DOBRAS VISUAIS

O passado que significa meu presente

Álbum de Família: treinamento para salva-vidas…

Nesta semana passei pela experiência dolorosa de perder meu irmão. Estou diante de um mundo de imagens que entraram em uma espécie de suspensão. Para todos os lados que olho vejo o passado se tornando presente ou um futuro que parecia possível, ser transformado no agora concreto. Retomei o meu álbum de família tentando (re)costurar alguns afetos. Já vi tantas vezes estas fotografias e só agora passo a perceber algumas coisas, parece que a vida é mesmo um eterno processo de (re)significação. Lembrei deste texto em que Eugênio Bucci fala de uma fotografia do seu álbum de família. Empresto suas palavras para tentar compreender este momento:

“Dizem que, se a fotografia ainda tem algum valor, esse valor é documental, o de ser o registro de um fragmento do tempo. Já não partilho dessa crença, pelo menos não desse modo. Creio que ela captura não o tempo, mas uma curva no espaço ou uma curva no rio. Dizem que a fotografia nos leva a viajar no tempo. Também não é o que sinto, quer dizer, não quando está em questão essa foto particular. Não sinto que o tempo retorne quando a vejo ou quando me lembro dela, pois não sinto que aquele tempo já tenha ido embora. Sinto, isto sim, que aquela cena ainda está lá, naquele vazio temporal em que a gente espera o peixe morder, e que o tempo não se foi, apenas o espaço se curvou e fez que a água passasse. (…)

O slide mantém essa matéria, ou os seus sinais, como quem conserva uma escama de peixe entre as páginas de um livro. Ou melhor ainda, como quem guarda o relevo da escama na deformação que ela causou numa folha de livro, mesmo depois de a escama ter se perdido. Como quem guarda uma cicatriz. (…)

Percebo meu tempo íntimo não como um fluxo contínuo, mas como permanência impermanente, algo que está e que é, muito embora em mutação ininterrupta, algo que não passa como passa o ponteiro do relógio. Posso declarar que ao menos no âmbito do meu álbum de família predomina uma temporalidade outra. Posso ir mais longe e afirmar que todos os álbuns de familia – chamo de álbum de família o conjunto de fotografias que compõem o imaginário documentado de um grupo atado por laços de intimidade – encerram essa temporalidade própria, bem distinta daquele velho rio absoluto que foi abraçado como verdade pelo senso comum. As imagens de família vivificam o passado e, assim, expandem o presente. O retrato da mãe que já morreu sobre uma mesinha de canto faz que ela, a partir da moldura, esteja presente como sujeito naquele espaço doméstico. Há uma subjetivação concreta naquela imagem, assim como há subjetividade na santa cuja estatueta descansa numa quina da parede. É por isso que a fotografia da canoa no corrego do Marmelada não me leva a viajar no tempo; ela me leva, isto sim, a me relacionar com aquele instante que não se foi, pois está aqui, a ponto de eu poder modificá-lo e de ser modificado por ele: eu o modifico se dele extraio novas consequências, se o reinterpreto e reinscrevo na minha formação; ele me modifica se aquela emoção se intensifica em mim. Passado, futuro, ora, essas coisas não existem. Tudo o que sou e tudo o que vivi está aqui, no presente. (…)

Álbum de Família: no dia em que me esfolei com sua Caloi Cross.

A temporalidade do álbum de família é afetiva e não linear. (…)

Nos sonhos, como todos aprendemos a admitir, não há a cronologia estrita que começa no passado, atravessa o presente e se projeta para o futuro; todos os atos são simultâneos, desejos e lembranças se equivalem em vivacidade. É mais ou menos na mesma medida que o relato que está inscrito no álbum de família não se tece de pretéritos, mas de presentes. Eles constituem a presença que eu sou. (…)

A ferramenta do olhar social que é a câmera fotográfica esquarteja nossa memória mais onírica a pretexto de revelá-la aos nossos olhos saudosos – saudosos do presente, não do passado. Ou, olhando pelo avesso, ela consegue de fato nos revelar nossa própria memória, nem que para isso seja necessário esquartejá-la. A fotografia é o relógio que arranca fragmentos da vida para armazená-los na posteridade, como um banco de sêmen. A fotografia é o relógio carnívoro. (…)

A fotografia é um discurso que acredita que o tempo passa por dentro da máquina, da câmera escura, e dessa ilusão estrai a sua autoridade. Vem daí a crença dos que dizem que, se a fotografia ainda tem algum valor, esse valor é o registro dos instantâneos históricos. Novamente vou questionar essa crença. Por duas razões distintas. A primeira delas é que as fotos que hoje circulam pelo imaginário estão cada vez mais desprovidas de suas raízes históricas, o que faz delas, muitas vezes, documentos que renegam sua historicidade, documentos a-históricos ou, como se isso fosse possível, supra-históricos. O álbum de família é um bom ponto de partida para refletirmos um pouco sobre esse desenraizamento da imagem documental. Com sua temporalidade que se aproxima da temporalidde dos sonhos, em que passado e presente se articulam sem seguir cronologia alguma, o álbum de família convida o seu público particularíssimo – formado por seus prórpios personagens – a uma apropriação afetiva do tempo. As imagens ali expostas, abertas, admitem múltiplas sequências narrativas; os fatos passados se expandem e se ligam entre si movidos pela carga afetiva do olhar que costura as associações possíveis. (…)

As fotografias voam por aí não mais como registros factuais, mas como migalhas de lembranças, figuras sem paternidade, que só se articulam em narrativas por força de um olhar afetivo. Ou são vestígios sentimentais, ou não são nada. O valor informativo de uma fotografia está cada vez menos no que ela traz de sua suposta origem documental, histórica ou jornalística, e cada vez mais naquilo que lhe é exterior, o olhar que a tem como objeto e que a tomará como um elo para uma narrativa sentimental. (…)

A minha história pessoal – como qualquer história pessoal de qualquer um – é um presente que não se fecha. É vida em aberto. A natureza desse presente expandido como vivência (e não como barreira), ao qual eu sempre retorno, Walter Benjamin explica melhor: “A história é objeto de uma construção cujo lugar não é o tempo homogêneo e vazio, mas um tempo saturado de ‘agoras’.” (…) Benjamin fala do que há de vivo na história. Por isso, e por mais nada, pode ser invocado para traduzir o que há de vivo no universo do álbum de família. Minhas fotos de família estão vivas, não são cadáveres, mesmo quando levo em conta que alguns de seus personagens já habitam o Cemitério Municipal de Orlândia.”

Referência:

BUCCI, Eugênio. “Meu pai, meus irmãos e o tempo.” In: 8 X Fotografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

Álbum de Família: bons amigos.