DOBRAS VISUAIS

Um, nenhum e cem mil | Luigi Pirandello

Helga Stein: self-portrait.

O que é fotografia?

“A idéia de que os outros viam em mim alguém que não era eu tal como eu me conhecia, alguém que só eles podiam conhecer olhando-me de fora, com olhos que não eram os meus e que me davam um aspecto fadado a ser sempre estranho a mim, mesmo estando em mim, mesmo sendo o meu para eles (um ‘meu’ que, portanto, não era para mim!), uma vida na qual, mesmo sendo a minha parte para eles, eu não podia penetrar, essa idéia não me deu mais descanso.

Vocês acreditam que podem conhecer a si mesmos sem se construírem de algum modo? E que eu possa conhecê-los sem construí-los um pouco a meu modo? E vocês a mim, sem me construírem a seu modo? Podemos conhecer apenas aquilo a que conseguimos dar forma. Mas que conhecimento é esse? Talvez essa forma seja a coisa mesma? Sim, tanto para mim quanto para vocês; mas não a mesma para mim e para vocês. Tanto isso é verdade que eu não me reconheço na forma que vocês me dão, nem vocês, naquela que lhes dou. Além disso, a mesma coisa não é igual para todos e, mesmo para cada um de nós, pode mudar continuamente – e de fato muda sem cessar.

Fora de qualquer imagem que eu pudesse me representar com vida a mim mesmo, como alguém que existisse ao menos para mim e fora de toda imagem de mim tal como eu me imaginava diante dos outros, um ‘ponto vital’ dentro de mim se sentira ferido tão profundamente que perdi a luz dos olhos.

Apenas com o seu corpo ela parecia estar sempre satisfeita, apesar de às vezes se queixar dele e até dizer que o odiava. Mas ficava constantemente diante do espelho, observando-se em cada detalhe, experimentando todas as posturas, todas as expressões que os seus olhos intensos e brilhantes, suas narinas palpitantes, sua boca vermelha e desdenhosa e sua mandíbula agilíssima podiam reproduzir. Fazia-o como se fosse um atriz, não porque pensasse que seu corpo pudesse lhe servir para alguma coisa na vida, exceto para um jogo fugaz de sedução ou provocação.

Certa manhã eu a vi ensaiar e estudar longamente no espelho de mão, que ela sempre trazia à beira da cama, um sorriso piedoso e terno, mas com um brilho de malícia quase infantil nos olhos. Ver depois esse mesmo sorriso dirigido a mim, vivo, como se tivesse brotado ali mesmo, espontâneo, me causou um movimento de repulsa.

Disse-lhe que eu não era seu espelho.

Mas ela não se ofendeu, perguntando-me se aquele sorriso, tal como eu o percebera no momento, era o mesmo que ela vira e ensaiara diante do espelho.

Respondi-lhe irritado com aquela insistência:

– O que a senhora espera que eu saiba? Eu não tenho meios de saber como a senhora o vê. É melhor fazer uma fotografia desse sorriso.

– Eu tenho uma, – me disse – uma grande. Está na gaveta mais baixa do armário. Pegue-a para mim, por favor.

A gaveta estava cheia de fotografias suas. Ela me mostrou várias, antigas e recentes.

– Todas mortas – lhe disse.

Ela se virou para mim, bruscamente.

– Mortas?

– Por mais que tentem se passar por vivas.

– Mesmo essa com o sorriso?

– E também essa, pensativa. E esta, com os olhos baixos.

– Por que mortas, se eu estou aqui, viva?

– Ah, a senhora, sim, porque agora não está se vendo. Mas, quando estava diante do espelho, no instante em que se via, não estava mais viva.

– E por quê?

– Porque para se ver é preciso fechar a vida em um átimo. Como diante de uma máquina fotográfica. A senhora assume uma pose. E posar é como se tornar uma estátua por um momento. A vida se move continuamente e nunca pode ver a si mesma.

– Quer dizer que eu, viva, nunca me vi?

– Jamais como eu posso vê-la. Mas eu vejo uma imagem da senhora que é só minha – uma imagem que certamente não é sua. A sua, viva, a senhora talvez a possa ter vislumbrado em alguma foto instantânea que lhe fizeram. Mas sem dúvida deve ter tido uma ingrata surpreza. Talvez até tenha relutado em se reconhecer naquela imagem descomposta, em movimento.

– É verdade.

– A senhora só pode reconhecer-se posando: estátua sem vida. Quando alguém vive, vive sem se ver. Conhecer-se é morrer. A senhora fica tanto tempo se olhando nesse espelho, em todos os espelhos, porque não vive. Não sabe, não pode ou não quer viver. Quer se conhecer em excesso – e não vive. (…)

– Não se pode viver diante de um espelho. Procure não se ver nunca. Porque, de qualquer modo, jamais conseguirá se conhecer pelos olhos dos outros. Sendo assim, de que vale conhecer-se só para si? Pode acontecer de a senhora não compreender mais por que deveria ter aquela imagem que o espelho lhe devolve.”

Luigi Pirandello em Um, nenhum e cem mil (São Paulo: Cosac & Naify, 2001.)

Para conhecer mais: Helga Stein.

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