DOBRAS VISUAIS

Meu filho desmontou minha câmera

Abelardo Morell, 1997.

Pedro é curioso com objetos que ‘fazem coisas’: telefone, controle remoto, agenda eletrônica, computador, microondas, ipod, furadeira e claro, a máquina fotográfica. No fim de semana passado desmontou minha primeira câmera digital, uma compacta de 2 mp.

Tudo o que já foi desmontado gera questões sobre o funcionamento, o circuito eletrônico, a bateria e as peças em geral. Com a câmera não foi diferente e teve um toque muito especial de ligação entre as nossas experiências de vida porque daqueles elementos eu poderia lhe falar com mais propriedade. Criei uma espécie de fantasia a medida que ele ia desparafusando, como se decifrássemos juntos aquele objeto. Quando chegamos no diafragma e no pequeno sensor protegido por uma caixa preta expliquei-lhe a formação da imagem, como em algum momento já havia feito com as câmeras analógicas. Sua pergunta foi direta: ‘como aquele pedaço tão pequeno podia ler as cores do mundo inteiro?’

Foi inevitável pensar em Flusser a medida da explicação que servia para ele e também para mim. Eu não poderia dar qualquer resposta, primeiro porque não se faz isso com a curiosidade de uma criança, segundo, porque eu sabia que aquilo tinha relação com o seu imaginário sobre o que é a mãe que fotografa. Ajudá-lo a decompor a câmera e por consequência o que é uma fotografia feita por este aparelho foi diferente das inúmeras vezes que tive de fazê-lo em sala de aula. O momento da descoberta da formação da imagem carrega um certa mágica, e neste caso, muitos afetos também.

Deixo aqui alguns termos que rondaram meus pensamentos com esta experiência. Eles fazem parte do Glossário para uma futura filosofia da fotografia presente no início do livro Filosofia da Caixa Preta do Flusser.

Aparelho: brinquedo que simula um tipo de pensamento.

Aparelho fotográfico: brinquedo que traduz pensamento conceitual em fotografias.

Brinquedo: objeto para jogar.

Código: sistema de signos ordenados por regras.

Conceito: elemento constitutivo de texto.

Conceituação: capacidade de compor e decifrar textos.

Fotografia: imagem tipo-folheto produzida e distribuída por aparelhos.

Fotógrafo: pessoa que procura inserir na imagem informações imprevistas pelo aparelho fotográfico.

Funcionário: pessoa que brinca com aparelho e age em função dele.

Idéia: elemento constitutivo da imagem.

Imagem: superfície significativa na qual as idéias se inter relacionam magicamente.

Imagem técnica: imagem produzida por aparelho.

Imaginação: capacidade de compor e decifrar imagens.

Informação: situação pouco provável.

Informar: produzir situações pouco-prováveis e imprimi-las em objetos.

Memória: celeiro de informações.

Objeto: algo contra o qual esbarramos.

Objeto cultural: objeto portador de informação impressa pelo homem.

Produção: atividade que transporta objeto da natureza para a cultura.

Programa: jogo de combinações com elementos claros e distintos.

Realidade: tudo contra o que esbarramos no caminho à morte, portanto, aquilo que nos interessa.

Scanning: movimento de varredura que decifra uma situação.

Significado: meta do signo.

Signo: fenômeno cuja meta é outro fenômeno.

Símbolo: signo convencionado consciente ou inconscientemente.

Situação: cena onde são significativas as relações-entre-as-coisas e não as coisas-mesmas.

Sociedade industrial: sociedade onde a maioria trabalha com máquinas.

Texto: signos da escrita em linhas.

Traduzir: mudar de um código para outro, portanto, saltar de um universo a outro.

Abelardo Morell, 1999.