenham sido as filhas do acaso; pensa-se numa coisa, enquadra-se outra, revela-se uma terceira que sai melhor que todos os projetos. (…)

Tudo melhorou, do índice de mortalidade infantil às máquinas fotográficas que nem usam mais filme e que fazem deste laboratório escuro um buraco medieval onde um charlatão todos os dias tenta transformar pedra em ouro. (…) Guardou o segredo, que às vezes voltava, intrigante, como agora. Era sempre nos cinco minutos do fixador, e ele sorriu da ideia. Impossível esquecer. É o fixador. (…)

O fotógrafo cansado, o fotógrafo mecânico do dia a dia do jornal vislumbra, enfim, uma fotografia que vale a pena, que revela, que brilha: o perfil de Íris na luz. Uma composição rara. Uma imagem realmente bonita. Uma composição de luz e sombra em que tudo dá certo, do trecho de nuvem que se afasta do sol para projetar uma pequena nuance, aos olhos que se pacificam entre um momento e outro. Mas tudo estava errado e tudo era inútil: não eram fotos publicitárias; não eram fotos artísticas. (…)

Ele não quis olhar nem pensar: estava se comportando como um idiota. Instintivamente, a mão procurou a teleobjetiva na bolsa aberta de um golpe, e ele puxou Lídia e o desconhecido para bem perto, enquadrando-os: conversavam, de fato, e sorriam, ela mais, ele menos. O dedo tateou o botão para bater a foto, mas um sentimento de vergonha, uma sombra, impediu-o de fotografar – não era uma fotografia o que ele estava vendo. (…)

Você é o único fotógrafo mal-humorado que eu conheço, disse-lhe o chefe uma vez. Nunca se esqueça: fotógrafos são pessoas amadas, amáveis e simpáticas; eles são mensageiros da identidade, e todo mundo quer uma identidade; eles são espelhos de circo, no bom sentido; eles têm o poder de melhorar o mundo na parcela que mais importa: o nosso rosto. Mais, muito mais que isso: só os fotógrafos podem revelar, de fato, quem nós somos. De dentro da nossa pequena caixa mental, não nos vemos; eles é que nos veem, e nos estendem a nossa fotografia colorida: olha você aqui! (…)

O fotógrafo, discreto, abriu o zíper da sacola e tirou de lá a máquina. Esguendo-se, a câmera em punho: – Você se importa? O deputado não respondeu. (…) Com a máquina o fotógrafo sentiu-se mais seguro. Sorriu: – É meu modo de entender as coisas. Continue falando que eu estou ouvindo. (…) Girando o anel da objetiva, aproximou os olhos do deputado de seus olhos e avaliou-os demoradamente. – Sim, está ótimo. São olhos sinceros, ele pensou, afastando-os de novo para enquadrar o conjunto na fotografia grave, séria e cívica: um homem que tem um projeto político para melhorar o Brasil e o mundo, e bateu a fotografia sob um sopro fugaz de felicidade. (…)

Aquele modo como os fotógrafos olham para as pessoas quando vão fotografá-las: uma coisa estranha e misteriosamente excitante, porque eles não nos veem – eles veem um recorte, um jogo de claro e escuro, uma composição. Eles olham atentamente para você, olham nos olhos, profundamente, como ninguém mais se atreve a olhar, exceto sob paixão; e no entanto trata-se apenas de uma investigação, é só isso o que eles fazem; eles querem saber qual o seu lugar naquele recorte do mundo que eles têm diante deles. E o quadro na parede ao fundo e o abajour próximo têm tanta importância quanto os seus olhos, ela lembrou, como lembraria milhares de outras vezes; é um olhar utilitário, ainda que o fim de tudo seja a beleza, não a nossa, mas a deles, a exata medida do talento. (…)

Uma tarefa tranquila só na aparência, porque exigiria acompanhar aquilo até o fim; sempre pode haver um confronto inesperado – uma foice na cabeça – e você perde aquela fotografia única, de ganhar prêmio, ou, a essa altura melhor ainda, ganhar mais dinheiro. (…)

