DOBRAS VISUAIS

O fetiche, a Lei do Photoshop e um pouco de Flusser

O que seria de nós sem as contradições da vida? O deputado Wladimir Costa (PMDB-PA) descobriu recentemente que a publicidade é enganosa. Seu Projeto de Lei 6853/10, em análise na Câmara dos Deputados, propõe que toda campanha publicitária que fizer uso de softwares de manipulação de imagem traga o seguinte aviso de advertência:

Atenção: imagem retocada para alterar a aparência física da pessoa retratada.

O argumento do deputado é ilário. Em entrevista ontem para o jornal Folha de S.Paulo, ao ser questionado se sente-se enganado com as fotografias de mulheres nuas em revistas masculinas respondeu: “Usam modelos cheias de estrias, de celulite, sem cintura, toda disforme, e colocam no Photoshop mulheres lindíssimas. Os homens brasileiros vão comprar cheios de fetiche achando que aquilo ali é real e não é. É propaganda enganosa.” Termina a pequena defesa dizendo que nas suas campanhas políticas não aceita o uso do software nas fotografias, “quero foto real para que as pessoas não sintam o impacto.” Faltou ao jornalista perguntar qual seria o choque, mas isso fica por conta da nossa imaginação. A Lei estende-se para todos os meios de comunicação, onde ouver manipulação o aviso terá de ser dado.

Talvez valesse a pena o deputado entender um pouco mais sobre isso.  Maria Rita Kehl em O fetichismo (1999) traça algumas considerações sobre esse conceito entre a Sociologia e a Psicanálise: “E o fetichismo, onde entra nessa história? Temos mais de duzentos anos de capitalismo, e se estivermos de acordo com Marx, o fetichismo da mercadoria, como modo de ocultamento das relações de dominação/exploração entre os homens sob a aparência das relações de troca entre as coisas, nasceu com ele, isto é: nasceu com a transformação dos produtos do trabalho humano em mercadorias. Temos cem anos de psicanálise também, e de acordo com Freud o fetichismo como modo de ocultamento da falta nasce com a recusa, por parte do sujeito moderno (que é o sujeito neurótico), em admitir a diferença sexual entre homens e mulheres. Aliás, fetichismo é um dos dois conceitos (o outro é o da alienação) comuns entre os dois grandes sistemas de pensamento modernos, o materialismo histórico e a psicanálise.” Tento aqui compreender a imagem no contexto da mercadoria.

Se localizarmos o foco da lei, ou seja, as fotografias manipuladas, podemos dizer que no meio em que são utilizadas funcionam como objeto de manutenção do modo de produção na sociedade moderna, a ilusão causada não se refere somente à utilidade deste produto, mas também à fantasia presente no próprio objeto. A fotografia é uma grande armadilha e, nesse caso, é usada sem nenhuma ingenuidade. Sendo assim, o argumento de que os homens querem comprar a realidade não se sustenta nem no botequim da esquina e a publicidade quer mesmo é idealizar cada vez mais o corpo, a vida, as atitudes, mesmo anunciando que aquelas cenas são reais, como esteve em voga ultimamente em anúncios da indústria de cosméticos.

O objetivo de “acabar com a idealização do corpo humano pela publicidade” como argumentou o deputado é sem sentido porque é justamente nisso que a publicidade se sustenta, na vida idealizada, mesmo que enviesada.

Os vídeos deste post fazem parte dos inúmeros tutoriais que estão disponíveis na rede para que possamos aprender a ‘manipular’ fotografias. Essa é uma das estéticas atuais, assim como nos anos 1960/70 foram os manuais da Kodak dizendo para os nossos pais como deveriam enquadrar a família e usar o flash no contraluz. Aquilo era uma forma de manipulação também. Lembrei-me de um pequeno texto de Vilém Flusser chamado Do Inobjeto (categoria dos objetos informacionais) e termino meu pequeno argumento com uma citação:

“Ajudará a compreendermos que viver entre os objetos e ater-se a eles não é a única maneira “razoável” de viver-se. O homem pré-industrial vivia entre seres animados: vacas, plantas, camponeses, artesãos, senhores. A Revolução Industrial substituiu tais seres por objetos: máquinas, produtos, massa operária, capital, mercado. De maneira que a nossa “objetividade” é coisa recente. (…) O novo homem, tal como está surgindo em nosso entorno e em nosso próprio íntimo, será ser sem mãos, ser de mãos atrofiadas. Não manipulará objetos. Não “trabalhará”, não terá “práxis”. O que restará das mãos serão as pontas dos dedos. Com elas o novo homem movimentará teclas. A fim de compor, decompor e recompor símbolos em sistemas informativos. O novo homem não será ator: não haverá mais nem ato, nem ação, nem atividade. Será jogador: haverá estratégia, projeto, programa. (…) Como o novo homem estará desinteressado dos objetos, não terá problemas. Em vez de pro-blemas, terá ele pro-gramas. Viverá, não para resolver problemas, mas para bolar programas. Visão fantástica essa, mas que já está se realizando.”