DOBRAS VISUAIS

Imagens que chacoalharam, 29a Bienal de São Paulo

Ano encerrado no Dobras: boas conversas, muito trabalho e imagens que nos fazem pensar. Convidei amigos para falarem sobre algum trabalho que os tenha ‘chacoalhado’ na 29a Bienal de São Paulo. Amplo assim.

Obrigada a todos que responderam, aos que passaram por aqui neste ano deixando seus comentários ou simplesmente me ajudando a pensar no sentido desse espaço que tem gerado uma conversa muito prazerosa.

Volto em janeiro! Boas conversas, boas imagens, bons amigos.

RONALDO ENTLER – Je vous salue, Sarajevo, de Godard, é uma experiência de montagem, num sentido primordial: uma fotografia, um texto (que já é uma colagem de vários textos) e uma música que se encontram. Cada um desses discursos mantém sua independência, não se reduz à ilustração. Reunidos, expandem reciprocamente seus sentidos. A montagem é tanto mais prenhe quanto maior o salto que realiza para colocar seus elementos em diálogo. O recado de Godard é implacável: “a cultura é a regra, a arte é a exceção”. A “Europa da cultura” impõem a sua regra, e mata a “arte de viver”. Como disse Benjamin em suas teses Sobre o conceito de história, “Nunca houve um monumento da cultura que não fosse também ummonumento da barbárie”. Não há o que celebrar nesse projeto de civilização que se desenvolve ao preço da intolerância, como a imagem não cessa de mostrar. É melhor saber morrer. Obs: Ronaldo escreveu um post para o Icônica a partir deste texto. Leia aqui.

RAFAELA JEMMENEEu gostei de vários trabalhos, mas um vídeo de Jean-Luc Godard, me chamou muita atenção. Falava a respeito da guerra, da cultura dominante. A arte como exceção à regra, e que a regra seria querer matar a exceção. É vídeo que usa fotografias, uma voz de fundo dizendo este texto, que fala também sobre dignidade da morte. Não sei, fala de muitas coisas eu o assisti 3 ou 4 vezes e antes de ir embora ia assitir de novo, mas já estavam fechando.

 

ARMANDO PRADO – Olha a imagem que chacoalhou, foi uma instalação do Nelson Leirner. Era um porco selvagem, voando sobre um aeroplano. Achei a imagem muito forte. O animal e a máquina era algo inusitado, transitando entre o real e o fantástico. A taxidermia sempre me impressionou. Gostei também da Nan Goldin, trabalho consistente, levantando as velhas questões da condição humana. Nan Goldin nos leva a uma imersão ao seu mundo em 45 minutos com uma ótima trilha sonora e imagens muito fortes. Puro deleite.

Nelson Leirner: Javavoa, 2010.

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ADELAIDE IVÁNOVA – Bom, na verdade eu não fui à bienal, eu fui pra Nan Goldin. entrei no prédio e fui direto ver o slideshow dela, que é minha fotógrafa preferida. “a balada da dependência sexual” é tão impressionante. eu já tinha visto algumas fotos desse trabalho, avulsos, em exposições, mas nunca o trabalho como ela o concebeu para o whitney museum – o tal do slideshow. o poder narrativo de nan é assustador, ela não caminha como uma contadora de histórias regular, “começo, meio e clímax”. é tudo clímax. a trilha sonora escolhida por ela é, ao mesmo tempo, um alento e um desconforto. o trabalho de nan é documental e sofisticadíssimo no seu niilismo estético, que contrasta no seu desespero narrativo… vi a projeção duas vezes, e foi interessante ver como ninguém ficava até o fim do slideshow – acho que o tem é confessional demais para ser facilmente suportado. as imagens que escolhi: nan fotografou sua melhor amiga, cookie, durante 13 anos. um mês depois de perder o marido, cookie faleceu. ambos morreram de aids, em 1989. nan fotografou a amiga até o fim… eu acho impressionante a devoção que nan tem em relação aos seus fotografados. é uma coisa. quero ser assim.

FERNANDO SCHMITT – Não há uma imagem que seja capaz de expressar o impacto que The Ballad of Sexual Dependency de Nan Goldin produziu em mim. Era um trabalho que eu conhecia impresso em livro ou em pequenas séries publicadas em revistas ou na internet. Edições sintéticas de imagens fortes. Mas sabia que as primeiras exibições do trabalho eram feitas em projeções de slides na balada novaiorquina. A versão em vídeo mostrada na Bienal restaurou a luz projetada como suporte essencial desse trabalho e escancarou uma entrada completamente diferente para ele. Abriu a possibilidade de entendê-lo em outra intensidade: a de sua extensão. Sentado no chão, imerso em quarenta e poucos minutos e centenas de imagens vi uma Nan Goldin ainda mais nua, exposta em sua drogadição fotográfica. E aquelas fotografias já sedimentadas na memória, diluídas entre tantas outras, ganharam, paradoxalmente, uma potência inesperada. Saí dali chacoalhado de fato e não consegui ver mais nada.

