DOBRAS VISUAIS

O museu da inocência I | Orhan Pamuk

Cia de Foto, 2010.

O que é fotografia?

Li O museu da inocência de Orhan Pamuk durante as férias e escolhi algumas partes para compor este post duplo da seção O que é fotografia?. O livro é lindo, trabalha com uma relação muito sensível do homem com o tempo.

Editei o texto para que o sentido da fotografia como objeto ficasse mais fluido, já que se trata de citações do livro. No post I inclui a vida afetiva do protagonista mediada pela fotografia, uma pequena relação entre fotografia e pintura presente na vida dos personagens e algumas tradições da cultura visual na Turquia dos anos 1970. O post II é especialmente sobre o ato de colecionar e tudo que ele carrega de significado. Neste caso, a fotografia é mais um dois objetos que o personagem do livro persegue.

Para os dois posts escolhi um colecionador de fotografias, o professor Rubens Fernandes Junior. O vídeo da Cia de Foto foi realizado no ambiente onde a coleção é guardada e as imagens da coleção já apareceram no Icônica em posts relacionados abaixo.

Durante alguns dias fiquei pensando neste post, tentando encontrar relações possíveis para estas leituras. Isso por que a idéia de coleção é fascinante para mim, dois anos depois de iniciar este blog fico com a sensação de que tenho aqui uma pequena coleção daquilo que me toca em relação à fotografia e seus desdobramentos. São pesquisas potenciais em processo.

Desta forma, escolher esta coleção do Rubens é também uma forma do Dobras Visuais homenagear este momento de expansão do Icônica. Quatro professores compartilhando seus pensamentos, suas pesquisas em andamento, uma simples fotografia.

Por tudo, vale a leitura dos dois posts até o fim…

Sobre os afetos

“Lembro como Füsun e eu ficamos encantados vendo os terrenos onde os carrosséis e balanços tinham sido armados para os festejos, e as crianças que compravam balas de goma com o dinheiro do feriado, e as bandeiras turcas dispostas como pequenos pares de chifres no alto dos ônibus, e todas as cenas que mais tarde eu haveria de reencontrar em fotografias e cartões-postais, e colecionar com tanto fervor. (…)

Uma cadeira me esperava entre Füsun e Sibel. E me sentei entre as duas. Como eu gostaria que alguém tivesse tirado uma foto de nós três que agora eu pudesse expor! (…)

Essa fotografia de sombra branca de Füsun em Taksim captura uma ilusão que durou dois minutos. (…)

Da vez seguinte que saímos, quando Füsun chegou com seu vestido de estampa floral, usava por baixo o biquíni azul que exponho aqui. Depois de nossa aula, na praia de Tarabya, ela só tirou o vestido num momento antes de mergulhar no costão. Por um breve instante de acanhamento, eu vi o corpo de minha amada, e então ela se afastou a nado, tão depressa que dava a impressão de fugir de mim. As bolhas e a água agitada no rastro de seu mergulho, a luz maravilhosa, o azul muito escuro do Bósforo, seu biquíni – tudo isso se combinou em minha mente para formar uma imagem indelével, uma sensação à parte. Passei anos examinando esse sentimento, e aquelas cores estupendas, como nas fotografias e nos cartões-postais antigos dos amalucados colecionadores de Istambul. (…)

Ficou claro que havia muito meu pai sonhava conversar comigo sobre a beleza daquela mulher, e a ideia de que eu pudesse não a ter visto com meus próprios olhos ou, pior, que pudesse tê-la visto mas esquecido de como era linda – aquilo o decepcionara um pouco. Tirou uma pequena fotografia preto e branco do bolso. Era de uma moça morena e tristonha – e muito jovem – de pé no convés da popa de uma balsa da linha da Cidade, em Karakoy. ‘É ela’, disse meu pai. ‘Foi tirada no ano em que nos conhecemos. É uma pena que ela esteja tão triste nesta foto; não dá pra ver quanto era linda. E ela é linda, não é? Agora você se lembrou?’ (…)

Enquanto eu as puxava (as mantas que cobriam o pai morto), seu pé emergiu. Senti-me compelido a olhar para os seus dedos. O dedão do pé do meu pai era absolutamente idêntico ao meu, e, como se pode ver neste detalhe de uma antiga fotografia que mandei ampliar, seus dedos do pé tinham uma forma singular. (…)

