DOBRAS VISUAIS

Cem Anos de Solidão | Gabriel Garcia Marquez

O que é fotografia?

“Enquanto Macondo festejava a reconquista das lembranças, José Arcádio Buendía e Melquíades sacudiram a poeira da velha amizade. O cigano estava disposto a ficar no povoado. Tinha estado à morte, realmente, mas tinha voltado porque não pode suportar a solidão. Repudiado pela sua tribo, desprovido de toda faculdade sobrenatural como castigo pela sua fidelidade à vida, decidiu se refugiar naquele cantinho do mundo ainda não descoberto pela morte, dedicado à exploração de um laboratório de daguerreotipia. José Arcádio Buendía nunca tinha ouvido falar desse invento. Mas quando se viu a si mesmo e a toda família plasmados numa idade eterna sobre uma lâmina de metal com reflexos, ficou mudo de espanto. Dessa época data o oxidado daguerreótipo em que apareceu José Arcádio Buendía com o cabelo arrepiado e cinzento, o engomado colarinho da camisa fechado por um botão de cobre, e uma expressão de solenidade assombrada, e que Úrsula descrevia morta de rir como ‘um general assustado’. Na verdade, José Arcádio Buendía estava assustado, na diáfana manhã de dezembro em que lhe fizeram o daguerreótipo, porque pensava que a pessoa se ia gastando pouco a pouco, à medida que sua imagem passava para as placas metálicas. (…) ”

“Melquíades acabou de plasmar nas suas placas tudo o que era plasmável em Macondo e abandonou o laboratório de daguerreotipia aos delírios de José Arcádio Buendía, que tinha resolvido utilizá-lo para obter a prova científica da existência de Deus. (…)”

“Todos se precipitaram na sala. José Arcádio Buendía pareceu fulminado, não pela beleza da melodia, mas pelo movimento autônomo do teclado da pianola, e instalou na casa a máquina de daguerreotipia de Melquíades, com a esperança de obter o retrato do executante invisível.”

“(As pessoas de Macondo) Indignaram-se com as imagens vivas que o próspero comerciante Sr. Bruno Crespi projetava no teatro de bilheterias que imitavam bocas de leão, porque um personagem morto e enterrado no filme, e por cuja desgraça haviam derramado lágrimas de tristeza, reapareceu vivo e transformado em árabe no filme seguinte. O público, que pagava dois centavos para partilhar das visissitudes dos personagens, não pode suportar aquele logro inaudito e quebrou as poltronas. O alcaide, por insistência do Sr. Bruno Crespi, explicou num decreto que o cinema era uma máquina de ilusão que não merecia os arroubos passionais do público. Diante da desalentadora explicação, muitos acharam que tinham sido vítimas de um novo e aparatoso negócio de cigano, de modo que optaram por não voltar ao cinema, considerando que já tinham o suficiente com os seus próprios sofrimentos para chorar por infelicidades fingidas de seres imaginários. (…)”

“Comprou uma passagem eterna num trem que nunca acabava de viajar. Nos cartões-postais que mandava das estações intermediárias, descrevia aos gritos as imagens instantâneas que tinha visto pela janela do vagão, e era como ir rasgando em tiras e jogando ao esquecimento o longo poema da fugacidade.”

Gabriel Garcia Marquez em Cem Anos de Solidão (Rio de Janeiro: Record, 2000.)

Para conhecer mais: Malu Teodoro.