DOBRAS VISUAIS

Carta a Saramago

Poeira da terra e do tempo daquele lugar, 2007.

Caro Sr. Saramago

Escrevo-lhe para contar sobre uma experiência vivida a partir da leitura de uma crônica sua, Terra de Siena Molhada. Isso foi em 2000, neste mesmo período do ano, oito anos atrás.

Estava de partida para uma ilha aqui no Brasil, na Bahia. Levava comigo seu livro A bagagem do viajante e como sou fotógrafa, minha câmera também. Bem, dois fatos muito importantes aconteceram lá. Primeiro, a leitura da crônica que mobilizou minha percepção e muitos sentimentos, como se suas palavras resgatassem minhas próprias “antigas terras da memória”. Passei a enxergar tudo naquele tom, ocre, “como se fosse poeira do sol”. O segundo fato é que roubaram meu equipamento no caminho e me vi diante de tantas imagens que não pude naquele momento materializar. Isso foi um grande exercício para mim, um desafio porque imaginei muitas fotografias. E guardei-as comigo.

Nestes últimos anos, pude voltar algumas vezes, agora sim podendo materializar as imagens imaginadas naquele momento. E é isso que gostaria de lhe mostrar neste pequeno trabalho. Poeira da terra e do tempo daquele lugar é para mim um pouco da sensação descrita pelo senhor naquela crônica. “Magníficas palavras da infância, que precisam esperar longos anos até deixarem de ser um cego cantar de sons e encontrarem a imagem real que lhe corresponde.”

Já li muitos dos seus escritos e me toca muito pensar na relação do oleiro com seu genro, no que significa para nós o cachorro que lambe a mulher do médico, no encontro da mulher da limpeza com o homem que desejava um barco, na busca do homem da conservatória. Mas posso lhe dizer que em A bagagem do Viajante vejo um pouco de tudo que já li. Tenho-o sempre comigo, releio-o freqüentemente.

Obrigada por escrever, obrigada por dividir seus pensamentos. Admiro-o profundamente.

São Paulo, 10/12/2008.

Saramago (16/11/1922 – 18/06/2010)