DANIELA BRACCHI – Respondendo a sua pergunta, escolho a obra Ballad of Sexual Dependency, da Nan Goldin. Com a ressalva de achar a obra bem característica de uma determinada época (final dos anos 80, com a temática da aids, etc) ainda acho que é a obra que vale menção na Bienal. Isso porque ela quebra com o estilo mais empoado de fotografia e, na simplicidade de sua composição, constrói esse espaço de intimidade no qual a fotógrafa nos abre sua vida e nos convida a viver com ela esses anos loucos. Ter alguém que nos chama para partilhar suas experiências de vida me lembra de como a exposição pública pode ser mais rica do que apenas orkut, facebook, etc. Nan Goldin passa nessas fotos a imagem de uma mulher corajosa, que vive seu tempo (e também sofre nele) e nos mostra como é uma personagem interessante. Gosto muito também dessa idéia de virar personagem de sua própria obra, acho que contribui muito para pensarmos o auto-retrato na fotografia.

Nan Goldin: The Ballad of Sexual Dependency, 1979-2004.

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CARLA ROMERO – Atendendo a um pedido da Lívia, voltei à Bienal em busca de uma obra de arte que mexesse comigo. Na minha primeira visita à mostra, fiquei muito impressionada pelo multimídia “The Ballad of Sexual Dependency”, de Nan Goldin, mas achei que essa escolha seria muito óbvia. Por conta disso, voltei ao espaço à procura de uma outra opção. Dessa vez saí de casa com uma frase na cabeça: “quando vemos um quadro, somos fatalmente levados a recordar mil e uma coisas que influenciam o nosso agrado ou desagrado.” A citação é de Ernst Gombrich e está no seu clássico livro sobre História da Arte. Acreditando que essa ideia me orientaria, imaginei anotar num caderninho que tipo de memória as imagens escolhidas iam me suscitar. Na exposição, essa “metodologia” se mostrou muito complicada e resolvi seguir o passeio registrando nomes e levando em conta a pergunta: essa obra conversa comigo? Nas minhas notas, apareceram vários artistas. Após algumas peneiradas, “A Origem do Terceiro Mundo”, de Henrique Oliveira, foi a minha escolhida. A proposta do artista é um passeio por uma vagina. A instalação é um emaranhado de caminhos com 40 metros de corredores tortuosos. A obra foi inspirada no quadro A Origem do Mundo, de Gustave Courbet, pintor do século XIX. O espaço foi construído com restos de tapumes que o artista recolhe pela cidade. No interior, a impressão é de um ambiente precário, com aspecto orgânico, cheio de volumes, cores e texturas. A obra propõe mais do que uma experiência visual. O tátil e o sonoro ajudam a compor a vivência. Percorrer a vagina é, para mim, um processo que mobiliza afeto e emoção. Sair pelos grandes lábios dá uma sensação de recomeço. Feliz com a minha escolha, comecei a me organizar para deixar o prédio, mas antes de partir fui ver mais uma vez as fotos de Nan Goldin. Durante o multimídia, tive uma recaída. Mesmo considerando o raciocínio que me levou escolher a obra de Oliveira, é muito forte a emoção que sinto ao ver aquelas imagens de “Ballad”. De frente para a projeção parece que estou vendo uma ópera que fala sobre a beleza mas, principalmente, sobre a crueldade do amor. Tudo é contado sob o ângulo de uma mulher, a fotógrafa. O feminino fica completamente exposto na obra. Seus fortes e seus fracos. Mas diferente da instalação de Oliveira, que pode passar uma ideia de renascimento, o multimídia de Nan deixa claro, ao menos para mim, que o ser humano é um projeto inviável. Não há esperanças. Mas deixando de lado todos os argumentos para justificar a minha escolha por Nan, a verdade é que “The Ballad of Sexual Dependency” mexe comigo de uma maneira bem rústica. E mesmo sem saber como, tenho certeza que ela me faz “recordar mil e uma coisas”, do jeito que Gombrich já tinha me avisado.

