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Fernando Fogliano

O verdadeiro fotográfico, por Fernando Fogliano

No livro “A fotografia: entre o documento e a arte contemporânea”, de André Rouillé, encontrei um tópico que me chamou a atenção: “A magia do verdadeiro”. Ali o autor escreve que o verdadeiro é uma produção mágica e que a fotografia “aperfeiçoa, racionaliza e mecaniza a organização imposta ao ocidente a partir do século XV: a forma simbólica da perspectiva, o hábito perceptivo que ela suscita, e o dispositivo da câmera obscura” [1]. Essa percepção sobre a imagem fotográfica parece contrariar o senso comum que dela se faz. Mesmo quando se considera a produção digital de imagens. Não raro, no nosso tempo, nos deparamos com imagens impressas em algum jornal e que, depois de publicadas, soube-se foram objeto de manipulação. A dúvida que surge é por que essa situação escandaliza, se a câmera não constrói realidade alguma?

Esta questão pode encontrar resposta considerando pelo menos dois aspectos. O primeiro é aquele que coloca a produção das imagens fotográficas no campo da ficção, mesmo quando funcionam como documento. Isso nos permite concluir que aquilo que chamamos de “realidade” é, de fato, um acordo coletivo (portanto, cultural). Mais correto seria considerar acordos coletivos através dos quais inúmeras realidades emergem, coexistem e colidem. É a partir delas que a humanidade realiza uma ampla gama de projetos que permitem expressar desde sua virtude até sua mais obscura lubricidade. Ética, respondendo a questão, é a questão que não sai de moda nunca, e com o avanço das tecnologias, deve ser cada vez mais lembrada.

O outro aspecto a que me referi acima está relacionado com a seguinte questão: como a mediação tecnológica permite a construção coletiva do real?  A resposta certamente conecta-se a nossa evolução cultural, que nos permitiu armazenar externamente (nas paredes rupestres, livros, filmes, Internet, etc.) narrativas baseadas em teorias [2]. A atividade científica assume a tarefa de construir ficções sobre a natureza que nos cerca e de nossa interioridade. Dessa atividade emergiram os artefatos tecnológicos que nos deram a medida do tempo e a chance de observar o macro e o micro cosmo dentro e fora de nós.  A tecnologia internaliza os padrões naturais e constitui o elemento que articula o indivíduo e seu grupo com a natureza. A regularidade, respondendo a questão, é o aspecto das tecnologias que cria os espaços para as trocas de experiências subjetivas e a construção de narrativas tanto ficcionais, quanto objetivas do real.  Isso implica no reconhecimento de vivemos apoiados em ficções? É o que parece, mas essa discussão faremos quando eu trouxer o livro “On the origin of stories” de Brian Boyd.

[1] Esse tema é muito bem apresentado no Livro “A Ilusão Especular” de Arlindo Machado.

[2] Essa idéia é apresentada por Donald, M. em seu livro “Origins of modern mind” de 1993 pela Harvard University Press.

Referência:

ROUILLÉ, André. A fotografia – entre documento e arte contemporânea. São Paulo: SENAC, 2010.

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Fernando Fogliano é professor e pesquisador, Doutor e Mestre em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de Sâo Paulo. É membro do grupo SCIArts.