DOBRAS VISUAIS

Imagens que me movem

Responder a questão “quais imagens são importantes na minha formação?” é uma saia justa. Opto por Michael Wesely e Jeff Wall ou os Becher e Mike Mandel e Larry Sultan? Escolho os brasileiros Miguel Rio Branco, Rosângela Rennó e João Castilho ou as mulheres Sophie Calle, Nan Goldin e Penelope Umbrinco? Muito cruel. Ficaria com todos eles e mais um bocado de gente.

Mas entendo que o jogo aqui é a síntese. Tentei então encontrar uma resposta a partir de uma inquietação e escolhi a noção de clichê como o lugar comum, uma coisa que de tanto ser repetida acaba tornando-se uma tradição ou se traduz em uma ação. Dessa forma, penso em três artistas que insistem em dizer o quanto o mundo está cercado das mesmas imagens e com isso chegamos as nossas próprias histórias com a fotografia.

Gerhard Richter. Atlas Sheet 183 -Wolken Clouds, 1970.

Gerhard Richter: Desde os anos 1970, o artista coleciona imagens de jornais, álbuns, panfletos. Vai montando Atlas num movimento obsessivo de categorização do mundo. Do Holocausto à vida familiar, tudo ali é classificável. Esse trabalho me faz lembrar uma brincadeira da infância que era confeccionar papéis de carta com recortes. Onde eu morava não existiam papelarias e a febre era colecioná-los. Anos atrás fiz um curso com a Penélope Umbrinco e ela nos pediu um exercício a partir de figuras que poderíamos encontrar na Sala das Imagens da Biblioteca Pública de Nova York. O paraíso para aquela menina que fui. Muitas estantes com pastas categorizadas pelos mais diversos assuntos e com tudo que é tipo de coisa e origem: fotografia, pintura, gravura, desenho. Fiquei horas ali refazendo papéis de carta imaginários.

Joachim Schmid: Photogenetic Drafts, 1991.

Joachim Schmid: Diversos artistas como Arman, Boltanski, Rennó e os Becher embrenharam-se neste universo do colecionismo, da acumulação, da repetição, da categoria. No projeto Archiv (1986-1993), Schmid indica o mesmo caminho, mas em Photogenetic Drafts nos deparamos com o clichê da pose. É importante pela simplicidade e astúcia. Quem nasceu nas décadas de 1960/70 passou algum dia por um estúdio de fotógrafo e fez a célebre série circular com margens esfumaçadas… A minha vez foi numa viagem de férias a Fortaleza, nosso colega me deu duas caixinhas de Tri X pra ver ser eu achava aquilo interessante, mas eu era tão tímida que nada saiu direito. Fiquei com cara de espanto e o fotógrafo disse para minha mãe que com aquelas fotos não poderia fazer um bom trabalho. Tenho só as provas. Até hoje desconfio que não sorri porque já estava achando esta história de fotografia muito curiosa na minha vida.

Marcelo Pedroso: Um documentário com imagens dos turistas. Para mim o filme é uma aula sobre fotografia e caiu como uma luva na minha pesquisa de doutorado: o clichê, a magnitude da imagem na vida cotidiana, os afetos que ela mobiliza. Sim, também tenho meus álbuns de viagem, pois meu pai era um amador compulsivo. Por vezes, creio que sigo por um caminho semelhante quando vejo os álbuns da história familiar que agora eu monto com os meus filhos. Será possível escaparmos do clichê?”

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Publicado no blog do f/508, para a seção “3×1: Quais são as três imagens importantes na minha formação?”, a convite da Janaina Miranda.