Mal domino a fotografia e você quer que eu tenha um filho? Ela achava graça entre a relação da fotografia e a filha, que afinal veio por acaso. Alice chamou-se, por todas as homenagens somadas em torno de Lewis Carroll. (…) Tempos felizes e incompletos. Fotografar a mulher era o lado visível de sua paixão; pelas fotos ele sabia como ela estava – mais que isso, era como se desvendasse o futuro. Uma vez ele criou a ciência da photomancia. Veja, ele disse: tem a quiromancia, a cartomancia, mas não descobriram ainda a photomancia, com ph. Vou registrá-la; ficarei milionário. Por alguns segundos, talvez minutos, Lídia levou aquilo a sério: Você sabe que isso tem futuro? Ninguém está mais interessado em razão ou ciência; as religiões já se danaram todas – sobrou a magia, que é a irracionalidade em estado puro. (…) Melhor ler as mãos, as cartas ou as fotos do que assistir à missa, que pressupõe uma organização quase racional das coisas no mundo. (…) Uma placa de bar o levou a imaginar sua nova profissão: PHOTOMANCIA. O que ele, um dia, gostou em Lídia? A nitidez da foto. Sim, nenhuma pessoa era tão parecida com a própria fotografia quanto ela, ele lembrou. Você vê a foto e apreende alguém, que vem a ser exatamente a pessoa real que você vê em seguida; até o jeito de respirar, ele murmurou com outro sorriso. Fotografou-a muitas vezes e a cada quadro chegava mais perto dela. O que, talvez, alguém o acusou, seja o modo que você descobriu para não tocar em ninguém. A fotografia faz por você. (…)

Era uma sensação sinestésica (o cheiro da revelação): varrer cada fotograma à procura de todo o seu pontencial – o que essa fotografia terá a me dizer? Ele resistia teimosamente – e burramente, ele sabia – à ideia da fotografia digital, que crianças novas e entusiasmadas da redação tentavam demostrar nas telas coloridas – isso muda tudo, ele intuía, à medida que ia acompanhando, mês a mês, a mudança na redação. se você quer sobreviver, disse-lhe o chefe – e nem terminou a frase. O fotógrafo resiste, o verdadeiro fotógrafo resiste, ele balbuciava para ele mesmo, vivendo a sua melhor fantasia: sou um homem dos anos 70. Integração com a natureza. Sejamos autênticos. (…) A minha composição é sempre conservadora – uma vez lhe disseram; se ela chega a ser clássica, ótimo; se fica no meio do caminho, o fotógrafo está morto. Mas este enquadramento está perfeito, ele teimou, como uma vingança infantil contra o exército digital: essa foto não precisa ser recortada. (…)

Sou eu – ela disse, tanto uma criança que descobre a fotografia quanto um adulto surpreso com algum mistério insuspeitado que se revela bruto no espelho. Linda, essa fotografia. E para que o fotógrafo não imaginasse excesso de vaidade (ele pensou), acrescentava:  você me melhorou muito – e sorriu, sem tirar os olhos dela mesma. (…) E como se ela quisesse confirmar a consistência do que diziam, abriu de novo o envelope e de novo se concentrou em ver-se, mas agora com uma certa dureza no olhar, sem admiração nem autopiedade, ele avaliou, agora ela estava vendo também o olhar dele, fotógrafo, e no fundo tentava descobrir o que aquele olhar tinha de verdade, no que aquela imagem equilibrada em preto e branco, no que aquela delicadeza em chiaroescuro teria parentesco com ela mesma. (…)  É como se ela visse um longo filmenaquela imagem que do papel olhava para ela, e ali fosse se decifrando. A fotografia como uma espécie de chave. (…)

Uma fotografia é em si uma pequena trapaça, um discreto intermediário, um despachante da realidade nos entregando um documento de segunda mão, mas de alguma forma autenticado. (…)

Todos amam um bom fotógrafo.”

TEZZA, Cristovão. O fotógrafo. Rio de Janeiro: Record, 2011.

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Convite do Paraty em Foco para editar o blog do festival em 2011. Propus uma série de sete posts intitulada Fotografias para o fim do mundo, um diálogo com a ideia acerca do Futuro da Fotografia, tema do evento.