DOBRAS VISUAIS

Fotografias para o fim do mundo | Parte II

Ou sobre quando precisamos matar uma fotografia para criar outra

As escolhas feitas para a série Fotografias para o fim do mundo passam necessariamente pela experiência que tenho com a descoberta da fotografia. Não falo daquela histórica que comemoramos hoje, procuro pensar naquela vivida por mim, daquilo que consigo observar no mundo tendo-a como mediadora.

Os pesquisadores do futuro, dentro do contexto lúdico desta série, terão acesso a inúmeros livros sobre a história da fotografia, sobre como as imagens circulam e o que significam. Obviamente não precisarão da minha modesta lista, mas se conseguirem decodificar alguns códigos e ler os nossos blogs, poderão quem sabe refletir sobre um processo de pesquisa em andamento neste período antes do fim da humanidade. Na minha imaginação eu adoraria que neste momento eles estivessem tomando uma boa limonada para inspirar suas buscas.

Mas vamos lá, escolho duas fotografias para este post:

Henri Cartier-Bresson: Behind the Gare Saint-Lazare, 1932.

Henri Cartier-Bresson: Behind the Gare Saint-Lazare, 1932.

Yves Klein: Leap into the Void, 1960.

Yves Klein: Leap into the Void, 1960.

A imagem de Bresson todos conhecem dentro de uma tradição e de uma série de equívocos que envolve a noção de Instante Decisivo. Uma fotografia que nasce colada aquilo que se convencionou chamar de Documental. A sacralização do momento e o fetichismo da integridade da visão formou gerações de fotógrafos ávidos pelos encontro com o seu instante único e certeiro como uma flecha.

Este salto é bem construído na sua lógica, um enquadramento equilibrado, elementos da cena que compõem um bom jogo: a bailarina que repete o salto no cartaz, as linhas paralelas tão estruturantes e a presença dos círculos que antecedem visualmente aquilo que poderíamos ver em seguida, o movimento da água quando o pé alcança-la. Mas não temos a possibilidade de vê-lo, tal imagem cristalizou em nossa história como um salto pleno.

A imagem de Klein desponta em outro contexto, ligada aos experimentalismos das vanguardas e da arte conceitual, um meio que refletia uma ideia de arte aderida as ações da vida e do pensamento. Estamos diante de uma geração preocupada com as relações com o mundo. Portanto, a produção dos artefatos, incluindo a fotografia, é mais uma forma de viver a arte naquele momento.

Klein é frequentemente associado a noção de Vazio por suas proposições que envolviam o espaço e a experiência, como performance. Salto no vazio é uma delas. Nos deparamos com um gesto que não nos diz exatamente a direção a seguir, tenso, elástico a ponto de nos dizer até hoje que talvez seja um salto inacabado.

Dois saltos em direções opostas: por vezes precisamos matar uma fotografia para criar outra.

Não se trata de matar Bresson, obviamente. Mas é demasiado ingênuo olhar para a sua tradição sem compreender o contexto de sua produção, o que ela mediou e tudo o que veio depois. Talvez não seja somente responsabilidade dele diretamente, mas da forma como criamos o mito do grande fotógrafo do século, daquele que nos mostra definitivamente como olhar.

Neste sentido, o salto de Klein encontra-se aqui ligado a ilusão daquilo que supõe-se conseguir captar. Parece não propor grandes certezas, apenas a possibilidade de corrermos alguns riscos. Parece que assim estamos mais perto da fotografia que acreditamos.

Escolhi estas duas fotografias para resgatar um passado próximo. No anos anterior, durante o Paraty em Foco assisti Horizonte, workshop de João Castilho, artista que admiro pela forma como reflete suas inquietações. Entre tantos artistas selecionados por ele para mostrar os rumos da sua própria fotografia, João começou falando destas duas imagens.

Passei um período refletindo sobre como uma fotografia nasce para nós e a assumimos como experiência, até que ela se quebra. Assim me parece que foi parte desta pesquisa que ele apresentou, fruto do seu mestrado.

João começou sua trajetória no fotojornalismo e ali adquiriu os maneirismos da profissão. Após a primeira grande série parece que começa a perceber tais limites e parte para uma outra direção, em busca da experimentação do espaço, da construção de uma outra imagem. Pense no abismo que há entre Paisagem Submersa e Metamorfose. Foi bonito ver o salto de João.

Desse modo, gostaria de sugerir que hoje comemorássemos apenas uma fotografia como possibilidade.

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Convite do Paraty em Foco para editar o blog do festival em 2011. Propus uma série de sete posts intitulada Fotografias para o fim do mundo, um diálogo com a ideia acerca do Futuro da Fotografia, tema do evento.