DOBRAS VISUAIS

Desempacotando minha biblioteca | Wladimir Fontes

Augusto Romero

Um retrato de Giacometti por James Lord, por Wladimir Fontes

Minha produção com imagens fotográficas sofre menos influências dos livros do que eu pensava sofrer. Reparei depois deste convite. Sofrer: simpatia, apatia, antipatia, empatia.

Da influência pelos livros, só os diretos: sobre fotografia e muitos só com fotografias. A bibliografia é prolixa. No mais, sofre muito com o cinema; com a música em diversas amplitudes; com as visualidades da pintura, escultura, desenho e gravura. Sofre muitas vezes, inveja do alcance e magnitude que algumas destas influências  conseguem alcançar em relação aos limites do alcance e influências da fotografia.

Mas de repente, saltou do pacote “Um retrato de Giacometti” por James Lord, tradução da Célia Euvaldo, editado pela Iluminuras. Nele, vários são os pontos e as linhas de encontro com a fotografia e o fotográfico. Alberto Giacometti, um dos mais importantes artistas do século XX, teve seu retrato retirado por Henri Cartier-Bresson (que era seu amigo pessoal), formando uma série, que de certo modo, parece ter retirado muito do retratado em questão e faz parte importante da produção bressoniana.

James Lord, escritor e jornalista norte-americano, ao relatar as dezoito sessões em que posou para um retrato em pintura para o artista e ao final de cada sessão, fotografava escondido de Giacometti  (as fotografias aparecem no inicio de cada capítulo/sessão de pose como uma conclusão as avessas) e anotava sempre que podia, as escondidas também, os diálogos ocorridos durante a sessão de pose para a pintura do retrato. Uma memória fotográfica. Lord consegue retirar pelo seu relato a fala do dito de Giacometti, suas questões sobre a Arte, a imagem, o humano, a Vida no seu sentido existencial e a vinculação de tudo isso em uma coisa só, no caso em questão, na pintura sendo feita, poética.

O retrato é para fotografia um gênero caro, trata da carne no para além dela, naquilo que é luz e sombra dentro da carne, mas não reflete, não queima o filme, não perturba os sensores, não combina o zero e o um. Aquilo que o retratado não cede a retirada ou talvez, não consiga ceder. A “semelhança intima” de Nadar, ou ainda do mesmo Nadar: “o lado psicológico da fotografia, a palavra não me parece muito ambiciosa”. Para a pintura o que se retira do retrato é uma questão antiga: Fayoum, Egito, Giacometti. Jean Genet já aproximara Giacometti e o Egito, em um texto publicado em um livro de fotografias do seu atelier, retiradas por Ernst Scheidegger (1).

Em um sentido maior, naquilo que implica o retirar como motor do poético, retirar o que? A casca da cebola balzaquiana? Mais interno que a foto da face, o osso radiográfico, os órgãos tomográficos, fluxos doppler do encéfalo, mas, e aquilo que dá caráter a face, retira-se em que frequência de energia a sua grafia? Como faz, se quem fotografa, não oferece a quem fotografa o que se retire? Quem fotografa?

Uma das questões mais influentes no meu trabalho de produção de imagens é a metáfora insistente de Giacometti, no livro, sobre o encarceramento, o beco, que qualquer produção poética pode levar, no perigo de repetir o já feito, fazer o fácil, criar uma fórmula, era tudo o que ele não queria: “É preciso fazer desfazendo. Tudo esta desaparecendo mais uma vez. É preciso ousar, dar a pincelada final que faz tudo desaparecer”. Procurar uma ‘abertura’, uma fissura que liberte, não temer o ato de desmontar a bomba, cortando um de seus fios. Cortar.

Outro aspecto da presença do fotográfico no livro, vem do fato de James Lord fotografar ao final de cada sessão o estado da pintura naquele dia, que viria a ser modificada no outro dia e assim por diante. No inicio do livro antes dos capítulos/sessões de pintura, Lord fez um autorretrato seu na mesma cadeira em que posava, coloca-o antes, como uma foto-prefácio, como se mostrasse seu corpo em fotografia e o seu corpo em pintura pela fotografia, e a fotografia mostrasse todos os estados da pintura que “desaparece” multiplicando seus estados, não retornáveis, multiplicando seus corpos (James Lord(s) retirados) e mostrando em todos eles, fotos de corpos mortos. A característica do registro do efêmero, daquilo que vai mudar no fluxo do tempo e a fotografia pode guardar, como um embalsamamento; até a reprodutibilidade técnica da obra de arte, que a fotografia desempenha em uma de suas principais funções como meio de produção e reprodução de imagens, estão bastante presentes no livro, pois, ainda que sejam uma reprodução amadora e sem qualidades técnicas, a reprodução das pinturas impressas no livro é a conclusão de tudo o que foi dialogado no capítulo/sessão por Giacometti e James Lord naquele dia, ao compararmos com o que nela mudou na fotografia da pintura do capítulo anterior, com o que havia sido conversado entre eles. Ut Pictura Poiesis. A fotografia apresentando o tempo de um fazer em seus ritmos e pontuações. Dobras e desdobras.

O livro traz espalhadas como pérolas no chão sujo de seu atelier, informações da história da arte, provenientes da sua erudição; lições de Grande Mestre falando no atelier em pleno ato criativo sobre o processo, são tão ricas como os sete milhões de doláres de uma venda de uma escultura, escondidos em algum lugar de seu atelier que ele não sabe mais aonde estão. Além da crença que James Lord consegue impregnar e que eu adquiri, da sensação de ter  conhecido intimamente o personagem Giacometti, retirado por Bresson em belas fotos e relatado por James Lord. Foi como desempacotar algo que faz surgir alguma velha amizade.

[1] Genet, Jean. O Ateliê de Giacometti. São Paulo: Cosac & Naify, 2000.

Referência:

LORD, James. Um retrato de Giacometti. São Paulo: Iluminuras, 1998.

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Wladimir Fontes é professor de fotografia. Doutorando e Mestre em Artes, linha de pesquisa em Poéticas Visuais, pelo Departamento de Artes Plásticas da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA USP). Bacharel em Filosofia pelo Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo (FFLCH USP). Atuou como professor no Bacharelado de Fotografia do Centro Universitário SENAC de 2000 a 2010, e na Escola de Fotografia Imagem Ação de 1988 a 1994. Desenvolve trabalhos de produção imagética com fotografia, desenho e gravura.