DOBRAS VISUAIS

Fotografias para o fim do mundo | Parte IV

Ou das vezes em que simplesmente inventamos um mundo

É impressionante a quantidade de arquivos que geramos a partir de meados do século XX. Sem dúvida os futuros pesquisadores irão se deparar com este dado a nosso respeito, o do por que criamos tantos meios para guardar. Se lembrarmos que a memória é diretamente ligada ao esquecimento, avaliamos o tamanho do nosso problema diante da quantidade de informações preservadas. Vivemos perante um abismo: a medida da visibilidade dos objetos surge também a sua invisibilidade.

Perante um arquivo podemos criar memórias, reescrever histórias, inventar alguns fatos, tentar apagar outros tantos. É assim que tanto o futuro, quanto o passado, nunca estarão livres de nossas intervenções. Desta forma, podemos pensar que um mesmo documento pode gerar diferentes narrativas sobre determinados eventos, em alguns casos bastante perversas como já temos testemunho, e em outros, fazer aparecer um significado que até então não tenha vindo à tona. Sempre será um risco aquilo que alguns artistas fizeram ao dar significado a acervos públicos e privados a partir dos anos 1970, fazer emergir a trama da memória e do esquecimento, da porosidade do tempo e do espaço, no nosso caso, por meio das imagens.

Pensando sobre isso, escolhi para este quarto post da série Fotografias para o fim do mundo um trabalho chamado Pabellon Aleman que assisti no ano passado em um Seminário promovido pela revista Studium, que posteriormente publicou o artigo de Juan Millares, autor do filme.

Millares trabalha com imagens do Pabellon Aleman construído para a Exposição Internacional em Barcelona em 1929, desmontado logo em seguida. Como passou a ser considerado um marco da arquitetura moderna de Mies van der Rohe pelo uso dos espelhos, das transparências e dos espaços vazios, foi reconstruído e reinaugurado em 1986. Até então, quase por meio século, esta referencia permaneceu viva apenas por meio das fotografias de documentação do prédio e dos eventos ocorridos ali.

Diante da sua experiência com a reconstrução do Pabellon Aleman, Millares elabora uma narrativa ficcional com as fotografias em branco e preto da primeira versão desta edificação, uma trama que envolve o significado deste espaço e de personagens encontrados na sua pesquisa nos arquivos. Segundo o autor relatou na ocasião do Seminário, pelo fato das fotografias lhe parecerem fantasmagóricas e misteriosas resolveu construir uma história envolvendo algumas personalidades presentes: o Rei Alfonso XIII, uma suposta baronesa e o Barão Georg Von Schnitzler, representante do governo alemão.

Parece que Millares opera nas lacunas da fragilidade da memória destas imagens e propõe não uma restituição da história, mas a construção de uma ilusão a partir da experiência vivida com as fotografias. Uma operação bastante explorada no âmbito do que chamamos de fotografia contemporânea, a noção de que por vezes construímos o mundo em conjunto com suas representações.

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Convite do Paraty em Foco para editar o blog do festival em 2011. Propus uma série de sete posts intitulada Fotografias para o fim do mundo, um diálogo com a ideia acerca do Futuro da Fotografia, tema do evento.