Esquerda: Nan Goldin | Direita: Henrique Oliveira

 

CLAUDIO EDINGER – Nessa Bienal nenhuma imagem chacoalhou nada aqui, acho que como um todo foi ótima pois retomou um caminho abandonado pela anterior… achei o tema insonso, a representação do tema pior ainda misturas que não tinham nada a ver com o tema, videos chatérrimos, no geral, das 161 mostras (era esse o número de artistas só umas três se salvam: a Alessandra Sanguinetti (cujo trabalho é lindíssimo mas que enfim não tinha nada a ver com o tema da mostra) o Gil Vicente que pintou os presidentes sendo mortos, um sensacionalismo ótimo e os ótimos tapunes do Henrique Oliveira. (…) Mas gostei, tem muita coisa pra gente conversar a respeito e arte é isso.

Gil Vicente: Inimigos, 2005.

Gil Vicente: Inimigos, 2005.

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ELISA VON RANDOW – Fui. Acabei vendo tudo bem rápido, mas valeu demais ter ido. E no meio de tanta cor, imagem em movimento, paredes e chão ocupados, fiquei feliz em ver de pertinho, numa sala tranquila, os pequenos desenhos sussurrantes e safados de Gil Vicente. Gostei de não ser chacoalhada. Me deu um alívio encontrar uma ilha de nanquim sobre papel para descansar de tanto mar para navegar.

Gil Vicente: Suíte Safada, 2007-2010.

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EDUARDO QUEIROGA – Foi a visão externa da obra de Henrique Oliveira. Quando vista na sua parte final. Vinha já meio cansado daquela maratona, vários andares, muitas obras, batendo um cansaço físico. Num momento em que, depois de tantas coisas, já corremos o risco de embaralhar e já começamos a ser menos pacientes, já sentimos um prejuízo da fruição. Estou ali, passando sem ver, pensando em dar por finalizada a visita do dia, quando vejo aquela hérnia gigantesca, estourando a parede branca, envolvendo a coluna e o espaço num tapume inchado. Uma pulsão, uma podridão se impondo naquele ambiente limpo e organizado. Entranhas que rasgavam os limites da civilização. Me aproximei, procurando o nome da obra: A origem do terceiro mundo. [achei]

Henrique Oliveira: A origem do terceiro mundo, 2010.

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NATHALIA GUIMARÃES – Fui a bienal em um dia bem bucólico e melancólico… com a cabeça em uma outra realidade, um daqueles dias de mundo da lua… E foi assim, sonhando, que em um determinado momento me deparei com o trabalho de Alessandra Sanguinetti, uma fotografa norte-americana/argentina, membro da agencia magnum e de fundações renomadas que retrata o cotidiano de uma maneira diferente, tão poética! Seu trabalho ali exposto era a série Las aventuras de Guille y Belinda y el enigmático, um trabalho que Alessandra diz não ter sido projetado, ela conheceu as primas e com o passar dos anos foi fotografando-as, criando histórias imaginarias e se baseando em suas próprias vidas. A representação dos sonhos e essa maneira como Alessandra faz a construção de uma historia da vida com suas primas é surpreendente, os olhares, as composições, a luz e o senso de humor em algumas imagens foram uma das coisas que mais me marcaram nesse trabalho. Na verdade, seu trabalho me fez sentir alegria, esperança e vontade de explorar mais o imaginário,o cotidiano,a vida simples, álbuns de família… Acredito que tenha sido por causa desses sentimentos que senti que escolhi esse trabalho para representar minha experiência na 29ª Bienal.

Alessandra Sanguinetti: Las aventuras de Guille y Belinda y el enigmático significado de sus sueños, 1997.

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RICARDO GOROD – De cara posso te dizer q a imagem q mais me impressionou – inclusive fui depois dar uma pesquisada na história e descobri coisas interessantes a respeito – foi uma projeção gigante de umas pessoas dançando convulsivamente. É um trabalho chamado “Tarantism” de um dinamarquês chamado Joachim Koester.
Descobri depois q na Itália Medieval, comportamentos hj considerados “histéricos” eram relacionados a mordida de tarântula. Promoviam então essas danças convulsivas, coletivas, como tratamento. A “tarantella”, a dança, tb vem daí…hahaha. E ambas vem de Taranto (a cidade italiana de onde é originária tanto a aranha qto a tarantella). E tb gostei de ver o trabalho do Joseph Kosuth. Não tem nenhum deleite visual nele, mas eu tenho um interesse histórico por esse tipo de trabalho… É a descrição, em palavras, de Norte, Sul, Leste e Oeste, e faz parte do início da “arte conceitual”, qdo os artistas tentavam afirmar q a idéia era mais importante q o resultado, e o processo mais importante q o fim, e eram contrários ao fato da arte virar um produto vendável, então faziam de tudo pra q ela não pudesse ser usada como ornamento. Acho ótimas essas tentativas de ser “do contra” srsr

