DOBRAS VISUAIS

Algumas notas sobre a mostra de Maureen Bisilliat

Maureen Bisilliat: Pele Preta.

A exposição Maureen Bisilliat – Fotografias em cartaz na Galeria de Arte do SESI em São Paulo é um convite para refletirmos sobre algumas questões. Uma grande oportunidade de ver uma mostra retrospectiva de uma autora muito importante para a fotografia no Brasil.

Maureen Bisilliat marcou presença a partir dos anos 1960, época em que as grandes reportagens estampavam as revistas semanais, e ajudou a formar uma idéia do que viria a se desenvolver como a fotografia documental no Brasil. Os primeiros ensaios presentes na exposição são bastante significativos deste período, como Bahia amada Amado, À João Guimarães Rosa, Caranguejeiras, Vaqueiros e Xingu. Em cor e preto e branco, as imagens mostram um homem localizado em um espaço que Maureen cria para que possamos observar situações cotidianas, que de certa forma eram desconhecidas em fotografia até aquele momento. Aqui a visualidade é ampla, do sujeito no seu habitat, com seus costumes e suas crenças. Difícil aproximação do outro pois cair no exótico era um risco. Mas o que vemos aqui é uma construção estruturada possivelmente por meio das relações com a literatura e a antropologia que a autora sempre circundou.

Maureen Bisilliat: Caranguejeiras, 1968.

A literatura de Guimarães Rosa, João Cabral de Mello Neto, Jorge Amado, Euclides da Cunha e as pesquisas de Orlando Villas Boas estiveram presentes na construção de tudo isso que podemos ver na mostra. Pela leitura ou por contato pessoal, Maureen sinaliza o tempo todo a importância destes autores na sua trajetória.

O ensaio Pele Preta chama atenção. Eu não o conhecia e fiquei um certo tempo admirando o que havia descoberto. A presença das palavras de Mário de Andrade e Luís da Câmara Cascudo marcam de novo aquela influência, mas as imagens escapam um pouco à visualidade anterior. O ambiente é intimista, e não por ser interno, isso seria cair numa relação muito óbvia. Também não é pela luz em um preto e branco dramático porque isso é presente nos outros trabalhos. As imagens da mulher negra, do menino com asas, dos simulacros de corpos, parece que são como no poema de Mario de Andrade: “de tudo quanto o povo faz, vem uma força, uma necessidade que, em arte, equivale ao que é a fé em religião”.

Quando cheguei nos trabalhos mais recentes como China, Japão e África fiquei com uma impressão diferente. Já conhecia estes ensaios, mas vê-los na sequência dos anteriores me fez pensar em uma outra construção. Aqui o imaginário criado a partir da literatura não ganha a mesma força nas imagens, e saí com a sensação de já ter visto aquilo em outro lugar. Porque para a grande maioria dos fotógrafos no Brasil as imagens do sertão criadas por Maureen, assim como por Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos são formadoras, e  entendo a dimensão delas neste contexto. Mas as fotografias de um mundo distante me fizeram pensar que talvez alí ela estivesse um pouco dispersa daquilo que essencialmente desenvolveu nos primeiros anos.

Por fim, o espaço expositivo dos livros no final da exposição poderia ter sido dedicado exclusivamente ao histórico da publicações, com a possibilidade de vermos todos os exemplares e os processos de edição em diferentes momentos. Isso seria um ganho maior do que a visualização de fotolitos e provas de impressão. Porque uma mostra desta grandeza tem também o papel formador, e para isso é preciso ver o que tem dentro das caixas de vidro. Junto com as imagens, estes livros são parte desta história que desejamos conhecer.

Maureen Bisilliat: À João Guimarães Rosa, 1966.

Maureen Bisilliat: Pele Preta.