DOBRAS VISUAIS

Doutorar | André Rouillé

Joachim Scmidt: Meeting on Holiday, 2007.

A fotografia: entre documento e arte contemporânea, André Rouillé

“A fotografia foi admitida como o meio mais bem adaptado para acompanhamento e controle da confusa extensão do horizonte do olhar, para responder à vertigem suscitada pela repentina consciência de sua vastidão e de sua profusão. Por isso, ela suscitou imediatamente o interesse de arqueólogos, dos engenheiros, dos arquitetos, dos médicos, etc. Todos aqueles que, em suas respectivas áreas, quiseram seguir os movimentos do mundo, utilizaram-na para confeccionar uma miríade de álbuns a respeito de monumentos longínquos ou nacionais. (…)

Quanto às paisagens e às vistas de viagem, muitas vezes elas se inscrevem em projetos que, lançados a partir das capitais, buscam o domínio, a conquista ou o controle dos territórios. (…)

‘O que define a arte industrial não é a reprodução mecânica, mas a relação tornada íntima com o dinheiro’, observa Deleuze a propósito do cinema. O ‘circuito infernal entre a imagem e o dinheiro’, evidentemente, nunca atingirá, com a fotografia, a vastidão que conhecerá com o cinema, mas é com ela que ele se forma. ‘Fornecer imagem contra dinheiro, oferecer tempo contra imagens, converter o tempo, o lado transparente, e o dinheiro, o lado opaco: este poderia ser, em termos deleuzianos, o principio fundador da fotografia-documento. (…)

Atualmente é a vez do documento fotográfico entrar em crise, em razão do advento da sociedade informacional ter anulado as condições da crença na fotografia-documento. No entanto a crença não enfraquece por igual. (…) A crença decresce à medida que se vai da família à grande imprensa ilustrada, e à arte contemporânea. O documento fotográfico tornou-se incapaz de responder às necessidades dos setores cultural e tecnologicamente mais avançados – principalmente a pesquisa e a produção dos produtos, dos conhecimentos e dos serviços-, porque o real da sociedade pós-industrial não é mais o mesmo real da sociedade industrial. O novo real convoca novas imagens, novos dispositivos de imagens para novos modos de crenças. (…)

A fotografia, por documental que seja, não representa o real e não tem de fazê-lo; que ela não ocupa o lugar de uma coisa exterior; ela não descreve. Ao contrario, a fotografia, como discurso e as outras imagens, e segundo meios próprios, faz existir: ela fabrica um mundo, ela o faz acontecer. Enquanto a ontologia e o empirismo de Barthes vão da coisa à imagem, o procedimento antirepresentativo (que vai da imagem à coisa) tenta não sacrificar as imagens em função dos referentes, e de reconhecer a capacidade das fotografias de inventar mundos. (…)

A imagem fotográfica não é um corte nem uma captura nem o registro direto, automático e analógico de um real preexistente. Ao contrário, ela é a produção de um novo real (fotográfico), no decorrer de um processo conjunto de registro e de transformação, de alguma coisa do real dado; mas de modo algum assimilável ao real. A fotografia nunca registra sem transformar, sem construir, sem criar. (…)

Da coisa à imagem, o caminho nunca é reto, como creem os empiristas e como queriam os enunciados do verdadeiro fotográfico. Se a captação requer um confronto entre o operador e a coisa, no decorrer do qual esta vai imprimir-se na matéria sensível, nem por isso a coisa e a imagem se situam em uma relação bipolar de sentido único. Entre a coisa e a imagem, os fluxos não seguem a trajetória da luz, mas dirigem-se a sentidos múltiplos. (…)

A imagem e a coisa estão ligadas por uma série de transformações.  A imagem constrói-se no decorrer de uma sucessão estabelecida de etapas (o ponto de vista, o enquadramento, a tomada, o negativo, a tiragem, etc.), através de um conjunto de códigos de transcrição da realidade empírica: códigos ópticos (a perspectiva), códigos técnicos (inscritos nos produtos e nos aparelhos), códigos estéticos (o plano e os enquadramentos, o ponto de vista, a luz, etc.), códigos ideológicos, etc. Muitas sinuosidades que vêm perturbar as premissas tão sumárias dos enunciados do verdadeiro fotográfico. (…)

A fotografia-documento contribui para a expansão da área do visível e também para o aumento do espaço de trocas, para a dilatação dos mercados, para o alargamento da zona de intervenções militares ocidentais.(…) É nesse contexto que surgem muitos projetos para ‘organizar missões fotográficas, encarregadas de explorar todas as regiões do mundo e de trazer, apos alguns anos, reproduções completas de tudo que, nos diferentes lugares do globo terrestre, possa interessar às ciências físicas e naturais. (…)

Associadas ou não às operações militares, as missões fotográficas são geralmente concebidas para ‘enriquecer nossos museus’, para satisfazer a curiosidade privada, ou para constituir ‘uma espécie de enciclopédia universal da natureza, das artes e da indústria. A fotografia cruza, aí, outro plano, que reúne não mais máquinas de captura, mas o museu, o álbum, o arquivo, isto e, máquinas de depósito, de coleta, de tesaurização, que acumulam e conservam vestígios de ontem, bem como os fragmentos atuais de outros lugares. (…)

Joachim Schmid: Meeting on Holiday, 2007.

Graças a fotografia, a exterioridade ameaçadora do mundo torna-se, no salão burguês, íntima e aconchegante. Mas, a tranquilidade tem um preço: a relação, às vezes perigosa, vivida com o mundo é delegada a um terceiro (fotógrafo) e substituída pela relação visual com as imagens. O mundo começa a transformar-se em imagens. (…)

Por extração, retirada, abstração, a fotografia-documento chega rapidamente a um proliferante acumulo de tomadas parciais, de fragmentos, de restos de realidades: um grande caos de imagens em busca de compulsiva unidade. (…)

Fotografar consiste em atualizar um evento que não existe fora da imagem que o exprime, mas que difere dele na essência. Os jornalistas têm razão, a esse propósito, de afirmar que as mídias ‘criam o evento’. Pois a atualização é uma criação: a imagem não reproduz o evento, ela o exprime. A noção de evento abre direções de pensamento que divergem radicalmente daquelas definidas pela noção de registro, de índice, de marca, de impressão. O pensamento do evento rompe com a concepção da fotografia que adere completamente às coisas e aos corpos, que é desprovida de formas singulares, e que não exprime nada. Ela tira a fotografia do impasse conceitual que constitui seu achatamento no universo restrito das substâncias e da afirmação da existência. (…)

Em fotografia, a designação pode envolver a expressão, na medida em que as imagens têm a preciosa particularidade de serem duplas, de combinarem um dispositivo (que designa as coisas) e as formas (que exprimem o sentido do evento). O evento não é aquilo que acontece (o acidente), mas o que é designado no que acontece, sendo expresso nas rugosidades das imagens. É devido à enorme capacidade de designar e exprimir que a fotografia e as mídias conseguem ‘criar o evento’ a partir do que acontece de mais banal. A designação, que diz respeito aos corpos e às coisas, pode envolver a expressão, que diz respeito aos eventos incorporais, porque o evento está indissociavelmente encarnado nas coisas e é expresso por imagens. (…)

ROUILLÉ, André. A fotografia – entre documento e arte contemporânea. São Paulo: SENAC, 2010.

Para conhecer mais: Joachim Schimid.