DOBRAS VISUAIS

Ano novo, imagem velha

No texto Desempacotando minha biblioteca, Walter Benjamin fala sobre seu sentimento diante do gesto de colecionar, especialmente da forma como adquiria seus livros. Dizia que a herança é uma das maneiras mais pertinentes de formar uma biblioteca. Lembrei-me disso porque no retorno das férias passei por uma experiência peculiar, daquelas que nos fazem reviver diferentes situações em uma só. Vou tentar explicar.

Tenho uma biblioteca razoável, parte adquirida por mim e parte herdada de meu pai. De todo o luto vivido após a sua morte há oito anos, sem dúvida uma das experiências mais intensas foi entrar na sua biblioteca. Ali, rodeada de todos os livros que passei minha vida vendo-o ler, compreendi que em parte continuaria comigo. Quando ele lia, riscava as passagens mais significativas, anotava datas importantes, guardava papéis e fotos relacionados aquele momento. Eu também herdei esses gestos. Assim, cada livro era como um diário de um determinado período.

Por uma questão espacial da minha casa tive que fazer algumas escolhas e fiquei com a literatura que nos aproximava. Outras publicações muito específicas que o interessavam doei para bibliotecas públicas e tive que fazer uma espécie de varredura pois tinha a sensação de que poderia deixar passar algo que pertencia a sua vida e naquele instante, por consequencia, a mim.

Benjamin dizia ainda que para um colecionador a aquisição de um livro representa o seu renascimento. Incluo aqui a fotografia já que muitas imagens tornam-se presentes novamente após a sua descoberta. Nestas férias ressuscitei uma fotografia que estava em um dos livros da minha herança. A imagem da cidade em que nasci me levou a um momento muito especial da infância, um dia em que meu pai levou seus filhos para fotografar todos os lugares importantes da sua vida porque estávamos de mudança para o sul do país.

Paralisei diante daquele recorte do tempo da imagem. Quando meu filho nasceu voltei à cidade natal e fiz um percurso semelhante, mas a maior parte dos lugares não existiam mais. O taxista que me levava ria e me dizia que eu era de outro tempo. Na sua simplicidade ele tinha razão.

“… nada dá mais consistência à imagem que a vivência do tempo.  Nada nos deixa mais em paz com o tempo do que a experiência da imagem.” Assim Ronaldo Entler termina seu post no Icônica relatando celebrações da vida e da morte.

No dia em que sai com meu filho não fotografei, eram imagens impossíveis de serem feitas. Quando abri o livro e me deparei com aquela velha fotografia, entendi que havia ali um deslocamento do tempo e que a imagem não realizada era uma em que meu pai e meu filho estivessem juntos. Mario Quintana dizia que a imaginação é a memória que enlouqueceu. Talvez eu siga nesta direção para ficar em paz com o tempo. Bom ano para todos nós!