DOBRAS VISUAIS

Desempacotando minha biblioteca | Maurício Lissovsky

Felix Nadar: Sarah Bernhardt, 1865.

Em busca da admiração perdida, por Maurício Lissovsky

A década de 1980 foram os anni mirabiles (os “anos prodigiosos”, como se costumava dizer) do pensamento acerca da fotografia. Começam, na verdade, em 1979, com a publicação de On Photography, de Susan Sontag, logo seguido por A Câmera Clara, de Roland Barthes (1980), para mencionar apenas os livros mais conhecidos no Brasil. Também é a década em que surgem os grandes encontros de fotografia que moldaram gerações de fotógrafos e pesquisadores como, o Mois de la Photo, na França (1980), as Semanas Nacionais de Fotografia, no Brasil (1982), os Encontros de Fotografia de Coimbra, em Portugal (1980). Foi no contexto destes últimos que apareceu Pedro Miguel Frade. Escrito a partir de 1987, “Figuras do Espanto – a fotografia antes da sua cultura” foi seu primeiro e único livro, pois o jovem pesquisador morreu aos 31 anos, poucos meses antes de vê-lo publicado, em 1992.

Esse pequeno ensaio histórico sobre as origens da fotografia não é uma narrativa convencional de descobertas e invenções, mas uma experiência de busca pelos primeiros espantos provocados pela fotografia, antes que nos habituássemos a ela. Pois, para Frade, antes que uma “linguagem” e uma “estética” viessem a dominar os espaços discursivos da fotografia ela era essa “miríade de pequenas verdades” (107). Neste momento fundador, quando ainda não há “protocolos para a freqüentação das fotografias”, o olhar se perde “numa multidão de pequenos trajetos, de seqüências imprevisíveis”:

“Nessas imagens tudo se passava como se a grande via do sentido fosse constantemente ameaçada pelos inúmeros caminhos deixados em aberto para que o olhar aí se perdesse nos exercícios insensatos que constituíam o correlato movente de toda essa suculência do minúsculo que a cada momento o excedia e o desafiava.” (104)

De lá para cá, imagina Frade, nosso olhar “envelheceu”, e as imagens passaram a remeter-se cada vez mais umas às outras. “Tudo se passa”, escreveu ele, “como se ao arrancar das escamas do visível, à dissecção in vivo do seu corpo aparente, tivesse devido corresponder historicamente uma erosão do incrível” (16). É a partir deste mundo em que vivemos – um mundo que, para ele, marchava em ritmo acelerado para a “desrealização” promovida pelos media – que o autor empreendeu seu retorno à admiração perdida. Não por nostalgia ou preciosismo histórico, mas porque mantinha a esperança de que, no futuro, muito depois de esquecidas, as fotografias recobrassem o poder de nos surpreender. Estes espectadores do futuro, sugeria ele, “estarão na condição ideal para recobrarem o espanto face à fotografia que nós parecemos ter perdido e, para eles, essa tramas singulares em que espaço e tempo se entrelaçam num abraço de morte que preserva uma imagem da vida serão de novo um êxtase.” (207)

“Figuras do Espanto” só teve uma edição e jamais foi traduzido. É uma breve e bela cintilação do pensamento fotográfico que só existe em nossa língua.  Hoje há um prêmio para jovens fotógrafos em homenagem a Pedro Miguel Frade e a Biblioteca do Centro Português de Fotografia, no Porto, leva seu nome.

Referência:

FRADE, Pedro Miguel. Figuras do espanto: a fotografia antes da sua cultura. Porto: Edições Asa, 1992.

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Maurício Lissovsky é professor da Escola de Comunicação da UFRJ, autor do livro A máquina de esperar.

No Dobras:

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