DOBRAS VISUAIS

A fotografia é uma possibilidade

Assisti nesse feriado o filme coreano Poesia (Lee Changdong, 2010), a história de uma senhora cujo único desejo é escrever um poema. Para isso procura um professor que lhe instiga a observar o mundo a sua volta e anotar palavras e versos possíveis dentro desta experiência. Mas um acontecimento envolvendo seu neto a coloca diante do conflito entre a violência e a delicadeza de viver. No filme, um retrato fotográfico entra na história como uma espécie de mediador do seu conflito, um objeto que leva a personagem a descobrir a escrita também pela dor.

Na saída do cinema deparei-me com o livro Coleção de Areia de Italo Calvino, inédito para mim. Trata-se de uma coletânea de textos sobre experiências cotidianas. Começei a ler ainda no feriado em que me encontrava no processo de decantar meus afetos. Por alguma razão, entendi que filme e livro pareciam falar de coisas semelhantes.

Um dos textos me chamou especial atenção com o título Em memória de Roland Barthes. Escrito logo após a morte trágica por atropelamento do filósofo francês em 1980, trata das impressões de Calvino diante da experiência da morte versus a última leitura da produção do colega. Assim ele nos conta:

“Em seu último livro, que eu tinha lido poucas semanas antes (A Câmera Clara), fiquei tocado sobretudo pelas belíssimas páginas sobre a experiência de ser fotografado, sobre o incômodo de ver o próprio rosto transformado em objeto, sobre a relação entre a imagem e o eu; assim, entre os primeiros pensamentos que me tomaram na apreensão por sua sorte se insunuava a lembrança daquela leitura recente, o liame frágil e angustiante com a própria imagem que fora lacerada de repente como se rasga uma fotografia. Já em 28 de março, no caixão, seu rosto não estava absolutamente desfigurado: era ele, como tantas vezes o encontrei por aquelas ruas do Quartier, com o cigarro pendendo do canto da boca, no modo de quem foi jovem antes da guerra (a historicidade da imagem, um dos tantos temas de A Câmera Clara, se estende à imagem que cada um de nós faz de si na vida), mas estava ali, fixado para sempre, e as mesmas páginas daquele capítulo 5 do livro que fui reler logo em seguida agora só falavam disso, somente disso, de como a fixidez da imagem é a morte, e daí a resistência interna a deixar-se fotografar, e também a resignação. ‘É como se, terrificado, o Fotógrafo tivesse de lutar imensamente para que a Fotografia não seja a Morte. Mas eu, já objeto, eu não luto.’ Uma atitude que agora parecia reverberar naquilo que se pudera saber dele durante o mês que passou no hospital da Salpêtrière já sem poder falar. (…) Para nós que estávamos ali por causa de Barthes, esperando imóveis e mudos no pátio, como seguindo a senha implícita de reduzir ao mínimo os sinais do cerimonial funerário, tudo o que se apresentava naquele pátio agigantava sua função de signo; eu sentia fixar-se, em cada detalhe daquele pobre quadro, a acuidade do olhar que se exercitara em descobrir frestas reveladoras nas fotografias de A Câmera Clara.”

Ao ler este texto de Calvino sobre a morte de Barthes e ao pensar no papel sutil da fotografia na história de Lee Changdong, lembrei-me ainda do filme A Partida (Yojiro Takita, 2008). Também aqui o retrato funciona como mediador na experiência com a morte, mas quase numa função invertida já que por vezes se torna modelo para uma última imagem que a família tem do corpo.

Os três casos são atravessados por certa noção da ligação entre fotografia e morte e a experiência que Calvino relata nos ajuda a levá-la ainda mais nesta direção. Mesmo não tendo tantas certezas, sigo pensando que a fotografia é a possibilidade de algo. Cada um de nós sinaliza um caminho nesta encruzilhada.