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CASSIO VASCONCELLOS – De longe o trabalho que mais me marcou na 29a Bienal foi o trabalho da Rosângela Rennó, no último andar. O porque é o mais difícil de explicar, mas posso resumir: porque não conseguia parar de olhar as fotos, tamanha a força inexplicável da obra. Essas são as que mais gosto: não oferecem respostas rápidas e nos convidam a uma imersão total na imagem.

Rosângela Rennó: Matéria de Poesia, 2010.

 

MANU MELO FRANCO – Pensei no quão difícil seria te dar a tal imagem que me chacoalhou. sendo assim, te ofereço aqui uma sensação (correndo o risco de não ser aceita!) pois bem, foi ela que me bagunçou toda já logo na entrada do pavilhão.  uma grande roda, muitos negros, tambores, canto alto, forte, roupas coloridas, gente branca, crianças, adultos e cabeças brancas. até os monitores da própria bienal dançavam seus uniformes no meio da grande roda e se misturavam ao rebolado afro das dançarinas “oficiais”. e eu me perguntei se estava no lugar certo. a resposta veio pelo balançar do meu corpo que logo se rendeu àquela música. e por ali eu fui ficando, soltando minha franga como não fazia há tempos.
“manu, a bienal, lembra? vamos?”
“ah! é mesmo, vamos.”
vi foto, vi pano, vi cabeça de bode, vi vídeo, jornal, vi tinta, vi nada, vi um monte.  se bom ou ruim, não vem ao caso agora.  vi coisa pra chuchu, até cansar, e cansei mesmo. mas sentir, tremer, me emocionar, chacoalhar, só mesmo aquela  do início. a obra de arte mais bonita da bienal, a obra que eu vi, senti, entendi, gostei e ajudei a construir. era minha também!

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FERNANDA PRADO – Pergunta: pode ser filme? Pois o que mais me chacoalhou na Bienal foi o filme do Miguel Rio BrancoNada levarei qundo morrer aqueles que mim deve cobrarei no inferno! Um filme com cheiro de pinga (daquelas bem baratas), suor, sexo sujo e lixo das ruas de Salvador. Visceral. Viciante. Não me contentei em ver o filme do Miguel Rio Branco apenas uma vez. Fui num domingo e depois voltei num sábado. Vi de cabo a rabo duas vezes e ainda queria ver mais. Aquela salinha de projeção me chamava….

Miguel Rio Branco: Nada levarei qundo morrer aqueles que mim deve cobrarei no inferno, 1979-1981.

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EDUARDO COSTA – Legal a idéia do post. Encaminho uma imagem do “Projeto Mutirão” da Graziela Kunsch. Tem um breve resumo nesta página. Não sei bem se foi pela imagem que esse projeto me chamou a atenção. Acho que não. Mas acho interessante essa forma de realização de uma obra. Agora, se chacoalhou mesmo… Nem tanto. O que eu posso dizer é o seguinte, utilizando-me de uma citação: “O mutirão não é propriamente um socorro; um ato de salvação ou movimento piedoso; é antes um gesto de amizade, um motivo de folgança, uma forma sedutora de cooperação para executar rapidamente um trabalho agrícola” (Plínio Ayrosa).

Graziela Kunsch: Projeto Mutirão, 2005.

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VERA VASQUES – A imagem que me chacoalhou na Bienal foi a vídeo instalação D’est, au bord de la fiction da Chantal Akerman. Sou meio suspeita para falar já que vídeos sempre me pegam mais do que todo o resto e já estava com vontade de ver essa obra há um tempo. Gosto particularmente de vídeos com tomadas em tempo real, eles se assemelham à fotografia, mas ao invés de um momento congelado, é como se fosse um movimento preso no tempo (não sei se consegui ser clara nessa parte). No caso imagens de pessoas do leste europeu após a guerra-fria. Alguns travelings de paisagens e a presença humana sempre parecendo em espera, parados em filas, aglomerados ou só andando pela neve. A instalação é feita em 25 monitores na segunda sala e na primeira o vídeo inteiro, que tem em torno de duas horas. Veja se fez sentido, mesmo depois do tcc, ainda sou meio enferrujada para escrever. Hehe.

