DOBRAS VISUAIS

Landscapes without memory, livro de Joan Fontcuberta

Orogenesis: Temple, 2003.

Existe uma natureza precedente a toda e qualquer interpretação cultural? Esta é uma das questões que o historiador Simon Schama se propõe a refletir em seu livro Paisagem e Memória. A água, as árvores e as rochas são três elementos presentes em diferentes paisagens que carregam mitos de épocas e regiões distintas, e que permanecem vivos na cultura ocidental. Com esta abordagem, Schama nos ajuda a enxergar a memória que as paisagens abrigam, em diversos contextos.

“E, se a visão que uma criança tem da natureza já pode comportar lembranças, mitos e significados complexos, muito mais elaborada é a moldura através da qual nossos olhos adultos contemplam a paisagem. Pois, conquanto estejamos habituados a situar a natureza e a percepção humana em dois campos distintos, na verdade elas são inseparáveis. Antes de poder ser um repouso para os sentidos, a paisagem é obra da mente. Compõe-se tanto de camadas de lembranças quanto de estratos de rochas.” A cultura estabelece valores. Se os jardins europeus remetem a um ideal de natureza, a busca por espaços intocados e a demarcação de parques também é fruto desta mesma semente.

Orogenesis: Cézanne, 2003.

Outro livro me fez pensar um pouco neste assunto. Em Landscapes without memory o artista espanhol Joan Fontcuberta trabalha com a idéia de uma paisagem criada, das montanhas sem eco como argumentou na ocasião do workshop no Itaú Cultural durante a exposição A invenção de um mundo no ano passado.

As imagens deste post foram construídas por Fontcuberta durante um programa de residência artística no Banff Centre fot the Arts no Canadá, localizado nas montanhas rochosas. Segundo o artista, a grandiosidade daquela natureza levava a um estado mental semelhante aquele descrito por Thoreau em A vida nos Bosques. Mas algo nesta experiência soava paradoxal, uma natureza tão perfeita parecia artificial para alguém com uma referência de vida tão urbana, ecoava como os clichês das ilustrações de calendários ou de folhetos turísticos.

Trabalhando com um software de simulação de realidades, o artista se viu diante de questionamentos sobre o estatuto de uma fotografia indicial à medida que as imagens criadas pelo programa poderiam superar as da câmera. Tal software foi construído para interpretar mapas – códigos – e criar uma paisagem daquela topografia. Mas quanto mais se buscava chegar em uma imagem perfeita, mais próximo do kitsch elas pareciam. Assim, novamente se via diante de uma contradição pois a natureza exuberante daquele lugar era confrontada por outra construída virtualmente.

Orogeneses é o nome desta série de imagens e também é o estudo dos fenômenos que modelaram as formações rochosas no planeta. Assim surge a trampa de Fontcuberta. Ao invés de usar mapas para construir suas paisagens, usa a própria imagem da paisagem para criar outra e burla o programa para buscar as mutações imprevistas. Parte da pintura de Cézanne, ou da fotografia dos primeiros exploradores como Watkins, ou mesmo da topografia do corpo para mostrar que mais uma vez estamos dentro da ficção.

Estas paisagens não têm memória, não têm passado, não foram testemunho de nada. Mas contemplá-las nos coloca em contato com todo o referencial cultural que carregamos, por isso é possível reconhecê-las e colocar-se em dúvida diante do estranhamento que causam. Esta paisagem é possível? Em que lugar da minha mente resgato sua história?

Orogenesis: Ear, 2003.

Orogenesis: Rothko, 2004.

Orogenesis: Watkins, 2004.

Abaixo as imagens usadas por Fontcuberta para criar as paisagens acima.

Na sequência: Cézanne (1900), Rothko (1950) e Watkins (1865).

Fontcuberta: Ear e Temple, 2003.