DOBRAS VISUAIS

Fotografias para o fim do mundo | Parte III

Ou sobre quando reconstruímos o mundo

Neste terceiro post da série Fotografias para o fim do mundo resgato a apresentação do professor Mauricio Lissovsky durante o Fórum Latino Americano de Fotografia no ano passado, quando nos fez algumas proposições sobre o futuro da fotografia, tema retomado nesta edição do Paraty em Foco.

“Porque as fotografias são esta condensação de tempos, nunca estão inteiramente no passado ou no presente. São seres que habitam o limiar entre passado e presente, entre vivo e morto, exatamente como os fantasmas. E são, como os fantasmas, seres instáveis. (…) As fotografias atravessam os tempos como os fantasmas atravessam paredes, ambos condenados a fazer a incessante mediação entre o que foi, o que é, e o que será.”

Pensemos nas inúmeras fotografias que esperam ainda serem descobertas e reconhecidas, ou em outras tantas que talvez permanecerão guardadas até o final dos tempos. Com o crescimento de uma sociedade da memória a partir de meados do século XX, inúmeros arquivos são criados e passam a ser cada vez mais valorizados, e temas como a armazenagem e a recuperação de informações entram no debate contemporâneo.

Deparar-se com uma imagem que faça sentido em um arquivo pode significar o encontro entre diferentes tempos. “É o reencontro de um porvir que o passado sonhara – e que somente nossos próprios sonhos de futuro permitem agora perceber”, nos disse Lissovsky. Para pensar sobre isso, escolhi deixar o filme Nijuman no Borei [200.000 phantoms] de Jean-Gabriel Périot (2007) como uma pista para os nossos futuros pesquisadores. Uma das histórias possíveis de serem contadas sobre a tragédia da bomba atômica na Segunda Guerra.

A montagem tem a cúpula do Memorial da Paz de Hiroshima como elemento central numa sequencia não cronológica de aproximadamente 650 fotografias datadas entre 1915 e 2006. O edifício localiza-se a 150 metros do epicentro da explosão que matou mais de 70 mil pessoas e feriu outras milhares em agosto de 1945. Todo o entorno foi destruído, mas o domo permaneceu praticamente intacto.

Camadas do tempo em imagens. No entorno da cena principal vemos destruições, dia e noite, o memorial, crianças brincando, lanternas pela paz, pessoas passando, restaurações, turismo, fotografias sendo feitas, monumentos. Estratos que sobrepõem um passado e nos indicam a possibilidade expandirmos a compreensão do nosso presente.

A trilha Larkspur and Lazarus dos ingleses Current 93 reforça a noção de reparação presente no filme, daquilo que na nossa fantasia imaginaríamos desfazer ou pelo menos, refazer no presente para sermos merecedores de um futuro mais digno. Afinal, “assegurar o passado não é uma tarefa menos arriscada do que assegurar o futuro”, nos disse Andreas Huyssen [1]. Parece que ainda precisamos destas rememorações produtivas.

A tempo, ainda dentro do tema: no International Center of Photography em Nova York está acontecendo a exposição Hiroshima: Ground Zero 1945. Trata-se das provas de contato de imagens que o governo americano realizou como documentação dos efeitos da bomba com o objetivo de registrar o seu impacto nos diversos materiais (!) ao redor do local da explosão, o chamado primeiro Ground Zero.

[1] HUYSSEN, Andreas. Seduzidos pela Memória. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2000.

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Convite do Paraty em Foco para editar o blog do festival em 2011. Propus uma série de sete posts intitulada Fotografias para o fim do mundo, um diálogo com a ideia acerca do Futuro da Fotografia, tema do evento.