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VINÍCIUS MARIANO –  o trabalho que mais me empolgou foi o do Jimmie Durham que fez um estudo sobre a normalidade brasileira. Achei demais! Todas aquelas notícias de jornal com anotações dele, textos, revistas… Normalidade é algo que tem me chocado e trabalhos críticos assim super tem me empolgado =)

Jimmie Durham: Bureau for Research Into Brazilian Normality, 2010.

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JOÃO CASTILHO – Foi a obra do Alfredo Jaar. Eu não esperava aquilo. Eu não podia esperar nado como aquilo. A aparente singeleza da primeira parte da obra (o texto em linha, bem pequeno, iluminado por trás) que na verdade continha uma história terrível, dentre as tantas do genocídio de Ruanda. E depois o contraste na segunda sala. Aquela instalação tão potente!, como vi poucas na vida. Um milhão de slides sobre uma mesa de luz enorme. Lupas espalhadas em torno dela. E os olhos da menina repetidos um milhão de vezes.

TATIANA PONTES –  Sobre a pergunta de qual imagem me chacoalhou, penso na obra do Alfredo Jaar, “Os olhos de Gutete Emerita”. Para mim, ao impacto da imagem de 1 milhão de slides amontoados seguiu outro, o de encontrar na proximidade da observação com o conta fios, o olhar de dor e tristeza de Emerita. Me lembrei da frase de Roland Barthes “vejos os olhos que viram Napoleão”, pensando, vejo os olhos que viram a morte dos filhos.

Alfredo Jaar: The eyes of Gutete Emerita, 1996-2000.

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PEDRO DAVID – Tive um choque intenso, quando me deparei com uma simples e velha televisão – suporte que só agora começo a aceitar -, isolada no imenso corredor, quase vazio, que margeia todo o labirinto no pavilhão da Bienal. Refiro-me a uma das obras do português Carlos Bunga, “lamp”. Mãos em close sutilmente colocam em cena, num plano fechado, uma lâmpada apagada. As mesmas mãos jovens trazem vagarosamente um martelo, que segurado de lado, estraçalha num gole certeiro a lâmpada. O barulho cheio, do vácuo que se esvai, atinge meu corpo como uma explosão. As mão então passam a juntar os cacos da lâmpada e colar os pedaçøs maiores com fita adesiva transparente, os pedaços maiores parecem retornar à forma, mas como a maior parte dos cacos é minúscula, a forma não se reconstitui. mas as mãos conseguem juntar todos os cacos e envolvê-los na fita. Recebi esse vídeo como uma porrada. Um tapa. O barulho da lâmpada sendo quebrada me atinge como um soco no peito. Pensei na ditadura militar. Na tortura. E no qu sobra das pessoas que são, ate hoje, brutalmente estilhaçadas por mãos fortes, que batem, mas jamais terão a sensibilidade e inteligência de um artista como Carlos Bunga.

Carlos Bunga: Lamp (fotograma), 2002.

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LUA CRUZ – O que me chacoalhou nessa 29a Bienal de São Paulo, sob o tema Há sempre um copo de mar para um homem navegar, foi a imagem da artista brasileira Lygia Pape (1927-2004). A fotografia de 1968, intitulada “Língua Apunhalada”,  tem língua e sangue que revelam o que acontecia naquele triste ano, de repressão e ditadura militar. Nesse mesmo ano o AI-5 – decreto emitido pelo regime – se sobrepôs a Constituição de 1967, concedendo a todos garantias, em alguns casos inclusive, da liberdade vigiada. Logo na entrada do pavilhão, essa imagem intrigante, nos dá o tom e o peso de um sentimento de impotência, dor, desconcerto, apunhalamento, sofridos naquela época. A literalidade da imagem reforça a necessidade da liberdade de expressão. Nesse poema visual, a autora explicita, duplamente, o sentido de suprimir a palavra. Essa dura palavra-imagem sobre a censura e o regime militar, marcam, sem dúvida, quem passa pela Bienal, sobretudo em um ano de eleições, no qual a política está na boca do povo, mas nem tanto.

Lygia Pape: Poemas Visuais: Língua Apunhalada, 1968.

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ANA DALLOZ – Transitar em um espaço expositivo onde a maioria das obras e a própria arquitetura, inclusive, possuía grandes dimensões e no meio disso tudo encontrar pequenos corpinhos desnudos esculpidos em madeira, esperando para serem vistos com calma, delicadeza e empatia, para mim foi o que mais me chacoalhou na 29a Bienal. Essas pequenas esculturas ficavam em cima de pedestais e mostravam sua fragilidade e desamparo tanto pelas suas dimensões quanto pelas posturas corporais. A obra a qual me refiro é do artista Efrain Almeida (a quem sou muito fã), intitulada Efrain Almeida por Efrain Almeida.

