DOBRAS VISUAIS

Uma vida iluminada por imagens

No filme Uma vida iluminada (Dir.:Liev Schreiber, 2003) o personagem vivido por Elijah Wood viaja para a Ucrânia para descobrir quem salvou seu avô judeu durante a Guerra. No decorrer da trama vivemos com ele a busca da resposta sobre quem é a mulher que usa o pingente, objeto que faz parte de sua coleção pessoal, uma espécie de arqueologia onde constrói suas referências de vida.

Alguns retratos fazem parte desta coleção, mas é a imagem da mulher que se configura naquele momento como um objeto biográfico, algo que carrega um significado da sua vida e que o personagem procura desvendar. O roteiro é bem conhecido no cinema, a partir de uma fotografia o protagonista vai em busca de uma peça do quebra cabeça para compreender sua existência.

Por outro lado, fotógrafos também gostam deste enredo. Nas reportagens sobre tragédias como a do Haiti recentemente, encontramos brinquedos, roupas, bolsas e tantas outras coisas no meio dos destroços. Como se no panorama sobre algo maior pudessemos olhar para um indivíduo dono daquele objeto. É inevitável pensar na sua vida, sobre quem era, quais as pessoas que conviviam com ele, sobre o que significa uma vida no meio de tantas outras que se foram. E mesmo tendo a noção de que a fotografia não é prova de nada, continuamos construindo estas imagens, nos debruçamos sobre esta idéia e construímos nossas histórias.

No livro The blue room (2008) Eugene Richards fotografou casas abandonadas pelo interior dos Estados Unidos. Entre tantos objetos encontrados, as fotografias acabam fazendo parte deste mapeamento. E de novo podemos imaginar inúmeras histórias de vida a partir das imagens abaixo, pela presença no retrato ou pela suposta disposição de fotos familiares que remetem a um formato de uma árvore genealógica nas marcas na parede. Entre ruínas e casas destruídas pelo tempo o fotógrafo insere as fotografias como se nos desse uma pista ‘mais concreta’ daqueles que moravam ali. Não à toa usa uma imagem encontrada como capa do seu livro.

Como no filme de Liev Schreiber, vivemos em busca de um significado para essas imagens, cinema e documentação, ficção e realidade não podem se separar. E isso é uma condição, precisamos de uma para compreender a outra no mundo atual.

Eugene Richards: The blue room, 2008.

Eugene Richards: The blue room, 2008.

Eugene Richards: The blue room, 2008.

The Blue Room (Eugene Richards, 2008).