DOBRAS VISUAIS

A fotografia é diabólica | Julio Cortázar

O que é fotografia? 

“Entre as muitas maneiras de se combater o nada, uma das melhores é tirar fotografias, atividade que deveria ser ensinada desde muito cedo às crianças, pois exige disciplina, educação estética, bom olho e dedos seguros. Não se trata de estar tocaiando a mentira como qualquer repórter, e agarrar a estúpida silhueta do personagem que sai do número 10 de Downing Street, mas seja como for quando se anda com a câmara tem-se o dever de estar atento, de não perder este brusco e delicioso rebote de um raio de sol numa velha pedra, ou a carreira, tranças ao vento, de uma menininha que volta com o pão ou uma garrafa de leite. Michel sabia que o fotógrafo age sempre como uma permutação de sua maneira pessoal de ver o mundo por outra qual a câmara lhe impõe, insidiosa (agora passa uma grande nuvem quase negra), mas não desconfiava, sabedor de que bastava sair sem a Cóntax para recuperar o tom distraído, a visão sem enquadramento, a luz sem diafragma nem 1/250. Agora mesmo (que palavra, agora, que mentira estúpida) podia ficar sentado no parapeito sobre o rio, olhando passar as barcaças vermelhas e negras sem que me ocorresse pensar fotograficamente as cenas, nada mais que deixando-me ir das coisas, correndo imóvel com o tempo.”

“Creio que sei olhar, se é que sei alguma coisa, e que todo mundo olha e goteja falsidade, porque é o que nos arremessa mais para fora de nós, sem a menor garantia, enquanto cheirar, ou (mas Michael se bifurca facilmente, não se deve deixá-lo declamar à vontade). De qualquer modo, quando de antemão se prevê a provável falsidade, olhar se torna possível; basta talvez escolher bem entre o olhar e o olhando, despir as coisas de tanta roupa alheia. E, claro, tudo isso é bem mais difícil.”

“Levantei a câmara, fingi estudar um enquadramento que não os incluía, e fiquei na espreita, certo de que enfim os apanharia no gesto revelador, a expressão que resume tudo, a vida que o movimento mede com um compasso mas que uma imagem rígida destrói ao seccionar o tempo, se não escolhemos a imperceptível fração essencial. Não precisei esperar muito.”

“Antes que fosse embora, e agora que encheria minha memória durante muitos dias, porque sou propenso à ruminação, decidi não perder mais nenhum instante. Pus tudo no visor (com a árvore, o parapeito, o sol das onze) e tirei a foto. Bem a tempo de compreender que os dois tinham percebido e que estavam me olhando, o garoto surpreendido e interrogante, mas ela irritada, decididamente hostis seu corpo e seu rosto que haviam sido roubados, ignominiosamente presos numa pequena imagem química.”

“De toda a série, a instantânea na ponta da ilha era a única que o interessava; pregou a ampliação numa parede do quarto, e no primeiro dia passou um bom tempo olhando e recordando, nessa operação comparativa e melancólica da recordação frente à realidade perdida; recordação petrificada, como toda fotografia, onde não faltava nada, nem mesmo e principalmente o nada, verdadeiro fixador da cena.”

Julio Cortázar no conto As babas do diabo, de 1959 (livro: As Armas Secretas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1994).

Para conhecer mais: O filme Blow-up – Depois daquele beijo, de Michelangelo Antonioni (1966), teve o roteiro construido a partir do conto de Cortázar. Conta o envolvimento de um fotógrafo de moda com uma cena de crime. Ao ampliar uma fotografia tomada no parque Thomas descobre um cadáver encoberto nos arbustos e a partir daí fica obsecado em desvendar o mistério. Antonioni trabalhou com todos os estereótipos deste nosso personagem/meio, o fotógrafo como um caçador, a fotografia como índice de algo, o ambiente glamoroso da moda e o jogo implícito na construção de imagens. A resposta no título deste post é referência ao lugar que a fotografia ocupa no conto de Cortázar e no filme de Antonioni.