DOBRAS VISUAIS

O museu da inocência II | Orhan Pamuk

O que é fotografia? 

Sobre colecionadores e museus

“Sentado naqueles aposentos abafados, cercado por vasos e vestidos antigos e pela mobília empoeirada descartada por minha mãe, percorrendo uma a uma as fotos instantâneas amadoras de meu pai, relembrando momentos de minha infância e minha juventude que nem sequer percebera ter esquecido, e aquele artefatos me davam a impressão de acalmar os nervos. (…)

Tendo me tornado – com o passar do tempo – um antropólogo da minha própria experiência, não sinto o menor impulso de depreciar essas almas obsessivas que recolhem cacos de cerâmica, artefatos e utensílios em terras distantes e os organizam a fim de expô-los a nós, para podermos entender melhor as vidas dos outros e a nossa própria. (…)

Qualquer pessoa remotamente interessada na política da civilização saberá que os museus são os repositórios dos artigos dos quais a Civilização Ocidental deriva a riqueza do seu conhecimento, que lhe permite dominar o mundo. Da mesma forma, quando um colecionador autêntico, de cujos esforços dependem esses museus, reúne seus primeiros objetos, quase nunca se pergunta qual será o destino final de seu tesouro. Quando os primeiros objetos coletados chegaram às suas mãos, os primeiros colecionadores genuínos – que mais tarde viriam a expor, organizar e catalogar suas coleções (nos primeiros catálogos, que foram as enciclopédias) – nunca reconheciam o valor real desses artigos. (…)

Estes cartões-postais do Hilton de Istambul foram adquiridos uns vinte anos depois dos acontecimentos que descrevo; alguns deles consegui percorrendo pequenos museus e lojas de bricabraque na cidade e em pontos da Europa, outros negociei com os principais colecionadores de Istambul no processo de criação do Museu da Inocência. Quando, depois de uma prolongada transação com o notoriamente neurótico colecionador Halit Bey, o Inválido, consegui adquirir um destes cartões-postais mostrando a fachada modernista do hotel em estilo internacional, e obtive permissão para tocá-lo, lembrei-me não só a noite de minha festa de noivado como de toda a minha infância. (…)

De meados de junho ao início de outubro de 1976, fomos ver mais de cinqüenta filmes nos cinemas ao ar livre, e exponho aqui os canhotos dos ingressos, juntamente com as fotografias exibidas na entrada e os cartazes que consegui adquirir nos anos subsequentes de colecionadores de Istambul. (…) Nos anos seguintes, esses cinemas ao ar livre haveriam de desaparecer – as amoreiras e os plátanos foram derrubados, sendo substituídos por prédios de apartamentos ou transformados em estacionamentos ou campos de futebol reduzidos de grama artificial. (…)

Eis por que Tarik Bey aconselhava a sua mulher a ‘esquecer-se do tempo’. Quando as pessoas vêm visitar meu museu e examinam os antigos pertences da família Keskin – especialmente todos aqueles relógios de parede, de bolso e de pulso quebrados e enferrujados que já não funcionam há anos –, quero que percebam como são estranhos, como parecem existir fora do tempo, como criaram entre si um tempo que só eles marcaram. Este é o mundo atemporal cujo ar eu respirava nos anos em que freqüentei a casa de Füsun e sua família. (…)

O poder das coisas é inerente às memórias que acumulam em si mesmas, e também nas vicissitudes de nossa imaginação e nossa memória – disso não há nenhuma dúvida. (…)

No fim das contas, a finalidade de um romance, como também de um museu, aliás, não é narrar nossas memórias com tamanha sinceridade que conseguimos transformar a felicidade individual numa felicidade compartilhável? (…)

