DOBRAS VISUAIS

Tornar visível o que não vemos

Alice Miceli: Projeto Chernobyl, 2007-2010.

Retomo as atividades do blog em 2011 resgatando um trabalho que comentei no último post, quando fui questionada sobre qual imagem me chacoalhou na 29a Bienal. Esta pequena mobilização sobre a mostra foi uma grata surpreza no Dobras, no meio da correria de final de ano quase todos mandaram suas escolhas e o resultado foi um post bem grandão com acessos de diversos lugares em que foi compartilhado.

Aqui a minha escolha. O Projeto Chernobyl – Imagens do Invisível de Alice Miceli foi montado numa sala escura em um lugar pouco visível da mostra. Trinta caixas de luz com negativos radiográficos foram expostos pela primeira vez nesta Bienal de São Paulo. Miceli se propôs a documentar o acidente nuclear ocorrido em 1986 na Ucrânia, hoje Bielo-Rússia,  cujos efeitos ainda causam danos a vida da região. As imagens foram obtidas a partir da radiação invisível emitida pela matéria orgânica e por objetos contaminados, longos tempos de exposição para encontrar a marca dos raios gama.

Dois materiais fazem parte do projeto. Uma documentação em preto e branco apresenta o percurso: a viagem, a chegada, os possíveis problemas numa região de fronteira reforçada por ser excluída. Boa fotografia, mas um pouco pela tradição, já conhecemos estas imagens. O segundo, exposto na Bienal, é inquietante pelo pelo que não mostra. Quando lemos as informações sabemos do que se trata, mas não identificamos ali os objetos, os possíveis referentes, se é que podemos chamá-los desta maneira.

Alice Miceli: Projeto Chernobyl, 2007-2010.

A artista relatou o início das investigações no blog Chernobyl Project dentro do programa do 6º Prêmio Sérgio Motta: a chegada na zona de exclusão, a construção da pin hole de chumbo, os primeiros testes do processo, o abandono da câmera. Logo nas primeiras viagens ela relata:

“A invisibilidade da radiação é o ponto central. O que há especificamente para ser visto? O mais impressionante é que a primeira resposta seria: NADA. Nada além de campos e florestas. Nada além da natureza se multiplicando. Nada muito especifico, que denote a real situação do lugar.”

Saio da sala expositiva com uma impressão que me fez lembrar esta passagem do Didi-Huberman. É com ela que inicio meu ano aqui no Dobras:

“O que vemos só vale – só vive – em nossos olhos pelo que nos olha. Inelutável porém é a cisão que separa dentro de nós o que vemos daquilo que nos olha. Seria preciso assim partir de novo desse paradoxo em que o ato de ver só se manifesta ao abrir-se em dois. (…) Abramos os olhos para experimentar o que não vemos, o que não mais veremos – ou melhor, para experimentar o que não vemos com toda evidência (a evidência visível) não obstante nos olha como uma obra (uma obra visual) de perda. Sem dúvida, a experiência familiar do que vemos parece na maioria das vezes dar ensejo a um ter: ao ver alguma coisa, temos em geral a impressão de ganhar alguma coisa. Mas a modalidade do visível torna-se inelutável – ou seja, votada a uma questão de ser – quando ver é sentir que algo inelutavelmente nos escapa, isto é: quando ver é perder. Tudo esta aí.” (In: O que vemos, o que nos olha)

Alice Miceli: Projeto Chernoby, 2007-2010.