Efrain Almeida: Efrain Almeida, 2010. (crédito: AP/Andre Penner)

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LEO CAOBELLI – Foi minha segunda visita a Bienal de SP e a imagem que guardei, além da mental, foram as fichas técnicas fotografadas no celular pra pesquisar mais sobre os artistas… eram quase como notas em um caderno, mas de um preguiçoso! Anexo aqui a ficha tremida do Douglas Gordon. Muitas coisas me chacoalharam na obra dele, desde o título “simplório”: Pretty much every film and video work from 1992 until now – até as conexões que o olho fica encontrando frente a tanto estímulo visual: serpentes em diferentes telas, cavalos, os mesmos prédios em momentos distintos… uma obra partilhada com o espectador. Além disso, a relação do Douglas Gordon, da pintura ao vídeo, é um belo tratado sobre tempo e fluidez… essas decorrências de quanto dura um instante e como ele se reproduz incessantemente, alguns com som, outros sem, como ele mesmo quer em sua obra. obs: a participação incessante dos seguranças dizendo “não toca nisso”, “mantenha a direita”, “não pode” é o grande tiro no pé da bienal. Que artista coloca a obra dentro de uma gaveta se ela não pode ser aberta?

Douglas Gordon: Pretty Much Every Film and Video Work From About 1992 Until Now, 1992.

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 ADALGISA CAMPOSManon de BoerDissonant. Uma pessoa ouve música e então dança. A dança nasce do som e de sua duração, do funcionamento do corpo, do espaço da sala, dos limites de ambos, da presença de quem filma, da potencial presença de quem assiste. A imagem dura o quanto permite a materialidade do procedimento de registro. Clareza de procedimentos.

Manon de Boer: Dissonant (fotograma), 2010.

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GEORGIA QUINTAS E ALEXANDRE BELÉM – Bom, difícil escolher e ao mesmo tempo fácil. Até porque, ao sair da Bienal, muita coisa já se evaporou da memória. Escolhemos a obra de Jonathas de Andrade. Gostamos e admiramos o trabalho desse jovem rapaz. A chacoalhada fica por conta de “Educação para Adultos”, que pode ser conferida um pouquinho no site do artista.

Jonathas de Andrade: Educação para Adultos, 2010.

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GUILHERME MARANHÃO – Acho que foi o trabalho do Matheus Rocha Pitta. Acho que a simplicidade daquele trabalho me moveu. É um trabalho lindo, gostoso de olhar, de vasculhar.

Matheus Rocha Pitta: Provisional Heritage, 2010.

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CASSIANA HAROUTIOUNIAN – Labirinto: Ao chegar na Bienal pensei em passar quase que com os olhos fechados por todas as obras ao meu redor. A ideia era seguir direto ao terceiro andar e desvendar os outros dois pisos depois. Mas no caminho em busca da escada que me levaria ao topo do prédio me deparei com “Longe Daqui, aqui mesmo” de Marilá Derdot e Fábio Morais. Foi uma surpresa agradável quando percebi todas aquelas portas e palavras me levando a caminhos e novas descobertas, mas o climax foi quando li o nome da poetisa brasileira Ana Cristina Cesar em uma delas. O abrir e fechar de portas é um vai e vem constante. Remete a entradas e saídas: a despedidas. É sempre um fim e um começo infinito. Segundo Gaston Bachelard, no livro “A poética do espaço”, a casa é corpo e é alma, corpo pela sua estrutura e alma por abrigar tantos e tantos devaneios. Por abrigar a vida, por fazer sentir e perceber. Naquele instante, por alguns minutos, escolhi aquela estrutura como minha casa e a enchi com minhas palavras silenciosas e minhas imagens imaginadas. E passar por aquela porta específica era como me imaginar entrando no universo particular de Ana Cristina Cesar. Universo que tanto adoro, talvez por ela tratar de cada momento com urgência, como se este fosse lhe escapar. Ao tentar trazer tudo para o imediato, deixa o presente com uma carga conflitante e repete de sentidos e sensações desafinadas. Assim como a fotografia é para mim. Sem tantas regras e estereótipos, mas sim, como um diário, onde preciso respirar imediatamente e conseguir um pouco de fôlego para continuar os dias. Seja apertando o botão, imaginando ou sentindo uma imagem alheia, da qual me aproprio até sentir que minha respiração está voltando ao normal.