Anos mais tarde, quando conheci os estranhos e obsessivos colecionadores de Istambul, quando visitei suas casas abarrotadas até o teto de papéis, bugigangas, caixas de fotografias, tentando entender toda vez o que aquelas almas irmãs da minha sentiam pelas tampas de garrafa de refrigerante ou pelas fotos de estrelas do cinema e que significado tinha cada nova aquisição, eu me lembrava de como me sentia toda vez que subtraía alguma coisa da casa dos Keskin. (…)

Os visitantes do meu Museu da Inocência devem obrigar-se, portanto, a encarar os objetos aqui expostos – os botões, os copos, as fotografias antigas e os pentes de Füsun – não como objetos reais no momento presente, mas como memórias minhas. Experimentar esse momento presente como memória é vivenciar uma ilusão temporal. Mas eu também experimentava uma ilusão espacial. (…)

Senti um consolo equivalente, uma compreensão profunda, à medida que andava a esmo em torno dos museus. Não estou falando do Louvre nem de Beaubourg, nem dos outros museus lotados e importantes da mesma estirpe; estou falando dos muitos museus vazios que encontrei em Paris, coleções que ninguém jamais visita. (…) Sempre que vagava sozinho por museus como esses, sentia-me reanimado. Encontrava alguma sala dos fundos, longe do olhar dos guardas que acompanhavam atentamente cada passo meu; e, enquanto o som do tráfego, das construções e do tumulto urbano se infiltrava ali, era como se tivesse entrado num reino à parte que coexistia com as ruas movimentadas da cidade mas não pertencia a elas; na misteriosa atemporalidade desse outro universo, eu encontrava algum conforto. (…)

Às vezes, assim reconfortado, imaginava ser-me possível enquadrar minha coleção numa narrativa, e sonhava feliz com um museu onde pudesse expor minha vida – a vida que primeiro minha mãe, depois Osman, e ao final todo mundo achou que eu jogara fora –, onde pudesse contar minha história através das coisas que Füsun deixara e transmitir uma lição a todos. (…)

O Musée de la Poste me fez perceber que eu podia expor as cartas que escrevera a ela e o Micro-musée du Service des Objets Trouvés legitimou a inclusão de um amplo leque de objetos, contanto que me lembrassem Füsun, como a dentadura de Tarik Bey, frascos de remédio vazios e recibos. Levei uma hora de táxi para chegar ao Musée Maurice Ravel, situado onde antes ficava a casa do famoso compositor, e quando vi sua escova de dente, suas xícaras de café, seus bibelôs de porcelana, várias bonecas, brinquedos e uma gaiola de ferro que me recordou Limon (o pássaro de Füsun), contendo um rouxinol de metal que cantava, quase chorei. Passear por todos esses museus de Paris era ser libertado da vergonha da coleção que eu acumulara no apartamento do edifício Merhamet. Deixando de ser um sujeito esquisito, envergonhado pelas coisas que empilhava, eu aos poucos adquiria o orgulho de ser um colecionador. (…)

Durante meus últimos dias em Paris, com as aves de Füsun na mente e com algum tempo de sobra, fui ao Musée Gustave Moreau, porque Proust tinha esse pintor em alta conta. Não consegui gostar dos quadros clássicos, históricos e maneiristas de Moreau, mas adorei o museu. Nos últimos anos da sua vida, convertendo-a num lugar onde seus milhares de quadros pudessem ser exibidos depois de seus morte, e essa casa a seu temo foi transformada num museu, abrangendo ainda seu imenso ateliê de dois andares, bem ao lado dela. Depois de convertida, sua casa tronou-se uma casa de memórias, um ‘museu sentimental’ em que cada objeto refulgia de tanto significado. Enquanto eu percorria aposentos vazios, passando por pisos de parquê que rangiam e guardas que cochilavam, senti-me tomado por uma intensa emoção que quase posso chamar de religiosa. (Visitei esse museu sete outras vezes nos vinte anos seguintes, e a cada vez senti a mesma paixão enquanto percorria lentamente as suas salas.) (…)

