DOBRAS VISUAIS

Desempacotando minha biblioteca | Ronaldo Entler

Pietà de Eugene Smith: Tomoko Uemura em seu banho, 1971.

Por Ronaldo Entler

Quanto mais tento compreender as imagens contemporâneas, mais descubro o quanto a história segue dialogando conosco por meio delas. Apesar de toda revolução operada pela fotografia, às vezes, reconheço em nossa relação com ela traços de uma experiência arcaica.

Quando uma imagem está envolvida de afeto, o que buscamos não é simplesmente retornar àquele dado instante situado no passado. Desejamos vislumbrar o lugar – na verdade, um tempo dilatado – em que o objeto desse afeto ainda se encontra e a partir de onde ele acena para o presente. No âmbito da imagem técnica, isso é a sobrevivência de uma capacidade que os antigos viam nos mitos de reviver ciclicamente uma origem ou, depois, da possibilidade que os cristãos buscavam nos ícones religiosos de humanizar o privilégio divino da eternidade. Os resíduos dessa experiência que permanecem em nossa relação com a fotografia lhe confere, ainda hoje, uma aura.

Penso isso quando leio alguns livros que me dizem muito sobre a fotografia sem que se refiram diretamente a ela. Menciono dois deles, que são bastante acessíveis.

A Imagem Proibida. Uma história intelectual da iconoclastia, de Alain Besançon, é um tratado que investiga a relação problemática que a filosofia e principalmente as teologias ocidentais estabeleceram com a imagem. Raramente imagem constituiu um objeto específico para a filosofia, mas foi incrível descobrir quanta reflexão os pensadores antigos e medievais dedicaram a esse tema.

Na esteira dessa obra, cheguei ao segundo volume de A Pintura: a teologia da imagem e o estatuto da pintura, uma coletânea de textos sobre as imagens produzidas entre os séculos XII e XVII por teólogos cristãos, um livro organizado por Jacqueline Lichtenstein. O cristianismo revelou desde sua origem um profundo apreço pela imagem, mas herdou do velho testamento e do pensamento platônico uma grande desconfiança sobre sua validade como forma de conhecimento. Um número significativo de autoridades religiosas debateu esse tema, seja em textos teológicos, seja nos concílios promovidos pela Igreja. No esforço de defender a imagem, de justificar no plano da filosofia uma relação bastante afetiva que o cristão mantinha com seus ícones, produziu-se uma sofisticada semiótica. Discute-se, por exemplo, se um ícone religioso é apenas semelhança produzida pela mão humana, ou se é uma alegoria válida porque construída por simbolismos depurados pela tradição. Uma terceira possibilidade: um ícone foi às vezes considerado uma imagem “consubstancial” a Deus, isto é, feita de sua substância, uma emanação dele próprio. Reconheço nisso muito do que ainda hoje buscamos em algumas fotografias. Encontramos também algumas lendas sobre imagens chamadas “aqueropitas” (feitas sem a mão do homem) que quase parecem descrever tecnicamente aquilo que viria a ser a fotografia.

Assim como descobrimos sobre nós mesmos quando estamos diante de algumas imagens, percebemos que também a fotografia participa de uma história muito maior que a do seu tempo.

Livros como esses raramente compõem nossa bibliografia básica. São aqueles em que reencontramos nosso objeto de estudo exatamente quando pensávamos tê-lo abandonado.

Referências:

BESANÇON, Alain. A Imagem Proibida. Uma história intelectual da iconoclastia. São Paulo: Bertrand Brasil, 1997.

LICHTENSTEIN, Jacqueline (Org.). A Pintura: a teologia da imagem e o estatuto da pintura. São Paulo: Ed. 34, 2004.

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Ronaldo Entler é mestre em multimeios pelo IA-Unicamp, doutor em artes pela ECA-USP, pós-doutor em multimeios pelo IA-Unicamp. É professor e coordenador de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação e Marketing da FAAP e professor da Faculdade de Artes Plásticas da FAAP. É editor do blog Icônica.