Marilá Derdot e Fábio Morais: Longe daqui, aqui mesmo, 2010.

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PAULO FEHLAUER – Entre as notas que fiz no meu caderno, algumas já eram esperadas. Tentei imaginar, perplexo, os urubus voando na obra do Nuno Ramos, segurei o queixo em frente aos desenhos do Gil Vicente etc. Mas a Bienal é um espaço para descobertas, e tive algumas boas, apesar de ter ficado um pouco decepcionado no geral. Um trabalho que me chamou a atenção foi História do Futuro, do brasileiro Milton Machado. Só fui perceber que aquele cubo gigantesco e ameaçador (batizado apropriadamente de Módulo de Destruição), feito de grades de ferro, suspenso sobre a cabeça dos visitantes, era parte do seu trabalho quando entrei no espaço dedicado aos desenhos e às outras peças do imenso quebra-cabeças que o artista criou para compor o seu sistema de mundos imaginários, numa viagem conceitual que remete a Borges e Calvino. Todos os desenhos são milimetricamente traçados em linhas finíssimas e retíssimas, como se a utopia pudesse realmente nascer do traço exato do arquiteto. Ficção matemática, mas não científica. É isso. É uma das obras, um dos efeitos.

Paulo Fehlauer: Bienaleskine, 2010.

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CECÍLIA LASZKIEWICZ – Na realidade, a 29ª Bienal de São Paulo não me “chacoalhou”. Resolví então selecionar as obras que mais chamaram minha atenção pela estética encontrada e pelo resultado coerente com sua proposta. 1- Metade da fala no chão, piano surdo, de Tatiana Blass. Uma obra que remete ao tempo, a paralização, silêncio, endurecimento e memória. 2- Da série Campos de Cor, de Amélia Toledo, 1969/2010. Instalação que também trabalha com o tempo e espaço. Pedaços de tecidos pendurados, criando sensações variadas através das cores, da experimentação dos materiais. Remete a lembranças e percursos vividos. 3- 350 points towards infinity, de Tatiana Trouvé é composto de centenas de pêndulos metálicos pendurados no teto. Vão em diferentes ângulos, congelando tempo e espaço, criando uma sensação estranha de magia e sonhos,  memória e espaços. 4- Video: O que rola VCV, 2001 da série Guerra é Guerra, de Ronald Duarte. O trabalho de intervenção na cidade causa desconforto quando, de um carro pipa, um líquido vermelho é jorrado pelas ruas. Remete a sangue e por instantes, não se compreende se ele está lavando ou sujando. É bastante impactante.

Tatiana Blas: Metade da fala no chão – Piano Surdo, 2010.

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IATÃ CANNABRAVA – Sobre este mesmo mundo de Cinthia Marcelle. Me trouxe de volta um certo terror de infancia algo que denuncia o autoritarismo precoce das escolas. Gosto como a Cinthia mimetiza as coisas um nas outras de forma obvia e limpa. Lousa e Giz por exemplo!

Cinthia Marcelle: Sobre este mesmo mundo, 2009.

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RAFAEL PIERONI – Bom, dois trabalhos, em especial, me chamaram a atenção na Bienal. Um deles é do dinamarquês Palle Nielsen que propôs uma reflexão lúdica sobre o espaço do museu (em Estocolmo) em 1968, colocando crianças com ferramentas para a reconstrução do local. É claro que, e infelizmente, essa obra estava exposta em forma documental. Imagens, slides, áudio e estudos do projeto da época. Mas a questão da reflexão lúdica, da brincadeira e da espontaneidade como item motor da invenção de um espaço de fazer e apreciar arte me encantou.  segunda é de Karina Skvirsky Aguilera, trabalho em que ela mistura a memória afetiva e pessoal com a memória social. Ela é filha de mãe afro-equatoriana e pai ucraniano. Nasceu nos Estados Unidos, onde vive e trabalha. No trabalho apresentado na Bienal, My Pictures from Ecuador, ela transita na forma de um álbum de família por estas questões.

Palle Nielsen: Modellen, 1968.