Na mesinha de cabeceira de meu pai havia remédios, palavras cruzadas, jornais dobrados, uma fotografia muito amada de seu tempo no exército, tirada enquanto ele bebia raki com os oficiais, seus óculos de leitura, e também sua dentadura postiça, dentro de um copo. (…)

‘Depois que ele morreu, sua mãe esvaziou a sacola e espalhou tudo que continha em cima da escrivaninha; quando vi o brinco reconheci na mesma hora e peguei pra você. Ainda guardei uma fotografia que encontrei num dos bolsos do seu pai. Fique com ela também, antes que sua mãe encontre. Fiz bem?’

‘Fez muito bem, Fatma Hanim’, eu disse. ‘Você é muito esperta, muito sábia e uma pessoa maravilhosa.’

Com um sorriso feliz, ela me entregou suas dádivas. A fotografia era a que meu pai me mostrara no restaurante de Abdullah: um retrato de sua amada morta. (…)

Logo acima da sua cama, Tarik Bey tinha pendurado uma fotografia emoldurada de seu tempo de professor no liceu de Kars. Na foto, ele aparecia de pé ao lado de seus alunos no final de uma peça que eles tinham encenado no famoso teatro que datava da época em que a cidade pertencia aos russos. O tampo da mesa de cabeceira e sua gaveta entreaberta também traziam estranhas lembranças de meu pai. Emanavam uma fragrância adocicada, mistura de poeira, remédios, xarope de tosse e papel amarelado. (…)

Meu museu comporta a vida que compartilhei com Füsun, a totalidade da nossa experiência. (…)

Como estávamos falando de fotos e talvez em homenagem aos seus visitantes, Ceyda Hanim admitiu que poucos dias antes tinha encontrado uma fotografia que Kemal Bey nunca tinha visto. ‘Estávamos muito animadas’, disse ela. A foto, tirada durante a final do concurso de beleza do Milliyet em 1973. (…) Num segundo, a fotografia desbotada apareceu na mesinha de centro de madeira; no momento em que a viu, Kemal Bey ficou pálido e recaiu em longo silêncio. (…) No final da noite, Ceyda, compreensiva como sempre, deu-a de presente a Kemal Bey. (…)

(Kemal Bey) tirou a fotografia de Füsun do bolso e, à luz fraca do lampião em frente ao edifício Merhamet, contemplou-a com amor. Aproximei-me dele.

‘Ela é linda, não é?’, disse-me, assim como seu pai lhe dissera trinta e tantos anos antes.

E lá estávamos nós, dois homens lado a lado, olhando com amor, admiração e respeito para a fotografia de Füsun. (…)

‘Por favor inclua esta foto em seu museu, Kemal Bey’, disse eu.

‘Minhas últimas palavras no livro são estas, Orhan Bey, por favor não se esqueça delas…’

‘Não me esquecerei’.

Beijou amorosamente a fotografia de Füsun e a guardou com cuidado no bolso da frente de seu paletó. E então sorriu para mim, com ar vitorioso.

‘Que todo mundo saiba que tive uma vida muito feliz’. (…)”

Coleção Rubens Fernandes Junior.

Sobre pintura e fotografia

O passatempo começara quando um corvo tinha pousado na sacada de ferro do quarto dos fundos do andar térreo, semelhante ao que pousara na varanda do edifício Merhamet: quando Füsun se aproximou, a ave não se afastou dela. O corvo voltou em outras ocasiões, e de novo, em vez de simplesmente bater asas e ir embora, ficava ali empoleirado, olhando para Füsun com os cantos dos olhos brilhantes e ameaçadores, a ponto de deixá-la assutada. Um dia Füsun tirou uma foto do corvo, uma pequena fotografia em preto e branco que exponho aqui, e que ela mandou ampliar para usar como modelo para a trabalhosa aquarela que eu tanto admirava. Em seguida prosseguiu com um pombo qeu vinha pousar na mesma grade de ferro, e depois com uma andorinha. (…)

‘Vou pintar todas as aves de Istambul’, dizia Füsun. ‘Feridun tirou a foto de uma andorinha. Vai ser a próxima. Estou fazendo estes quadros só pra mim mesma, você sabe. Acha que algum dia uma corija vai aparecer a grade da sacada?

