DOBRAS VISUAIS

Andy Warhol e a fotografia

Andy Warhol

A exposição Andy Warhol – Mr. America em cartaz na Estação Pinacoteca é uma grande oportunidade para refletirmos sobre a fotografia por meio do suporte e por sua natureza. Claro que as relações com a Arte Pop são mais amplas e se desdobram a outros artistas, mas o conjunto exposto em São Paulo é uma boa mostra destas características e com certeza vale a visita.

Em muitas obras a relação com a imagem fotográfica é pautada pelo jogo da mídia, pela superexposição e por uma repetição seriada de produtos e celebridades. Warhol nos coloca diante de uma vida social como encenação onde a fotografia reforça ainda mais a noção de que fazemos parte destes artifícios.

A Arte Pop se interessa por quase tudo que procede do múltiplo, o processo de repetição se coloca como operação. Benjamin sinalizou muito tempo antes que a reprodutibilidade é uma das questões caras à modernidade. Portanto, todos os artistas da Arte Pop tinham noção do que estavam fazendo com a imagem técnica, criando um problema a partir da sua natureza para gerar um estranhamento. Uma produção muito singular construída por meio das armadilhas desta imagem mecânica.

A relação da Arte Pop e da fotografia é quase ontológica, como assinala Dubois quando defende que esta exprime a filosofia da primeira. Se a imagem fotográfica aparece como obra numa exposição como a de Andy Warhol, vale fazer o caminho oposto e pensar no quanto a arte se apropriou das questões do fotográfico. Além da reprodutibilidade, na Arte Pop estão em jogo estratégias como a instantaneidade, os processos fotográficos de ampliação e diminuição dos referentes, o questionamento da realidade, o uso da fotografia na publicidade e no fotojornalismo, o deslocamento dos elementos. O fotográfico em sua essência.

Em Screen Tests (1960′), série de vídeos de famosos frente a frente com a câmera, a lógica é a do retrato e da encenação novamente, onde celebridades como Bob Dylan e Lou Reed eram convidadas por Warhol a posar durante alguns minutos. A relação com a imagem é incômoda para grande parte dos personagens, pela proximidade do enquadramento, pelo tempo de exposição e principalmente por saberem que estão ali mediados por uma câmera com a noção de que serão vistos de certa forma fora da pose oficial. Mas tudo ainda está no campo da representação, até mesmo o que supostamente não é interpretação. Imperdível observar a ação destes personagens, uma grande aula de retrato no seu sentido mais amplo.