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JÉSSICA MANGABA – Tornado – Francis Alÿs, foi a experiência mais intensa, assistir, sentir e tentar absorver tudo o que foi sendo construído em mim durante e depois que vi. ir de encontro ao caos. potência e sutileza. (ah. tanta coisa. dificil organizar o pensamento pra falar disso!) e My Pictures from Equador, de Karina Skvirsky Aguilera o pensamento deste trabalho caminha na mesma calçada das coisas que tenho pensado. ainda mais depois que vi que o trabalho faz parte de uma série intitulada Memorias Sobre el Desarrollo, que era justamente o título que estava pensando para um desdobramento da minha pesquisa. (Obs: para ver uma parte do filme, clique aqui).

Francis Alÿs:Tornado (fotograma), 2000-2010.

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PATRICIA GOUVÊA – Foi aquele trabalho do Francis Alÿs, o vídeo sobre os tornados de 55 minutos (Tornado) que estava no 3 andar lá atrás no MAC e o David Claerbout no primeiro andar, aquela imagem da Algeria toda manipulada e criada em laboratório (The Algier’s Sections of a Happy Moment, 2008, 37’12”). Esta obra (David)subverte a noção do tempo cronológico, me fez entrar na espessura da deriva. não olhei o relógio, não queria sair dali. quando um trabalho provoca isso em mim eu me perco, e isso é muito bom. esta obra é inteligente, é sensorial, é bela. a tecnologia não é o protagonista, apesar de ser o grande alicerce da obra. o protagonista é o tempo em seus múltiplos lençois e olhares. e ainda tem algo: os pássaros. sou apaixonada por eles. ta legal?

David Claerbout: The Algiers’ Sections of a Happy Moment (fotogramas), 2008.

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CIA DE FOTO – A imagem que mais nos chacoalhou na Bienal, veio do vídeo de Francis Alÿs. Aquilo pegou de jeito, e não é para menos pois o cara, de fato, entrou no olho do furacão! Mas é difícil falar desse evento por um trabalho só. Talvez o grande chacoalho tenha vindo da imagem da própria Bienal. Começando pelo tempo que dedicamos a ela, pois ainda no primeiro semestre, começaram uns eventos organizados pelo Capacete, lá no teatro Arena, no centro da cidade. Ficava todo mundo sentado, colados um no outro, escutando artistas, escutando os curadores. Teve um dia com Anri Sala, por exemplo, que de tão especial, permaneceu presente em todas as outras palestras e seminários que frequentamos no decorrer do ano. Depois que a Bienal abriu, um outro tempo se apresentou. É que tinha muito filme, muita obra de ampla duração, o que nos permitiu dispensar horas no espaço expositvo. Um trabalho exposto e que tem muito a ver com a nossa pesquisa na Cia, é o de David Claerbout, um filme que estava exposto logo na entrada, o The Algiers’ Sections of a happy Moment. Alí, infinitas cameras arrudiavam um instante de uma cena onde uma gaivota se alimentava na mão de um cara. E no filme dava para ver aquele exato instante durar por todos os lados. Aqui um link de um DVD que temos dele com trabalhos mais antigos, vale a pena o download! Uma forma de exercitar o que aprendemos nesse ano, incluindo a Bienal, e a própria resposta ao teu blog, talvez seja mostrando um ensaio recente. Por isso fica aqui um vídeo, parte da obra “Piratas”, exposta no Itaú Cultural e realizada em parceria com Marcelo Pedroso, Galeria Experiência, Guab e João Castilho. Que 2011 chacoalhe a gente, assim como foi em 2010!


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GALERIA EXPERIÊNCIA – Este multimídia surgiu durante a ação/performance “Pirataria”, ocorrida no Itaú Cultural em outubro, parte da exposição “Histórias de Mapas, Piratas e Tesouros”. Éramos Galeria Experiência, Cia de Foto, João Castilho, Guab e Marcelo Pedroso. Uma vontade que permeava a nossa ação lá era pensar sobre o ato de fotografar nos dias de hoje. A 29ª Bienal de São Paulo estava em cartaz e decidimos fazer algo a respeito, tentar dialogar de alguma forma. Lembramos que podia-se fotografar lá dentro e que muita gente levava suas câmeras. Pensamos que seria muito interessante ver quais eram essas fotografias que os visitantes da exposição estavam tirando. Fomos, então, até o parque do Ibirapuera procurar pessoas na saída da Bienal e perguntamos se podíamos descarregar no nosso laptop as fotos que eles tinham em seus cartões de memória. Praticamente todos aceitaram em doar suas imagens, conseguimos mais de mil em pouco tempo e voltamos para o Itaú. Olhando o conteúdo do que tínhamos conseguido, vimos um ponto comum entre todos é que tinham feito fotos posadas em frente às obras. Esse acabou sendo o critério de seleção das fotos que entraram neste multimídia.