DOBRAS VISUAIS

Desempacotando minha biblioteca | Paulo Rossi

Paulo Rossi, 2011.

A última fotografia, por Paulo Rossi

“Certa vez fiz um comentário no Dobras Visuais no qual eu me referia a uma fotografia descrita por Lívia Aquino na ocasião da morte de seu pai. Lívia dizia que a primeira cena que viu ao chegar à casa do pai após sua morte foi o maço de cigarros e o óculos tal qual ele havia deixado. Foi uma fotografia falada e não fotografada mecanicamente, foto que eu não vi, mas visualizei, imaginei um enquadramento, um plano e até mesmo uma iluminação sem que a Lívia tivesse pronunciado qualquer palavra sobre esses aspectos. Aspectos que certamente ela visualizava em sua memória. Suas palavras, sua entonação de voz, sua tristeza me faziam visualizar aquela imagem, me faziam sentir seus sentimentos, mas não da mesma forma, é claro, como ela os sentia ou via aquela cena em sua cabeça.

Num dia ensolarado e tranquilo de setembro de 2004, outra cena não fotografada, desta vez por mim, ficou registrada em minha memória. O que era para ser um final de semana feliz quase se tornou uma tragédia, por descuido meu por muito pouco não me afoguei numa represa no interior paulista. A imagem que ficou foi a do céu azul, a água que faminta me engolia, as árvores e o mato sendo balançados pelo vento e o silêncio típico daquele ambiente natural. Era chegada a hora, pensava eu. Naquele instante o conto de Horácio Quiroga, El hombre muerto, que eu acabara de ler, me veio à cabeça: tudo continuaria igual, a natureza seguiria seu curso natural, as pessoas continuariam a viver suas vidas e assim por diante, só que eu não estaria mais lá. A imagem que visualizo com frequência é uma mistura de enquadramento, ângulo de visão, luminosidade, sons, cheiro, sensações de medo, angústia, desespero, luta pela sobrevivência, e de que a morte chegara muito antes do que eu havia imaginado. É impossível torná-la visível para os outros do modo como ela se apresenta para mim.

Em El Hombre Muerto, Quiroga descreve as últimas cenas vistas pelo personagem principal de seu conto escrito em 1920 na Argentina na região das Misiones, à beira do Rio Paraná, onde o autor alternou moradia com Buenos Aires até o dia de sua morte. O livro que estou “desempacotado” – na verdade, eu sempre o desempacoto – é Cuentos, publicado em 1992 pelo Editorial Porrúa, México.

De modo resumido, trata-se da estória de um camponês que se fere mortalmente com seu facão ao tropeçar num pedaço de madeira lisa e escorregadia que sustentava a cerca de arame que envolvia o bananal que ele próprio havia cultivado. O narrador narra o monólogo mental desse camponês – que ora se confunde com o monólogo mental do próprio narrador – que ao perceber a tragédia, começa a pensar sobre a efemeridade da vida.

Por entre los bananos, allá arriba, el hombre ve desde el duro suelo el techo rojo de su casa. A la izquierda entrevé el monte y la capuera de canelas. No alcanza a ver más, pero sabe muy bien que a sus espaldas está el camino al puerto nuevo; y que en la dirección de su cabeza, allá abajo, yace en el fondo del valle el Paraná dormido como un lago. Todo, todo exactamente como siempre; el sol de fuego, el aire vibrante y solitario, los bananos inmóviles, el alambrado de postes muy gruesos y altos que pronto tendrá que cambiar… (grifo meu)

O camponês de Quiroga morre num dia trivial como todos os outros, dias que continuariam a vir um após o outro apesar de sua ausência. O mundo continuaria seu curso natural, a diferença é que o camponês não estaria mais presente. El hombre muerto aborda a existência do homem na sua essência: o homem individual existe enquanto vive, não há nada para além da vida terrena. Tudo o que há em sua memória, e que não foi por ele transposta em texto, imagem ou qualquer outro tipo de suporte material ou digital, vai com ele para o leito de morte: as experiências que viveu, as coisas que viu, seus pensamentos, suas lembranças etc. Felizmente para nós,  Quiroga registrou as últimas memórias daquele camponês.

Quando leio El hombre muerto eu o penso como fotografias escritas – e não mecanicamente fotografadas – de uma cena corriqueira. Ao longo do texto nos são apresentadas uma série de descrições da cena (paisagem, detalhes, objetos, posição do personagem etc.) que lembram tomadas fotográficas realizadas de diferentes pontos de observação. Ora o narrador narra suas próprias descrições de seu ponto de vista. Ora ele narra as descrições mentais feitas pelo camponês de seu ponto de vista, caído no chão. Ora são narradas descrições que o camponês poderia fazer se assim o desejasse como acontece no penúltimo parágrafo onde é descrita a paisagem que o camponês poderia ver num rápido exercício de distanciamento mental de seu corpo.

A forma do texto induz o leitor a imaginar todas as cenas descritas. São descritos planos abertos e detalhes da paisagem onde a estória se passa, como também são apresentadas descrições das sensações e sentimentos do camponês em sua condição de moribundo sabendo que sua morte chegara abruptamente. Trata-se de imagens não palpáveis, de realidades construídas na imaginação do escritor e transcritas em palavras. Narrador e personagem são os meios pelos quais as descrições das imagens são realizadas, é por meio deles que se tenta dizer aquilo que ambos estão vendo, ou ainda aquilo que foi mentalmente visualizado pelo escritor.

Da parte do leitor, o que este visualiza não é o mesmo que visualiza o narrador nem muito menos o que vê o homem moribundo ou o narrador do conto. A imagem descrita nunca é igual à imagem vivida. Michel Foucault [1] escreveu que ‘por mais que se diga o que se vê, o que se vê não aloja jamais no que se diz’, porque o lugar onde as palavras ‘resplandecem não é aquele que os olhos descortinam, mas aquele que as sucessões da sintaxe definem’ (2002, p.12).”

[1] Foucault, Michel. As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

Referência:

QUIROGA, Horacio. Cuentos. Mexico, DF: Porrúa, 1992.

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Paulo Rossi é fotógrafo e mestre em Sociologia pela USP. Desde 2009 vive na cidade de João Pessoa onde trabalha como fotógrafo, professor de fotografia e articulador cultural junto à APAC – Associação de Produtores Culturais da Paraíba.

No Dobras:

August Sander e Homens do Século XX, dissertação de mestrado do Paulo, na seção Estudos.