DOBRAS VISUAIS

Nós somos apenas interferidores

Assisti Câmara Viajante (Joe Pimentel, 2007) em Fortaleza durante o deVERcidade no início desse ano. O filme resgata o ofício do lambe-lambe e da fotopintura no interior do Nordeste.

Nas palavras dos fotógrafos podemos entender um pouco como a fotografia se instaura como tradição:

Júlio Santos:

“O retrato pintado é aquilo que você quer ser depois, não aquilo que você é.”

“Você não pode imaginar minha satisfação quando eu sei que consegui resgatar a história de uma pessoa que já não tinha mais história, que tinha fragmentos dela. Eu consegui fazer com que ele tivesse parte da vida dele resgatada. Porque a história nada mais é do que aquilo que ele pode ver transformado em visual, aquilo que ele já não tinha mais possibilidade de ver.”

“A demanda da fotografia de pessoas falecidas é muito grande, eu só não consigo entender porque. (..) A gente fica com a responsabilidade de ressucitar aquele ente querido da pessoa.”

“Nós somos apenas interferidores.”

Francisco Belo:

“Este monoclo é tradição aqui de Juazeiro. (…) Quer fazer uma foto do Padrinho Cícero com a mão na sua cabeça? (…) Quando o romeiro recebe a foto ele chora.”

“A fotografia é quase como uma cachaça, porque você toma uma e não dá vontade só de tomar uma, você continua a bater retrato, você tem vontade. (…) Eu não saio mais do retrato.”

Chico Alagoano:

“O fotógrafo para ser um fotógrafo artista, pra ser perfeito, é preciso inteligência, um pouco de consciência e também um golpe de vista. Tudo isso vai pra lista de quem é um veterano.”

“A fotografia quase não tem truque, é você focalizar. Se você tiver um golpe de vista positivo, positivo que eu digo é você  focalizar a pessoa, você ver os olhos da pessoa, não tem truque nenhum. O golpe de vista é você ter uma vista limpa, que você possa olhar e focalizar, você possa com a distância de 10 m, você veja as pestanas da pessoa dentro da objetiva. Você esta vendo as minhas pestanas dentro da sua máquina ai, assim batendo? Pois o golpe de vista é isso ai.”

“Antigamente se batia retrato de todo jeito, de todo modo. A pessoa batia retrato de romeiro, de defunto, de anjo, de procissão, de casa, de aniversário, de batizado, de primeira comunhão, a gente batia retrato de tudo isso.”

“Os romeiros que vinham por aqui, ninguém trazia máquina pra bater retrato, a gente é quem batia os retratos. Hoje em dia os romeiros quando vem pro Juazeiro já traz cada um a sua máquina, melhor do que a máquina que a gente tem. Tem romeiro que não traz nem máquina mais, já tá trazendo é filmadora pra filmar o Juazeiro.”

“Tem gente que pergunta pra mim se esta máquina que eu tenho ainda funciona. Funciona. E se não funcionar eu boto pra funcionar porque eu sei fazer a câmera, quanto mais consertar, só não sei fazer a lente, o resto eu faço tudo.”

Para conhecer mais:

Júlio Santos – Mestre da Fotopintura, publicado pela Editora Tempo e produzido por Rosely Nakagawa, Isabel Santana e Tiago Santana. Tiago também é co-diretor do filme com Joe Pimentel.

Do filme: Câmera Viajante, 2007.