DOBRAS VISUAIS

Ainda Rosângela Rennó

Rosângela Rennó: Carrazeda + Cariri, 2009.

Difícil escrever sobre Rosângela Rennó. Seu trabalho está cercado de conceitos e a crítica já abordou por diversos ângulos a produção desta artista. Ressignificação, apropriação de imagens, memória e esquecimento são idéias que orbitam em torno da sua obra. Para ler, compreender e refletir: Adriano Pedrosa, Ivo Mesquita, Lisette Lagnado, Moacir dos Anjos, Paulo Herkenhoff e Paulo Sergio Duarte.

Semana passada estive na Galeria Vermelho em um evento onde Rennó apresentou a exposição Forma, Conteúdo e Poesia, em cartaz até o dia 08 de maio. Passamos pelas quatro obras: Ring (2006-2009), Matéria de Poesia (2008-2009), 2005-5100117385-5 (2009) e Carrazeda + Cariri (2009). Falo um pouco sobre esta última.

Carrazeda + Cariri é composta por cinco conjuntos de retratos feitos com a técnica da fotopintura pelas mãos de Mestre Julio de Fortaleza e outros quatro pintores da região do Cariri no Ceará. No resgate de mais uma técnica e uso da fotografia, Rennó solicita aos cinco artistas populares que pintem os mesmos retratados, formando galerias onde ficam evidentes as diferenças entre eles.

Um dos usos mais comuns da fotopintura é a união, numa mesma imagem, de pessoas que nunca se encontraram por deslocamentos espaciais ou temporais. Rennó escolheu para esta série homens de Carrazeda, um vilarejo em Portugal onde não há mulheres suficientes para eles se casarem. A partir de sites e blogs estas pessoas divulgam a situação do local para atrair futuras esposas.

Atualmente, muitos artistas populares já utilizam softwares de manipulação de imagens na realização dos retratos pois os processos de laboratório tornaram-se difíceis com a falta de filmes, papéis e químicos para processamento. A estética vinda desta nova tecnologia é a mesma da pintura a mão já que dominaram o aparato. Mas Rennó foi na contramão, a partir das imagens digitais da internet, gerou uma matriz em negativo, ampliou as fotografias em papel fibra e entregou aos pintores como se fazia a alguns anos. E assim nos disse mais uma vez que uma das principais questões do seu trabalho é agregar significados às imagens para gerar reflexão.

Ao juntar os homens de Carrazeda e a fotopintura Rennó nos mostra a iminência do desaparecimento social, de um grupo e de uma técnica. É disso também que se trata sua obra, todos sabem. Mas o que fica para mim além de perceber o conceito articulado da artista, talvez seja a fantasia de uma resposta a estes retratos. Roteiro de cinema: mulheres se sensibilizam com a história e mandam suas fotografias para que Rennó desenhe o caminho de volta e faça pensar que talvez nada disso precise de fato desaparecer. Para brincar com esta imagem pego carona nos versos de Manoel de Barros, presente na exposição na série Matéria de Poesia: “As coisas que não existem são mais bonitas”.

Rosângela Rennó: Carrazeda + Cariri, 2009 (Detalhe de dois conjuntos).