DOBRAS VISUAIS

Desempacotando minha biblioteca | Iara Schiavinatto

Lorena Guillén Vaschetti: Family Secrets, 2010.

Começo hoje uma série de posts em que convido amigos, pesquisadores e artistas para falar de um livro importante na sua trajetória com a fotografia. O título, Desempacotando minha biblioteca, é referência a um texto de Walter Benjamin, já citado aqui em um resgate da minha própria história com os livros.

“Estou desempacotando minha biblioteca. Sim, estou. (…) Quantas coisas não retornam à memória uma vez nos tenhamos aproximado das montanhas de caixas para delas extrair os livros para a luz do dia, ou melhor, da noite. Nada poderia realçar mais a operação de desempacotar do que a dificuldade de concluí-la. (…) Eis que agora, por fim, caíram em minhas mãos dois volumes encadernados com papelão desbotado: dois álbuns de figurinhas que minha mãe colou quando criança e que herdei. São as sementes de uma coleção de livros infantis que ainda hoje cresce constantemente ainda que não seja no meu jardim. Não há nenhuma biblioteca viva que não abrigue, em forma de livro, um número de criaturas das regiões fronteiriças.”

A série começa com a pesquisadora Iara Lis Schiavinatto. Adoro a idéia de começar esta série com a Iara que é minha orientadora no doutorado, alguém que me mostra inúmeras vezes o caminho para desempacotar a fotografia. É uma alegria para mim tê-la no Dobras.

_____

Por Iara Schiavinatto

Foi entre maio e julho de 1983. Certamente na desaparecida cantina do IEL situada em frente onde não mais fica o Arquivo Edgar Leuenroth, alguém contou que Auerbach tratava de  Virginia Wolf em Mimesis. Eu ignorava qualquer coisa sobre ele, embora tenha achado o nome imensamente sonoro. Eu acabara de ler Orlando de Virginia Wolf. O romance permanecia um enigma em mim e ao mesmo tempo não conseguira deixar de lê-lo numa fiada, enfeitiçada por aonde afinal Orlando iria.

Abri Mimesis de Auerbach pela primeira vez no abrigo da casa de minha avó. Na família consensualmente aquilo era um  abrigo – uma área  com janelas e portas envidraçadas entre o jardim, a garagem,  a sala de estar e de jantar. Toda avó que eu conhecia tinha um abrigo. Na casa de minha avó, era enorme, pé direito alto, ladrilho a brilhar, cadeiras entre  avencas, samambaias, renda portuguesa, e cinco fotografias emolduradas, retratos posados femininos, em preto e branco. No abrigo, tudo ficava arranjado sob uma composição geométrica ordeira como casa de imigrante italiano supunha. Por hábito, eu li de Recreio a Romance durante o dia no abrigo e a noite no quarto, se lá dormia.  Ainda por hábito, brinquei muito no abrigo, um lugar estratégico naquela casa, pois via quem chegava ou partia, o entre e sai da vizinhança, o jardim e a garagem, os cachorros no quintal comprido, ouvia o telefone tocar, espiava a sala de visita, estava perto da cozinha bem servida.

Troquei o fim pelo início. Decidi ler o primeiro capítulo, quando Auerbach trata da passagem do Antigo Testamento  acerca do pai Abraão  que entrega o filho Isaac a Deus em sacrifício e ambos não pestanejam em sua fé contrastada com a passagem da Odisséia  na qual a  ama  de Ulisses, Euricléia  , agora uma anciã  o reconhece, apesar de sua longa ausência, pela cicatriz em sua coxa, ganha na juventude durante uma caça ao javali numa visita a seu avô Autólico.

Escreveu Auerbach: Não é fácil, portanto, imaginar contrastes de estilo mais marcantes do que estes, que pertencem a textos igualmente antigos e épicos.  E ao final sintetizou: O realismo homérico não pode ser equiparado, certamente, ao clássico-antigo em geral; pois a separação de estilos, que se desenvolveu só mais tarde, não permitia, nos limites do sublime, uma descrição tão minuciosamente acabada dos acontecimentos quotidianos; sobretudo na tragédia não havia lugar para isto; além disso, a cultura grega logo encontrou os fenômenos do desenvolvimento histórico e da multiplicidade de camadas da problemática humana e os atacou à sua maneira; no realismo romano aparecem, finalmente,  novas e peculiares maneiras de ver as coisas. (… ) Uma vez que tomamos dois estilos, o de Homero e o do Velho Testamento, como pontos de partida,  admitimo-los como acabados, tal qual nos oferecem nos textos; fizemos abstração de tudo o que se refira às suas origens e deixamos, portanto, de lado a questão de saber se as suas peculiaridades lhes pertencem originalmente, ou se são atribuíveis, total ou parcialmente, a influências estranhas e quais seriam elas. A consideração desta questão não é necessária nos limites da nossa intenção; pois foi em seu pleno desenvolvimento alcançado em seus primórdios que esses estilos exerceram sua influência constitutiva sobre a representação européia da realidade.

Até hoje acho graça em  Orlando ter me apresentado Mimesis, obra arquitetada, burilada na escrita,  delicada na análise, generosa com o leitor. Aprendi com ele muitas coisas. Pela primeira vez, entendi que o crítico podia me fazer ver mais sobre algo, sem ser o mesmo da obra ou vencê-la.

Ao terminar a leitura apenas desse primeiro capítulo, fechei o livro, impressionada.  Uma ventania vinda do texto abria comportas em mim. A realidade elaborada através da representação em suas especificidades, européia no caso, e constituída literariamente em seu próprio realismo. O real tinha nervuras.

Passados dois ou três anos, o reabri para alguma disciplina.  Gosto de revisitá-lo.

Naquele momento, porém, com o livro recém fechado, o capítulo me fez ver aqueles retratos,  desde sempre para mim encerrados no abrigo,  de  outro modo.  Mas eu não tinha palavras para dizê-los.  Engasgava.  Por intuição, o texto de Auerbach me sugeria aproximações entre a fotografia e a cicatriz. Fiquei afásica e intrigada. Quase num estado de suspensão.

Foi a última vez que li no abrigo da casa de minha avó. Desde então, nunca mais revi aquelas fotografias, apesar dalgum esforço meu nesta direção. Em agosto daquele ano, entre os aniversários de meu pai e o de minha mãe, minha avó faleceu como vivera, sem mandar recado.

Compreendi, só então, que a fotografia, mesmo  posada, de estúdio, com moça sorridente, endomingada, debaixo da sombrinha, com cheiro de alfazema, poderia ser uma cicatriz. Compreendi que ver fotografia exigia ver fotografia com atenção, observação, zelo e certa intuição, que uma fotografia podia ser um signo a moda de uma cicatriz, que podia ter uma história a ser revisitada, que ficava a mostra, exibida ou não em algum canto, que podia carregar camadas de uma jornada ou de uma ausência, ser constitutiva do real. Nada que a ama de Ulisses não adivinhasse.

Referência:

AUERBACH, Erich. Mimesis: a representação da realidade na literatura ocidental. São Paulo: Perspectiva, 1998.

_____

Iara Lis Schiavinatto é professora do curso de Midialogia e dos programas de pós-graduação em História e em Artes da UNICAMP.