DOBRAS VISUAIS

Doutorar | John Urry

O Olhar do Turista, John Urry

“O fotógrafo do século XX é atraído por todos os lugares, por cada objeto, acontecimento e pessoa possíveis. Ao mesmo tempo o fotógrafo também é observado e fotografado. É, ao mesmo tempo, aquele que vê e é visto. Ser fotógrafo no século XX – e isso, dentro de amplos limites, faz parte da viagem e do turismo – também significa ser visto e fotografado.

Houve enorme proliferação das imagens fotográficas, desde a invenção da fotografia, em 1839. Ao longo deste século e meio ocorreu uma ilimitada insaciabilidade do olho que fotografa, uma insaciabilidade que ensina novos modos de contemplar o mundo e novas formas de competência para fazê-lo. É fundamental, porém, compreender que a fotografia é uma maneira socialmente construída de ver e registrar. Como tal, possui inúmeras características essenciais (ver Sontag, 1979; Berger, 1972; Barthes, 1981; Albers e James, 1988).

1. Fotografar é apropriar-se, de certo modo, do objeto que está sendo fotografado. É uma relação de poder/conhecimento. Ter conhecimento visual de um objeto é, em parte, ter poder sobre ele, ainda que momentâneo. A fotografia doma o objeto do olhar e os exemplos mais notáveis se encontram nas culturas exóticas. Nos Estados Unidos as companhias ferroviárias muito fizeram para criar atrações ‘indígenas’ para serem fotografadas, selecionando cuidadosamente aquelas tribos que tinham uma aparência particularmente ‘pitoresca e patriarcal’ (Albers e James, 1988: 151).

2. A fotografia parece ser um meio de transcrever a realidade. As imagens produzidas não parecem ser afirmações sobre o mundo, mas parcelas dele ou mesmo fatias em miniatura da realidade. Assim, um fotógrafo parece fornecer a prova de que algo aconteceu de fato, de que alguém estava realmente presente ou de que a montanha se encontrava realmente a distância. Pensa-se que a câmera não mente.

3.No entanto, as fotografias são resultado de uma significante prática ativa, na qual aqueles que fotografam selecionam, estruturam e moldam aquilo que vai ser registrado. Existe, em particular, uma tentativa de construir imagens idealizadas, que embelezam o objeto que está sendo fotografado. Sontag afirma: ‘A tendência estetizante da fotografia é tal que o meio que transmite a desolação acaba neutralizando-a’ (1979: 109).

4. O poder da fotografia deriva, assim, de sua capacidade de apresentar-se como uma miniaturização do real, sem revelar sua natureza construída ou seu conteúdo ideológico.

5. À medida que todos se transformam em fotógrafos, todos também se transformam em semióticos amadores. Aprendemos que uma casa campestre, com cobertura de palha, representa ‘a velha Inglaterra’, ou que as ondas se arrebentando nas pedras significa ‘a natureza selvagem e indômita’; ou, sobretudo, que uma pessoa com uma máquina pendurada no pescoço é, sem dúvida, um ‘turista’.

6. A fotografia envolve a democratização de todas as formas de experiência humana, transformando tudo em imagens fotográficas e possibilitando que qualquer pessoa fotografe. Cada coisa ou pessoa fotografada torna-se o equivalente da outra, interessante ou desinteressante. Barthes nota que a fotografia começou com fotos de pessoas notáveis e acabou tornando notável tudo aquilo que é fotografado (1981: 34 e ver Sontag, 1979: 111).

7. A fotografia da forma à viagem. É o motivo para se parar, tirar uma foto – clique! – e prosseguir. A fotografia implica obrigações. As pessoas sentem que não podem deixar de ver determinadas cenas, pois, caso contrário, as oportunidades de fotografá-las serão perdidas. AS agências de turismo passam muito tempo indicando onde as fotos devem ser tiradas. Com efeito, boa parte do turismo torna-se uma busca do fotogênico. A viagem é uma estratégia para a acumulação de fotografias. Isso parece ter um grande apelo, sobretudo para aquelas culturas que cultivam uma ética muito forte do trabalho. Os japoneses, os americanos e os alemães parecem ‘terem’ de tirar fotos. É uma espécie de lazer equivalente àquelas obrigações distorcedoras de uma cultura que se apóia fortemente no trabalho.

8. Há uma espécie de círculo hermenêutico envolvido em boa parte do turismo. Aquilo que se procura durante as férias é um conjunto de imagens fotográficas, como as que se vêem nos folhetos das excursões, distribuídos pelas agências de turismo, ou em programas de televisão. Quando o turista está viajando, ele se põe a buscar estas imagens e as captura para si. No final, os viajantes demonstram que ‘estiveram realmente’ em determinado lugar, exibindo sua versão das imagens que haviam visto originalmente, antes da viagem.

URRY, John. O Olhar do Turista. São Paulo: Studio Nobel, SESC: 2001.