DOBRAS VISUAIS

‘Xô Photoshop’, voltamos a Flusser

Paulo Rossi

O título deste post é uma grande chamada e apareceu na minha frente num momento das férias. Estive em João Pessoa para visitar o Paulo Rossi e, como bons turistas passamos um fim de tarde na beira do rio jogando conversa fora. Cenário perfeito e mais idealizado impossível: um lugar com toda a infra de lojinhas de artesanato, comes e bebes típicos e até música ambiente (de qualidade bem duvidosa) para ver o que se repete diariamente ali, um por do sol digno de grandes pinturas e cartões postais.

Numa destas lojas a cena não poderia ser mais ‘pitoresca’, inúmeras imagens do fenômeno em diferentes dias do ano. Não é de hoje que os fotógrafos registram a luz modificando-se com o passar das estações. A partir das décadas de 1960 e 70 quando a fotografia colorida popularizou-se, a espera do por do sol tornou-se um momento grandioso, com direito a muitas famílias enegrecidas naquele contraluz típico e claro, ao surgimento de manuais que ensinavam como resolver aquela situação tão importante usando apenas um flash. Todos nós conhecemos aquela imagem típica do sujeito iluminado com a luz branca de frente, um bela luz amarela ‘de cabelo’ e claro, nosso personagem principal brilhando ao fundo. O sol, este astro que carrega tantos significados na nossa cultura.

Até aqui nada de diferente nesta experiência banal. Mas os dizeres propagandísticos da loja de recuerdos eram bastante peculiares. ‘Xô Photoshop’ e ‘Fotografias mecânicas’ davam conta de avisar ao turista que aquele por do sol posto em imagem é mais real (leia-se fidedigno) do que aqueles manipulados por softwares, onde o amarelo ou o brilho na água podem ser ressaltados. Bem, sabemos que há uma grande ingenuidade na proposta do nosso colega, porque especialista que é em por do sol deve saber escolher bem entre o vermelho Kodak ou o verde Fuji, não é mesmo? E daí a idéia da pobre manipulação vai por água abaixo.

Não pude deixar de pensar naquilo que Flusser escreveu no livro O universo das imagens técnicas (1985):

“Aparentemente as máquinas copiadoras multiplicam ‘originais’, isto é, informações provindas de autores. Em grande parte é efetivamente o caso: os textos, as músicas, as fotografias e os vídeos multiplicadores foram, na maioria dos casos, produzidos por indivíduos que se consideram autores (…). Mas essa situação é provisória e está se modificando. Surgem com mais frequência ‘mensagens’ elaboradas por grupos com a ajuda de aparelhos para as quais o termo autor não se aplica, mensagens que começam a inundar a cena. Por estas e outras razões, o termo ‘original’ perde significado (como distinguir entre uma fotografia original e copiada?) e o termo ‘autor’ torna-se duvidoso. A médio prazo todo autor de todo tipo torna-se redundante. (…) No significado corriqueiro do termo, não pode mais haver ‘criatividade’. O homem individual será incapaz de criar informação nova. O tempo do indivíduo criador, do autor, do Grande Homem, o tempo da inspiração, da aura gloriosa, pertence ao passado. (…) Mas no significado novo de ‘criatividade’, no significado de produção dialógica de informação eternamente reproduzível (e eternamente memorável), o tempo da criatividade está apenas raiando. Estamos no limiar de aventuras e situações imprevistas. (…) O jogo futuro fará a concretização da abstração ‘eu’ sob a forma do ‘nós outros’. Bem: não creio que possa haver perspectiva mais entusiasmante do que esta.”

Lembrei-me desta passagem porque a ideia que se faz presente no caso do colega amante do por do sol é justamente aquela de autoria, como se usando uma câmera mecânica ele não carregasse toda uma tradição em torno da construção desse tipo de imagens. E ai fica pra nós a questão do ovo e da galinha: será que gostamos do por do sol porque a tradição pictórica e posteriormente a imagem técnica nos disse que ele é bonito ou por ser assim ‘naturalmente’ belo passamos a registrá-lo? Particularmente tendo a ficar com a primeira opção pois nada do que me é posto como natural podemos tomar como verdade. Criamos quase tudo, até mesmo a idéia do que contemplar. Mas fica o apelo do momento, aquele que nos diz que o digital é artificial. Assim, diariamente vemos este argumento crescer na boca de todos.

 

Paulo Rossi