DOBRAS VISUAIS

Doutorar | Simon Schama

Lívia Aquino, 2011.

Paisagem e Memória, Simon Schama

“Os fundadores do moderno ambientalismo, Henry Thoreau e John Muir, garantiram que ‘nos ermos bravios se encontra a preservação do mundo’. A idéia era que a natureza selvagem estava em algum lugar, no coração do oeste americano, esperando que a descobrissem, e que seria o antídoto para os venenos da sociedade industrial. Os ‘ermos bravios’, contudo, eram, naturalmente, produto do desejo da cultura e da elaboração da cultura tanto quanto qualquer outro jardim imaginado. O primeiro éden americano, por exemplo, e também o mais famoso: Yosemite. Embora o estacionamento seja tão grande quanto o parque e os ursos estejam fuçando entre embalagens de McDonald’s, ainda imaginamos Yosemite como Albert Bierstadt o pintou ou Charleton Watkins e Ansel Adams o fotografaram: sem nenhum vestígio da presença humana. É evidente que o próprio ato de identificar (para não dizer fotografar) o local pressupõe nossa presença e, conosco, toda a pesada bagagem cultural que carregamos.

Afinal, a natureza selvagem não demarca a si mesma, não se nomeia. Foi uma lei no Congresso, em 1864, que designou Yosemite Valley como o lugar de significado sagrado para a nação, durante a guerra que assinalou o momento da Queda do Jardim Americano. Tampouco a natureza selvagem venera a si mesma. Foram necessárias visitas santificantes de pregadores da Nova Inglaterra como Thomas Starr King, fotógrafos como Leander Weed, Eadwaerd Muybridge e Carleton Watkins, pintores que usam tintas como Bierstadt e Thomas Moran e pintores que usam palavras como John Muir para representá-la como o parque sagrado do oeste; o local de um novo nascimento; uma redenção para a agonia nacional; uma recriação americana. (…)

Ansel Adams, que admirava e citou Muir e fez o possível para traduzir sua reverência em imagens espetaculares, explicou, em 1952, ao diretor do National Park Service que fotografou Yosemite daquela maneira a fim de santificar ‘uma idéia religiosa’ e ‘inquirir de minha alma o que realmente significa o cenário primitivo’. ‘Em última análise’, escreveu, ‘Half Dome é apenas uma pedra. […] Existe uma profunda abstração pessoal de espírito e conceito que transforma esses fatos terrenos numa experiência emocional e espiritual transcendente’. Proteger o ‘potencial espiritual’ de Yosemite, acreditava ele, significava manter pura a natureza bravia; ‘infelizmente, para mantê-la pura, temos de ocupá-la’. (…)

Como acontece com Carleton Watkins ou Ansel Adams, é necessário utilizar a câmera para captar o momento natural. Com isso, o gesto organizador do artista apenas se transfere da mão no pincel para o dedo no obturador. E, nesse instante isolado de enquadramento, as velhas criaturas da cultura saem da toca, arrastando atrás de si as lembranças de gerações anteriores. (…)

Perceber o contorno fantasmagórico de uma paisagem antiga, sob a capa superficial do contemporâneo, equivale a perceber, intensamente, a permanência dos mitos essenciais. (…) Os hábitos culturais da humanidade sempre deixaram espaço para o caráter sagrado da natureza. Todas as nossas paisagens, do parque urbano às trilhas na montanha, têm a marca de nossas persistentes e inelutáveis obsessões.”

SIMON, Simon. Paisagem e memória. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

Lívia Aquino, 2011.