Minha visita a Paris serviu de modelo para minhas viagens subsequentes. Chegando a uma nova cidade, eu me instalava num hotel antigo e confortável localizado no centro, que reservara de Istambul, e, armado com o conhecimento adquirido nos livros e nos guias que lera de antemão, começava minhas rondas pelos museus mais notáveis da cidade, sem nunca me apressar, sem deixar de ir a nenhum deles, como um estudante cumprindo meticulosamente uma tarefa. E então percorria os mercados de pulga, as lojas que vendiam bricabraques e bugigangas, alguns antiquários. (…)

Enquanto contemplava os baralhos, os anéis, os colares, os jogos de peças de xadrez e os quadros a óleo do Museu do Estado de Württemberg, localizado numa das torres do antigo castelo de Stuttgart, fui inspirado pela convicção de que os pertences da família Keskin mereciam ser expostos com esplendor comparável. (…)

Na muito antiga e perfeitamente conservada Casa Rockox, em Antuérpia, tive ocasião e lembrar que nos museus menores o passado é preservado nos objetos como as almas se preservam em seus corpos terrenos, e nessa constatação encontrei uma beleza consoladora que me manteve ligado à vida. (…)

Foi enquanto caminhava pelo Museu Del Castelvecchio, em Verona, subindo suas escadas maravilhado com a maneira como o arquiteto Carlo Scarpa tinha cuidado para que a luz envolvesse as estátuas como seda, que consegui entender pela primeira vez como meu contentamento mais puro vinha não só desses museus enquanto coleções, mas da harmonia na maneira como era dispostos seus quadros e objetos. Mas foi só quando visitei o Museum der Dinge, em Berlim, acomodado primeiro no edifício Martin Groupius e mais tarde desabrigado, que vi essa verdade de outra maneira: pode-se colecionar tudo e qualquer coisa, com inteligência e critério, a partir de uma necessidade positiva de reunir todos os objetos que nos ligam às pessoas que mais amamos, cada aspecto de sua existência, e mesmo na falta de uma casa, de um museu adequado, a poesia de nossa coleção será abrigo suficiente para seus objetos. (…)

E na minha primeira viagem aos Estados Unidos – onde passei mais de cinco meses visitando duzentos e setenta e três museus – me lembro de ter tido a mesma experiência emocional enquanto visitava o Glove Museum de Nova York. (…) Lembrei novamente por que certos museus tinham o poder de me dar calafrios: eles induziam a sensação de que eu ficara suspenso em determinada época, enquanto o resto da humanidade vivia em outra. (…)

A verdade, a essa altura eu já tinha chegado à conclusão de que o único lar do colecionador é seu próprio museu. (…)

Eis o que observei enquanto viajava pelo mundo e vagava por Istambul. Existem dois tipos de colecionadores:

  1. Os Orgulhosos, que adoram mostrar suas coleções ao mundo.
  2. Os Tímidos, que escondem tudo que acumularam. (…)

Vivendo em sociedades onde colecionar não é um ato respeitado que contribui para o aprendizado ou o conhecimento, o Tímido encara sua compulsão como um constrangimento que precisa ser escondido. Porque, nas terras dos Tímidos, as coleções não se organizam em torno de informações úteis, mas de alguma mágoa do colecionador. (…)

Deparei com esses sentimentos sombrios em muitos lugares ao longo do tempo, mas foi nos primeiros meses de 1992, entre os colecionadores de Istambul especializados em parafernália ligada ao cinema, que tive meus primeiros vislumbres do ‘constrangimento de colecionador’, enquanto procurava cartazes, fotografias de saguão e canhotos de entrada de filmes a que tínhamos assistido no verão de 1976, para expor no Museu da Inocência. (…)

Foi depois de pechinchar longamente que Hifzi Bey vendeu-me uma série de fotografias de saguão de filmes como A agonia do amor termina na morte e Preso no fogo cruzado e, apos me dizer várias vezes como ficava feliz com meu interesse em sua coleção, ficou pensativo. (…)

