DOBRAS VISUAIS

Desempacotando minha biblioteca | Eduardo Queiroga

Eduardo Queiroga: Sobreposições, 2008.

Por Eduardo Queiroga

Penso que uma mudança poderia ser, talvez, saudável à minha biblioteca. A necessidade de levá-la a outro lugar, de empacotá-la para, em novo endereço, organizá-la traria essa boa consequência: a ordem. As prateleiras estão abarrotadas de livros, amontoados, ocupando cada espaço, equilibrando-se em pilhas que desafiam a lei da gravidade.

Difícil falar de livros sem tocar na óbvia importância deles para a nossa formação. Ou sem falar no quanto é bom ler, ver, folhear livros. Mais difícil ainda é tentar falar de um em especial, sem deixar tantos outros também muito especiais de fora. Mesmo numa tentativa de lista, o trabalho não é menos ingrato: a cada novo título colocado, a lembrança de vários outros.

O contato com livros – de uma leitura atenta ao passar descompromissado de páginas – é mágico, é fantástico. Mágico e fantástico como Italo Calvino. Aqui não poderia ficar em apenas um título deste autor – até mesmo pela sua diversidade de temas abordados -, mas trago como representante de toda uma coleção o impagável Cidades invisíveis. “Somente nos relatórios de Marco Polo, Kublai Khan conseguia discernir, através das muralhas e torres destinadas a desmoronar, a filigrana de um desenho tão fino a ponto de evitar as mordidas dos cupins”.

Não é certo que o imperador tártaro acreditasse totalmente no seu emissário, mas ouvia atentamente cada relato sobre as cidades de seu reino. Cidades como Zemrude, cuja forma era dada pelo humor de quem a olhava. Ou, melhor ainda, Valdrada, que ficava à beira de um lago, que a refletia por inteiro. O viajante se deparava com duas cidades: “nada existe e nada acontece na primeira Valdrada sem que se repita na segunda”. Os habitantes eram conscientes de que nada escapa à imagem, que a  importância dos atos nem é tanto o ato em si, mas a imagem límpida e fria do espelhamento.  “As duas Valdradas vivem uma para a outra, olhando-se nos olhos continuamente, mas sem se amar”.  Calvino é pura fotografia, no melhor e mais amplo significado que isso possa ter.

Uma cidade atrás da outra, uma construção feita de muitas camadas de significações. Não é à toa que Calvino tenha afirmado considerar Cidades invisíveis como o sendo o livro onde conseguiu dizer mais coisas. E é impressionante a profundidade das imagens que seu personagem nos traz através das descrições. Um emaranhado de possibilidades. Não poderia ao certo afirmar que este livro me instigou em meus trabalhos mais recentes, onde a temática das cidades serve de pano de fundo para tratar do tempo e das camadas, mas certamente tenho Calvino na mais alta consideração pela forma – sempre fantástica – como nos fala tanto do homem.”

Referência:

CALVINO, Italo. As cidades invisíveis. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

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Eduardo Queiroga é fotógrafo e professor, mestrando em Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco. Coordenador e educador do Projeto Fotolibras.