DOBRAS VISUAIS

O outro pé da sereia | Mia Couto

Jessica Mangaba

O que é fotografia? 

“A fotografia estendida na mão de Dona Constança era um modo de deitar leveza no momento.

– Veja, é a última foto da sua Tia.

Luzmina posava, magra, os olhos acrescidos no rosto escaveirado. Mwadia revirou a foto para olhar a data. Era recente e tinha sido enviada da capital.

– Ela, aí, já estava muito doente.

A mãe não disse mais, apenas soergueu o queixo a apontar o corredor, Mwadia sabia do seu dever. Pegou na imagem e conduziu-a à chamada “parede dos ausentes”. No corredor exibiam-se as fotos dos familiares defuntos. No chão, um balde recolhia as lágrimas dos falecidos.

No alto da parede dos ausentes figurava a velha agogodela, uma espingarda de carregar pela boca que tinha sido propriedade do bisavô Rodrigues. Por baixo da arma, a moldura já estava preparada. Faltava só ajustar a fotografia e Mwadia, quando completou a tarefa, espreitou o seu próprio reflexo no vidro.

(…)

– Essa é a última foto de sua Tia…

Mão na mão, as duas mulheres percorreram as linhas do rosto da falecida Luzmina, como se lhe corrigissem o destino. Alinhavam a moldura na parede como quem ajeita flores sobre uma campa.

– Que idade ela tinha nesta foto?

– Tinha, não. Tem.

– Não entendo.

– Esta foto ela tirou-a com trinta e cinco anos. Mas a sua Tia continua a envelhecer na imagem.

– Ora, mãe…

– A última vez que peguei nessa foto ela nem tinha estes cabelos brancos…

(…)

E estivesse ou não estivesse chovendo, todos os domingos Constança retirava as molduras da parede e conduzia as imagens dos falecidos a passear pela vila. Se alguém a questionasse sobre a inusitada procissão, ela repositava:

– Não é de flores que os mortos necessitam. Carecem é de companhia.

(…)

– Desculpe, Dona Constança, perguntou Benjamin, mas esses, os das fotografias, não estão mortos?

– A gente nunca sabe quando está morta, retorquiu a matriarca.

(…)

À noite, Mwadia sentou-se na varanda. Olhou o horizonte como um fundo esboroado, uma espécie de parede escura, ponteada de rostos. Ergueu-se como que para ganhar precisão e foi caminhando até distinguir as fotografias, uma por uma, expostas nesse paredão de ardósia. (…) No centro, se impunha a redonda figura de Dona Constança, sua velha mãe. Desta vez, conforme o vaticínio, os olhos dela a fixavam, sem culpa, sem vergonha. Com gesto largo, Mwadia como que afastou a visão. Em vão. No momento, ela entendeu: aquela era a parede dos ausentes. E não estava no horizonte. Erguia-se no interior de sua própria alma.

Como se caminhasse dentro de si mesma, foi passando a revista aos retratos e reparou que, no fundo, havia um espaço branco, uma moldura ainda sem imagem. Naquele momento, sentiu que trazia algo em suas mãos. Era uma fotografia. Com passo vagaroso, se encaminhou para o fim do paredão para colocar na moldura a imagem. A foto do último ausente.”

Mia Couto em O outro pé da sereia (São Paulo: Companhia das Letras, 2006).

Para conhecer mais: Jessica Mangaba.