DOBRAS VISUAIS

A aventura de um fotógrafo | Italo Calvino

Gerhard Richter: Atlas Sheet 604, S. with Moritz, 1995.

O que é fotografia? 

“Com a chegada da primavera, os habitantes das cidades, às centenas de milhares, saem aos domingos levando o estojo a tiracolo. E se fotografam. Voltam satisfeitos como caçadores com o embornal repleto, passam os dias esperando com doce ansiedade para ver as fotos reveladas (…), e somente quando põem os olhos nas fotos parecem tomar posse tangível do dia passado.”

“Um dos primeiros instintos dos pais, depois de pôr um filho no mundo, é o de fotografá-lo; e dada a rapidez do crescimento torna-se necessário fotografá-lo com frequência, pois nada é mais transitório e irrecordável do que uma criança de seis meses, rapidamente apagada e substituída pela de oito meses e, depois, pela de um ano; e toda a perfeição que aos olhos dos pais um filho de três anos pode ter atingido não é suficiente para impedir que suceda a ela, destruindo-a, a nova perfeição doa quatro, só restando o álbum fotográfico como lugar onde todas essas perfeições fugazes se salvam e se justapõem, cada uma aspirando a um absoluto próprio incomparável.”

“O passo entre a realidade que é fotografada na medida em que nos parece bonita e a realidade que nos parece bonita na medida em que foi fotografada é curtíssimo.”

“É só você começar a dizer a respeito de alguma coisa: ‘Ah, que bonito, tinha era que tirar uma foto!’, e já está no terreno de quem pensa que tudo o que o que não é fotografado é perdido, que é como se não tivesse existido, e que então para viver de verdade é preciso fotografar o mais que se possa, e para fotografar o mais que se possa é preciso: ou viver de um modo o mais fotografável possível, ou então considerar fotografáveis todos os momentos da própria vida. O primeiro caminho leva à estupidez, o segundo à loucura.”

“A realidade fotografada assume logo um caráter saudoso, de alegria sumida na asa do tempo, um caráter comemorativo, mesmo se é uma foto de anteontem. E a vida que você vive para fotografar já é desde o princípio comemoração de si mesma. Achar que o instantâneo é mais verdadeiro que o retrato posado é um preconceito…”

“Mas ainda não se sentia em terreno seguro: será que não estava procurando fotografar lembranças ou, até, vagos ecos de lembrança que afloravam da memória? Sua recusa em viver o presente como lembrança futura, à maneira dos fotógrafos de domingo, não o estava levando a tentar uma operação igualmente irreal, ou seja, a dar um corpo à lembrança para que esta substituísse o presente diante de seus olhos?”

“Aquele era o retrato fora do tempo e do espaço que ele agora estava querendo: não sabia muito bem como fazer, mas estava decidido a consegui-lo. Colocou o refletor por cima de Bice, aproximou a máquina, manobrou por baixo do pano para regular a objetiva. Olhou. Bice estava nua. (…) Antonino descobriu no mesmo dia que estava apaixonado por ela. Começaram a viver juntos, e ele comprou aparelhos dos mais modernos, teleobjetivas, acessórios aperfeiçoados, instalou um laboratório. Tinha até dispositivos para poder fotografá-la à noite enquanto dormia. Bice despertava debaixo do flash, contrariada; Antonino continuava a tirar instantâneos dela que se desenredava do sono, dela que se irritava com ele, dela que tentava inutilmente voltara dormir afundando o rosto no travesseiro, dela que reconciliava, dela que reconhecia como atos de amor essas violências fotográficas.”

Gerhard Richter: Atlas Sheet 581, Sabine, 1993.

“Começou a fazer um diário: fotográfico, é claro. Com a máquina pendurada no pescoço, afundado numa poltrona, disparava compulsivamente com o olhar no vazio. Fotografava a ausência de Bice. (…) Veio-lhe a idéia de compor um catálogo de tudo o que existe de refratário à fotografia, de deixado sistematicamente fora do campo visual não só das máquinas mas dos homens. (…) Um dia se fixou num canto do quarto totalmente vazio, com um tubo de calefação e mais nada: teve a tentação de continuar a fotografar aquele ponto e só aquele até o fim dos seus dias.”

“Dobrou as pontas dos jornais num enorme embrulho para jogá-lo no lixo, mas primeiro quis fotografá-lo. (…) Acendeu um refletor; queria que em sua foto se pudessem reconhecer as imagens meio emboladas e despedaçadas e ao mesmo tempo se sentisse sua irrealidade de sombras casuais de tinta, e ao mesmo tempo ainda sua concretude de objetos carregados de significado, a força com que se agarravam à atenção que tentava expulsá-las. Para conseguir colocar tudo isso numa fotografia era preciso conquistar uma habilidade técnica extraordinária, mas só então Antonino poderia parar de fotografar. Esgotadas todas as possibilidades, no momento em que o círculo se fechava sobre si mesmo, Antonino entendeu que fotografar fotografias era o único caminho que lhe restava, aliás, o único caminho que ele havia procurado até então.”

Italo Calvino no conto A aventura de um fotógrafo (livro Os Amores Difíceis. São Paulo: Companhia das Letras, 1992).

Para conhecer mais: Gerhard Richter e as 783 pranchas do Atlas (1962-2006).

Gerhard Richter: Atlas Sheet 157, Baüme, 1970.

Gerhard Richter: Atlas Sheet 783, Sils Maria, 2006.