DOBRAS VISUAIS

Desempacotando minha biblioteca | Pio Figueiroa

Cito parte de uma obra de Pedro David, por Pio Figueiroa

Estava aqui as voltas com o que escreveria para essa série super bacana do Dobras Visuais. Pensar que essa coleção de posts pode pautar nossas leituras por um ano ou mais.

Grande serviço, bela ideia.

Mudei de casa recentemente e, de fato, comecei a empacotar e desempacotar livros. Foi massa, achei um monte de coisas.

Empacotar livros significa ler coisas rapidamente. Significa ir guardando fragmentos do que se tem na estante. O motivo de uma mudança é um belo meio para entrarmos de forma prazerosa em nossos livros pois, ao tentar boicotar a pressa da arrumação, a gente pega os livros por recortes, pelo meio – “é que o meio não é uma média; ao contrário, é o lugar onde as coisas adquirem velocidade” (Deleuze e Guattari).

Mas parte de minha biblioteca é aqui no computador. Tenho no desktop uma pasta ‘TUDO’, onde fica um monte de coisas que estão sendo consultadas diariamente. Filmes, textos, músicas, imagens, teses (sempre rola de salvar pdfs de teses acadêmicas, para ficar as voltas com elas enquanto o ano passa).

Daí a minha ideia para a contribuição com o Dobras Visuais é um arquivo que guardei em ‘TUDO’.

Um trabalho de Pedro David, uma pessoa muito querida, por sinal. Ano passado sua mãe morreu.

Lembrei muito dele esses dias pois Georgia Quintas em um seminário promovido pelo NAFOTO, lembrou desse trabalho que falo aqui: Pedro acompanhou de perto os últimos instantes na vida de sua mãe. De perto mesmo, ao lado. O registro disso são sussuros, os últimos minutos da respiração daquele corpo que alí já era sem órgãos…

No quarto em que Pedro retinha os suspiros últimos, a vida da mãe escapava. A vida era algo entre Pedro e ela. Um fluxo de lembrança, de medo, de respeito pela hora que eles estavam vivendo.

Na palestra de Georgia todos se emocionaram e, por cima disso, Nair Bendicto deu um depoimento – assim com um jeito de um depoimento de Nair Bendicto – sobre o contato dela com esse trabalho. Mais emoção.

Nessa hora eu dividi um pouco o que sentia por essa foto de Pedro. Inclusive que sentia vontade de chamar assim esse trabalho, de uma foto. Toda vez que o vejo, eu fecho os olhos.

É que ele costuma apresentá-lo como um vídeo mas, para minha leitura, essa fotografia vem sinestésica, em forma de respiração.

Porém Pedro foi adiante.

Em seu trabalho ele juntou o audio daquele instante – o audio que insisto em chamar de fotografia – com imagens do apartamento que sua mãe morava. Quando ele foi desmontar onde a mãe vivia, os cantos lhe trouxeram um ensaio de fotos. Então o trabalho é um filme com fotos sobre esse audio.

Para mim não.

Eu só consigo vê-lo fechando os olhos. Esse trabalho que chamo de uma fotografia  é o som daquele instante, daquele fluxo de vida. E é das mais potentes imagens que vi surgir em minha geração. Essa é a foto que se vê com fones de ouvido.

Desculpem-me por expor essa ideia sem respeitar o formato final do trabalho que Pedro apresenta, mas é que essa é uma das poucas fotografias que vi e que me fez chorar. Ela vale como um livro, e a vejo sempre de olhos fechados.

Referência (como Pedro a apresenta):

_____

Pio Figueiroa é um dos artistas da Cia de Foto.