‘Um dia você devia montar uma exposição’, disse eu uma vez.

‘Na verdade, o que eu queria fazer era ir a Paris e ver os quadros dos museus de lá’, disse Füsun. (…)

Como tantas crianças, eu tinha cultivado uma paixão pela pintura durante meus anos de escola, e por algum tempo, enquanto cursava a escola secundária e o liceu, tinha usado o apartamento do edifício Merhamet para pintar ‘sozinho’, chegando a sonhar em me tornar pintor um dia. Foi nesse tempo que me permitira pela primeira vez o sonho de ir a Paris ver todos os quadros. Entre a década de 1950 e o final da seguinte, não havia um único museu em Istambul em que se pudessem ver quadros; não havia nem sequer livros de arte ou catálogos que se pudessem folhear a gosto. Assim, nem Füsun nem eu sabíamos muito sobre a arte da pintura. Bastava-nos ampliar fotografias em preto e branco de aves e outras coisas e acrescentar-lhes a cor. (…)

Acompanhar as pinturas de Füsun e testemunhar seu lento progresso a partir de fotografias de aves de Istambul que ela tirara, opinando em voz abafada sobre a ave que devia pintar em seguida – um gavião, uma pomba, uma andorinha –, essa confirmação da segurança e da continuidade dos prazeres domésticos parecia deixar tudo certo por toda a eternidade. (…)

Naquela noite, perto do fim do jantar, proferi o interesse de sempre, com mais sinceridade do que nunca. ‘Füsun”, disse eu, ‘faz tanto tempo que não vejo mais o que está acontecendo com a sua pintura da pomba’.

‘Faz séculos que terminei a pomba’, disse ela. ‘Feridun encontrou uma linda foto de andorinha. E agora comecei a pintá-la’.

‘A andorinha é de longe a melhor que ela já fez’, disse tia Nesibe.

Fomos até o quarto dos fundos. Insistindo na fórmula das aves de Istambul empoleiradas em vários pontos da casa – balaustradas, peitoris de janela e chaminés –, ela enquadrara uma andorinha elegante na janela de nossa sala de jantar, dando para a rua. Ao fundo podiam-se ver as pedras do calçamento da ladeira de Çukurcuma, representadas numa estranha perspectiva infantil. (…)

Se digo que a pintura continha elementos que lembram miniaturas indianas pintadas sob a influencia inglesa, pinturas chinesas e japonesas de aves, com a atenção de Audubon aos detalhes, e mesmo a série de estampas de aves que acompanhavam uma marca de biscoitos de chocolate vendidos em todas as lojas de Istambul, tenham a bondade de lembrar que eu era um homem apaixonado. (…)

Sobre algumas tradições

“Quando o homem tentava se esquivar do casamento com a jovem, e a moça em questão era menor de dezoito anos, o pai furioso podia levar o transgressor aos tribunais e forçá-lo ao casamento com ela. Alguns desses casos atraíam a atenção da imprensa, e naquele tempo era costumeiro os jornais publicarem fotografias com tarjas pretas cobrindo os olhos das moças ‘violadas’, para impedir que fossem identificadas naquela situação vergonhosa. Como a imprensa usava o mesmo recurso para mostrar mulheres adúlteras, vitimas de estupro ou prostitutas, havia tantas fotografias de mulheres com tarjas pretas cobrindo os olhos que as páginas dos jornais turcos daquela época pareciam um baile de máscaras. No fim das contas, eram poucas as fotos sem tarja que os jornais turcos publicavam de mulheres – cantoras, atrizes ou participantes de concursos de beleza (ocupações que, por sua vez, sugeriam uma virtude mais flexível), enquanto nos anúncios havia uma preferência por mulheres com fisionomias evidentemente estrangeiras e não muçulmanas. (…)

Como todo mundo, Füsun também trazia a fotografia de Belkis na gola. Tinha se transformado em costume nos funerais de vitimas de assassinatos políticos (tão freqüentes naqueles dias), e logo se espalhara entre a burguesia de Instambul. Muitos anos mais tarde, consegui reunir uma pequena coleção desses objetos, que exponho aqui. Quando multidões de membros da sociedade de óculos escuros exibiam esses símbolos, como faziam os militantes de direita e esquerda, as fotos conferiam ao funeral comum da sociedade intimidações de um ideal pelo qual valia a pena morrer, a sugestão de um objetivo comum e certa gravitas. Imitando o estilo ocidental, a fotografia vinha sempre cercada de uma moldura preta, e por isso flagrantes antes felizes e nada apropriados para comunicados de falecimento assumiam a estampa do luto, e os retratos mais frívolos podiam obter na morte a dignidade sombria geralmente reservada às vitimas de assassinatos políticos. (…)

