DOBRAS VISUAIS

Doutorar | Maurício Lissovsky

Anotações:

De onde vem os lugares? Esta é a ideia da paisagem. A espera é o trabalho do fotografo de fazer surgir o lugar.

“Nao se pode falar do deserto como de um lugar, pois ele é, também, um não-lugar, o não-lugar de um lugar ou um lugar de um nao-lugar.” Edmond Jabès

“A duração real morde as coisas e deixa nelas a marca de seus dentes.” Bergson

Toda a paisagem do século XIX está ligada essencialmente a uma ideia de ponto de vista, a conquista deste ponto de vista, o que se quer inscrever na imagem é “olha onde eu fui, vejam onde eu estava”.

De algum modo eu sugiro que existe um pecado original na paisagem americana, existe um rastro de um povo que já habitava ali antes de aquilo ser uma paisagem.

Os Manuais do século XIX diziam: “procure um bom ponto de vista”.

A paisagem supõe um apagamento, não da paisagem auratica, mas de um momento quando aquilo ainda não era paisagem.

Duas figuras originais da paisagem, dois polos: eternidade X força de mudança:

– Um momento de restituição: aquilo de devolver a paisagem a sua eternidade | Ansel Adams é o paradigma aqui, ele dá um polimento, dá lustre às paisagens.

– Acolhimento da potencia de transformação de mundo, criadora da natureza | Weston: série Oceano, sobre o deserto, não é o ponto de vista do deserto, é a sua capacidade de se transformar.

Dois traços da Paisagem na Fotografia Contemporânea:

– Devir tempo dos lugares – lugares que viram tempo e tempo que viram lugares. Figuras da jornada (a diferença entre partir e chegar é a espera e não o ponto de vista) e do retorno (lugar do exílio, o lugar onde se retorna) | Abbas Kiarostami.

– Estratos – outro modo de relacionar tempo e espaço. A natureza do percurso é diferente. Ideia de sedimentação, os fatos vão chegando e se acumulando | John Daves e Hiroshi Sugimoto.

Pensar a fotografia de paisagem como um gesto fóssil. Perceber a matéria como a memória da mudança, do espaço.

Não há lugar, é sempre uma conjunção de tempo e espaço.

Todo fotógrafo de paisagem está em busca do paraíso perdido.

Como enxergar o problema da paisagem não como uma cronologia, mas como um só problema. É diferente da história da fotografia tradicional, por que a imagem é anacrônica. Elas não são todas de uma época.

O problema do fotógrafo de paisagem é encontrar no ato fotográfico aquilo de onde o lugar provém, a partir do qual esse mundo onde eu estou pode vir a se transformar num lugar, isso é sempre atual.

Para ler:

Rastros na Paisagem: a fotografia e a proveniência dos lugares, publicado na Revista Contemporânea da UFBA.