‘Deixa-me triste, Kemal Bey, me separar de coisas que tenho tanto apego’, disse ele. ‘Mas como eu gostaria que as pessoas que zombam do meu hobby e riem de mim – as que perguntam: ‘Por que você entope a sua casa com essas bobagens?’ –, como gostaria que pudessem ver alguém como o senhor, um homem culto, de boa família, encontrar valor na minha coleção. Não bebo, não fumo, não jogo nem ando atrás de mulheres. Meu único vício é colecionar fotografias de filmes e artistas de cinema… (…)

Quando lhe perguntei sobre outras fotografias de divulgação que vinha procurando, Hifzi Bey me disse que havia vários colecionadores cujas casas estavam repletas até o teto de fotografias, filmes e cartazes. Quando seus aposentos ficavam tão tomados por fotos, cartazes, recortes de jornal e revistas que não lhe restava nem mais um quarto para dormir, suas famílias abandonavam a casa, e os colecionadores ficavam à vontade para juntar tudo que lhes caísse nas mãos, até suas casas se transformarem em depósitos tão abarrotados que ninguém conseguia entrar mais nelas. (…)

Percorrendo os detritos acumulados nessas casas, consegui encontrar quase todas as fotos de divulgação que em seguida exporia no meu museu, além de panoramas de Istambul, uma boa quantidade de cartões-postais, entradas de cinema, (..) fotografias de astros e estrelas de cinema e de outras celebridades, além de fotografias de habitantes comuns de Istambul, tiradas no dia a dia, que falavam com eloquência inigualável do lugar onde Füsun e eu morávamos. (…)

Soube recentemente do drama do fotografo grego que, por quarenta anos, fotografara casamentos, festas de noivado, reuniões de negócios e os restaurantes de Beyoglu; tendo ficado sem espaço, e sabendo que ninguém mais queria suas fotos, decidira queimar todo o seu estoque de negativos numa fornalha de seu edifício. Simplesmente inexistia demanda por essas fotografias e negativos registrando os casamentos, as festividades e outros acontecimentos de toda uma cidade, mesmo de graça. Os donos daqueles depósitos de inutilidades eram ridicularizados nos seus edifícios e nas áreas onde moravam, temidos tanto pela excentricidade solitária quanto por seus hábitos de vasculhar latas de lixo. (…)

Havia ainda Siyami Bey, que passou os últimos trinta anos de sua vida colecionando fotos de cada navio que passara pelo Bósforo desde a invenção da fotografia. (…)

Foi com outro colecionador, que, mais tipicamente preferiu o anonimato, que adquiri a série de pequenos retratos em papel dos mortos que os freqüentadores dos funerais prendiam com um alfinete à lapela entre 1975 e 1980: depois de negociar exaustivamente cada uma dessas fotos, ele me fez a pergunta essencial que eu ouvia com tanta frequência desses tipos, muitas vezes num tom depreciativo, e a que sempre dava a mesma resposta. (…)

‘É que estou organizando um museu…’

‘Não perguntei o que vai fazer com elas. O que perguntei foi: por que o senhor quer essas coisas?’

Antes de transportar para Çukurcuma uma a uma os objetos que eu armazenara no apartamento do edifício Merhamet, tirei uma foto panorâmica da coleção que já enchia quase totalmente o quarto que eu e Füsun nos amávamos vinte anos antes.

O que pode ser mais lindo que passar as noites cercado pelos objetos que nos ligam às nossas memórias e conexões sentimentais mais profundas? (…)

Os verdadeiros museus são lugares onde o Tempo é transformado em Espaço. (…)”

Orhan Pamuk em O museu da inocência (São Paulo: Companhia das Letras, 2011).

Para ver Post I.

Para conhecer mais a coleção de Rubens Fernandes Junior:

No Icônica:

Colecionador de olhares desaparecidos

Fotografias Deserdadas I

 

Coleção Rubens Fernades Junior.