Naqueles dias, o lugar mais popular às margens do Bósforo era a Tarabya, com sua fileira de restaurantes lotados transbordando para as calçadas, e os vendedores de cartões de tômbola caminhando por entre as mesas, alem dos vendedores de mexilhões, dos vendedores de amêndoas frescas, dos fotógrafos que tiravam seu retrato e depois traziam a foto revelada em menos de uma hora, os sorveteiros, os conjuntos tocando musica otomana e os cantores tradicionais que se apresentavam na maioria dos restaurantes. (…) Perto do final da noite, quando as pessoas começavam a discutir com os garçons, questionando as contas, e cantavam em todas as mesas, Füsun e eu encostávamos ainda mais nossos braços, pernas e mãos, tanto que às vezes eu achava que ia desmaiar. Não podia evitar pedir a um fotografo que tirasse nosso retrato, ou a uma cigana que lesse nossa sorte como se tivéssemos acabado de nos conhecer. (…)

O olhar que Füsun me dirigia era o mesmo que as mulheres exibiam nas antigas miniaturas persas, que agora podia ser visto nas cenas de amor e nas fotonovelas de nossa época. (…) ‘Estou querendo lhe dizer para parar de fazer isso’, disse Füsun, e então tornou a me imitar, dessa vez com exagero. Sua imitação de mim fez-me ver minha semelhança desagradável com os heróis das fotonovelas. (…) Anos depois desses acontecimentos, percebi o quanto os olhares indignados de Füsun e o resto de sua pantomima em código deviam às expressões dos filmes turcos. Mas não se tratava de mera imitação, porque Füsun, como aquelas heroínas, era incapaz de explicar seus problemas à sua mãe, ao seu pai ou a qualquer homem, de maneira que canalizava toda a sua cólera, todo o seu desejo e todas as outras emoções para esses olhares, carregados de significação. (…)

A maior parte do que me lembro de termos visto na televisão não passa de momentos isolados (Aristóteles, o teórico do tempo, haveria de aprovar). São momentos que se combinaram com uma imagem e assim permaneceram gravados na minha memória. Metade dessas memórias indeléveis se compõe de mera imagem na tela, ou mesmo de um fragmento de imagem. Os sapatos e as bainhas das calças de um detetive americano correndo escada acima; a chaminé de um prédio antigo, sem interesse para o operador da câmera, mas que mesmo assim invadira o quadro de algum modo; o cabelo de uma mulher, preso atrás da orelha, durante uma cena de beijo (enquanto o silêncio reinava à mesa); ou uma garotinha assustada agarrada a seu pai durante um jogo de futebol, cercada por milhares de homens de bigode (provavelmente não havia ninguém em casa com quem ela pudesse ficar); ou as meias usadas pelo mais próximo dos homens curvados durante as preces numa mesquita durante o Ramadã, na Noite das Medidas; ou a balsa do Bósforo ao fundo da cena num filme turco; ou a lata da qual o vilão tirava os dolmas que comia; e muitas outras coisas. Em minha mente, essas imagens se combinavam com algum detalhe do rosto de Füsun enquanto ela assistia àquela mesma cena: um dos cantos da sua boca, suas sobrancelhas erguidas, a posição de sua mão, a maneira como deixava o garfo à beira do prato ou suas sobrancelhas que se elevavam de repente quando ela apagava o cigarro. Muitas vezes essas imagens se fixaram na minha mente como sonhos de que jamais nos esquecemos. Num esforço para tentar torná-las visíveis no Museu da Inocência, forneci a vários artistas instruções detalhadas, que muitas vezes assumiam a forma de imagens ou de perguntas, para as quais nunca encontrei resposta exata. (…)

Orhan Pamuk em O museu da inocência (São Paulo: Companhia das Letras, 2011).

Para ver Post II.

Para conhecer mais a coleção de Rubens Fernandes Junior:

No Icônica:

Colecionador de olhares desaparecidos

Fotografias Deserdadas I